29 janeiro 2013

JOVENS SEM IDENTIDADE


Elisabete R. Pereira

Há uma preocupação natural entre os pais de adolescentes, mais precisamente os pais daqueles que já deixaram a adolescência e estão num período transitório. Isto porque nesta fase, os jovens já adquiram uma emancipação inegável e, portanto, não desejam mais ir à igreja, seja na escola bíblica ou no culto do domingo à noite. Muitos se sentem donos dos seus próprios narizes.
A vontade de estar nos átrios do Senhor vai se desvanecendo e os filhos vão para o campo de trabalho, obtendo sucesso na vida profissional e parecem caminhar para o curso deste mundo.
Mas, é preciso perscrutar as causas deste afastamento, deste súbito interesse de se desligar da igreja, a fim de entendermos os verdadeiros motivos que levam a juventude a se distanciar do convívio religioso.
Sem responsabilizar a liderança eclesiástica e tampouco abreviar o compromisso dos pais que têm o dever de ensinar os filhos desde a mais tenra idade no Caminho, é possível destacar alguns pontos:

1. Falta homogeneidade: as classes de escola bíblica normalmente são divididas por faixa etária e não por afinidade. As crianças e os jovens, às vezes, vão para as salas e não encontram parceiros de estudo, alguém para compartilhar as mesmas dificuldades e alegrias do seu cotidiano. Isto sem contar que é comum ter as atividades expostas por pessoas despreparadas tanto teologica quando pedagogicamente. Em sala de aula não são oferecidas dinâmicas que promovam o envolvimento mútuo e os relacionamentos que tragam homogeneidade ao grupo. Se os recursos pedagógicos forem escassos e a aula for pautada no monólogo (professor fala e aluno ouve), o jovem certamente se sentirá só, desamparado e se for do tipo tímido ou calado procurará sanar as suas dúvidas em casa com os pais, se estes por sua vez forem convertidos e se houver um ambiente propício. É preciso desmantelar as panelas!

2. Falta fraternidade: acho que para o nosso tempo devemos considerar a palavra coleguismo. A palavra fraternidade significa amor ao próximo. É o mesmo que tratar os outros como se deseja ser tratado. Os jovens sentem as mesmas necessidades relacionais que os adultos. É preciso trocar informações, encontrar-se fora dos limites da igreja, participar de eventos, confidenciar peculiaridades, chorar e rir juntos. Quando a igreja não tem força para promover coesão entre os jovens, eles se dispersam e não se sentem mais motivados a freqüentar um grupo que não os aceita, que não se incomoda em agregá-los. Eles se sentem fora do ninho e acabam sendo influenciados por outras manifestações que lhes dêem prazer, que falam a sua linguagem, que tenham os seus costumes, que não os rejeita. Razão de alguns filhos de crentes se enveredarem pelos caminhos das drogas, incluindo os bulímicos e anoréxicos, que atentam para padrões do mundo e a ditadura da moda.

3. Falta discurso teológico: há um generalizado desprezo para com a Hermenêutica Bíblica nos últimos tempos. Os que tem manuseado a Palavra da Verdade nem sempre estão capacitados para trazer ao público juvenil a historicidade dos textos Sagrados. Assim, a contextualização fica manca e alguns jovens reproduzem discursos distorcidos e sem bases bíblicas. Sem conhecimento suficiente alguns líderes manipulam grupos induzindo o rebanho à marginalização, ao distanciamento da fonte da água da vida e à perdição. Os jovens acabam cometendo erros por não conhecerem as Escrituras e nem o poder de Deus. Alguns tem zelo sem conhecimento, buscam leituras extra-bíblicas sem qualquer orientação e assim produzem maus frutos e dão mau testemunho aos que estão de fora.

4. Falta espírito urbano: durante muito tempo meus filhos e eu praticamos missões urbanas, visitando favelas, levando suprimento aos excluídos da sociedade na capital de São Paulo. Levávamos tanto o adulto como o jovem aos pés da Cruz, intempestivamente. Descobrimos que igreja deve ser um lugar de portas abertas ao longo do dia, um local de refúgio, de confissão de pecados, de socorro, de perdão, de misericórdia. Quando pensamos em igreja, logo pensamos num ajuntamento de pessoas santas, cordiais, amáveis, hospitaleiras, de braços abertos e prontas para acolher aqueles que a procuram. Raramente vemos um jovem se convertendo e buscando a Deus desprovido de companhia. No mínimo ele foi amparado por alguém que impactou o seu coração com o Amor do Senhor Jesus. Mas, para que continue a sua caminhada religiosa é preciso que alguém o leve. Este “discipulador” deve procurá-lo constantemente, estabelecer sólidos contatos para que o jovem neófito não “escape”. O risco dos nossos tempos é que tem faltado espírito urbano e os líderes da juventude ou discipuladores não visitam mais suas ovelhinhas, não ligam, não lembram-nas do compromisso do final de semana, não as incentivam a permanecer no caminho da graça, as menosprezam. Falta urbanismo, é preciso oferecer carona, é preciso ligar, é preciso orar juntos, chorar juntos. É preciso haver aliança.

5. Falta humanizar as pessoas e deixar que as coisas continuem sendo coisas. Sacralizando ou humanizando as coisas, valorizaram o inanimado. Mais uma ditadura, a da auto-suficiência! Fazer compras por telefone ou pela Internet se tornou uma tarefa fácil, prazerosa e segura, na maioria dos casos. Aprende-se à distância, amizades são estabelecidas on-line e até namoros. A telefonia móvel celular deixou de ser apenas um telefone sem fio. Hoje um celular dispõe de recursos cada vez mais avançados. É possível fotografar, gravar, filmar, exibir páginas da Internet e de comunicação com redes sociais em tempo real entre outras facilidades pessoais e personalizadas. As coisas tomaram um lugar importante na vida das pessoas e não somente isto, algumas delas tem sido o Baal das últimas gerações. Numa via de contra mão as pessoas tem sido coisificadas. Entretanto, a velocidade ou a promessa da facilidade das coisas não tornaram as pessoas mais ociosas ou disponibilizaram mais tempo para outras atividades, ao contrário, as coisas tornaram-se verdadeiras vilãs que roubam o tempo. Os jovens, sucumbidos por esta avalanche de inovações, não são incentivados a fazerem visitas aos asilos, aos hospitais, aos descrentes. Todos alegam que não têm tempo. Não são mais promovidos cultos ao ar livre, para que o transeunte seja alcançado, é preferível a igreja com ar condicionado. Se a maioria possui carro cada um vai dirigindo o seu, extingue-se o lema “um por todos, todos por um”, agora é “cada um no seu quadrado”. 

6. Falta oportunidade: são sempre os mesmos que tocam, que louvam, que dançam, que oram, que pregam. Se não dão oportunidade aos jovens eles hão de se sentir inúteis e sem valor. Muitos possuem conhecimento, tem conteúdo e dons, porém, são “atropelados” por uma liderança cega e tirana que só busca privilegiar os filhos dos membros eméritos. É preciso dar oportunidade a todos, assim como o Brasil é um país de todos, a igreja também deve oferecer um lugar para todos.

7. Falta voluntariado: a maioria dos serviçais da igreja é voluntariado. Há casos onde até o pastor não é remunerado por seu trabalho eclesiástico ou possui vínculo empregatício. O mesmo acontece com os presbíteros, diáconos e outros líderes e auxiliares, mas em muitos lugares são cargos disputadíssimos. Buscar um membro da juventude para se voluntariar como recepcionista nos cultos do domingo à noite, para cuidar da arrumação das cadeiras ou até mesmo do som, são coisas que eles adorariam fazer para se sentirem úteis, agregados, valorizados, importantes. Quando um jovem é visto como um vidro transparente e sua presença passa despercebida, não há razão para freqüentar a igreja.

É preciso dar IDENTIDADE à nossa juventude cristã. A venda de IPADs nos EUA já totaliza um bilhão de dólares*. O mundo tem dado prazer sem fronteiras à juventude em todo planeta. O que a igreja cristã pode oferecer para eles além de um assento aos domingos?
É imprescindível que busquemos resgatar para eles aquilo que verdadeiramente teve valor para nós no passado e que nos deu a chance de hoje estarmos na Casa do Rei. Se quisermos mudança, devemos promover estas mudanças!
Quando a nossa juventude descobrir o real valor das coisas divinas, as terrenas tornar-se-ão insípidas, infrutíferas, indesejáveis e desgostosas. Assim, eles sentirão plena satisfação em depender exclusivamente de Deus e alcançarão uma IDENTIDADE Cristã.
“As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam” – Cantares 8:7.

Elisabete R Pereira é missionária em Anápolis-GO, bacharel em teologia com especialização em psicologia pastoral pelo CPPC, Mestre em Teologia pelo ITEPAR e missionária online da Global Media Outreach. Tem dois filhos, Kaleb e Jade e é membro da Igreja Presbiteriana Orvalho do Hermom.

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