01 fevereiro 2013


O que os pentecostais estão lendo?


Uma questão importante para qualquer segmento é o nível de leitura de seus membros. No pentecostalismo a prática da leitura é crescente e incentivada como nos demais ramos do protestantismo, mas com exceção de grupos e até denominações que são totalmente anti-intelectuais [1]. Muitos escritores pentecostais já conseguiram alcançar cifras de milhões de livros vendidos, sendo verdadeiros best-sellers para o mercado editorial. De maneira geral, o evangélico brasileiro lê mais do que o brasileiro não-evangélico [2].
O que os pentecostais têm lido? Qual é a qualidade da produção literária dos pentecostais? Quais são as tendências de literatura consumida pelo público das igrejas que pregam os carismas? Essas são algumas perguntas que serão respondidas nesse artigo.

01. Produção literária dos autores de confissão pentecostal.

Quem procurasse um livro de um pastor assembleiano na década de 70, 80 ou 90, certamente estaria levando para casa um testemunho ou devocional. Os livros mais sofisticados, produzidos pelos pastores pentecostais, seria uma obra de escatologia dispensacionalista. Livros de “estudos bíblicos” eram produzidos em grande escala, mas tinham pouca profundidade e estavam cheios de tópicos. Profundidade e linguagem acadêmica era o que mais faltava nas obras de pentecostais.
A produção acadêmica-teológica era pequena e de pouca expressão a participação dos escritores carismáticos. Nenhuma obra de peso foi produzida pelos pentecostais em décadas passadas, com exceção da Bíblia de Estudo Pentecostal, produzida pelo missionário norte-americano Donald Stamps e editada no Brasil pelo teólogo Antonio Gilberto, onde até hoje é a bíblia de estudo com o maior sucesso editorial no Brasil, com mais de um milhão de cópias vendidas. Donald Stamps teve auxílio valioso de teólogos expressivos do Movimento Pentecostal, como Stanley M. Horton e William W. Menzies. A BEP foi lançada em 1995, mas teve seu principal desenvolvimento na década de 80.
A Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) e a Editora Vida são as editoras que tradicionalmente publicam as obras de escritores pentecostais no Brasil. Em ambas editoras, por muitos anos, as obras de testemunho ou de estudo bíblico básico eram predominantes no currículo das distribuidoras de obra para os pentecostais. Os pentecostais que quisessem aprofundamento teológico tinham que recorrer a outras editoras. Os teólogos pentecostais que começaram a despertar o intelecto carismático foram dois súditos da Rainha: o inglês Donald Gee e o escocês Myer Pearlman. Outro nome de influência na teologia pentecostal era do dinamarquês P.C. Nelson, co-autor do best-sellerHermenêutica [3].

02. Início da produção teológica aprofundada.

A produção teológica profunda e expressiva no pentecostalismo começa por meio dos norte-americanos e canadenses. Em 1984, Roger Stronstad lançou o livro The charismatic theology of St. Luke, onde ele faz uma leitura exegética do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, para provar sua tese de que Lucas registrou a história com teologia. Outras grandes obras são Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, cujo editor foi Stanley M. Horton, mas reuniu dezoito teólogos pentecostais da América do Norte[4]. Em 1999, como complemento da Bíblia de Estudo Pentecostal, os teólogos French L. Arrington e Roger Stronstad lançam o Comentário Bíblico Pentecostal, obra de profundidade exegética e um comentário excelente do Novo Testamento. [5]
Em breve, a Casa Publicadora das Assembléias de Deus lançará a obra Teologia Sistemática Pentecostalescrita por pastores da Assembléia de Deus no Brasil. Será, depois do Dicionário do Movimento Pentecostal, a primeira obra de grande extensão produzida por pentecostais brasileiros.
A produção exegética pelos pentecostais no Brasil é bem tímida, mas um destaque nesse campo vem do teólogo Esdras Costa Bentho, que produziu duas excelentes obras na área hermenêutica. Nos Estados Unidos, um dos mais famosos exegetas protestante é o pastor assembleiano Gordon Fee.
Em trabalho de filosofia e cosmovisão, o teólogo Geremias do Couto e o pedagogo César Moisés estão preparando uma obra no contexto brasileiro sobre as perspectivas do tempo pós-moderno sobre a cultura. Geremias do Couto, nas lições bíblicas do último trimestre de 2005, escreveu sobre a pós-modernidade e ainda foi editor da obra E Agora, Como Viveremos?, de Charles Colson e Nancy Pearcey.
No contexto apologético, alguns nomes se destacam no cenário evangélico brasileiro, de obras produzidas por pentecostais, como o livro Desmascarando as Seitas de Paulo Romeiro e Natanael Rinaldi,Manual de Apologética de Esequias Soares etc. Analisando o neopentecostalismo, os pentecostais produziram muitas obras, como: Super Crentes, Evangélicos em Crise e Decepcionados com a Graça de Paulo Romeiro; Heresias e Modismos de Esequias Soares; Evangelho da Nova Era de Ricardo Gondim;Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria de Ciro Zibordi. Refletindo sobre o liberalismo teológico os pentecostais escreveram Teologia Contemporânea de Abraão de Almeida; Sedução das Novas Teologiasde Silas Daniel. É interessante observar que no campo apologético os pentecostais conseguiram sobressair, sendo uma área de importância grande para o evangelicalismo atual.
Outra área de destaque de produção pentecostal é na pedagogia cristã. A obra Manual da Escola Dominical, do pedagogo e teólogo Antonio Gilberto foi catalisador nessa tendência, vindo depois obras de pedagogos como Marcos Tuler, Débora Ferreira e César Moisés.

03. Deficiências na produção literária pentecostal

Os pentecostais, ainda, produzem pouca literatura de profundidade teológica. Ainda não se vê obras sobre introdução ao Antigo Testamento ou tratados sobre filosofia contemporânea. A maioria dos autores pentecostais escrevem para massas e não para academia. É importantíssimo um maior investimento nas áreas da academia, para que os pentecostais possam ocupar um espaço, muitas vezes dominados pelo liberalismo alemão.

04. Leitura dos pentecostais

Os que os pentecostais têm lido? Essa pergunta só pode ser entendida se for dividido os pentecostais em dois grupos: os de tendência ao academicismo e os que estão se neopentecostalizando.
Nos último semestre, a Casa Publicadora das Assembléias de Deus, cujo publico é pentecostal em sua maioria, publicou obras de alguns renomados teólogos reformados, como John Piper, Donald A. Carson, R.C. Sproul, Mark Dever, John McArthur Jr e a reedição da obra de Matthew Henry. Essas obras lançadas mostram que os pentecostais estão a cada dia mais interessados nos escritos de reformados. Não é de hoje que a CPAD lança obra de teólogos reformados, mas essa tendência tem sido fortalecida nos últimos anos. Como o publico dessa editora é pentecostal, em sua maioria, isso mostra uma tendência viva e constante no pentecostalismo brasileiro.
Os pentecostais que estão se neopentecostalizando, lançam mão das obras dos grandes líderes carismáticos da América do Norte. O maior sucesso para esse público é a obra Bom Dia, Espírito Santo, do pastor Benny Hinn. Outra obra de sucesso é O Nome de Jesus, de Kenneth Hagin. Os autores que fazem sucesso para os pentecostais que estão se neopentecostalizando e que moldam a teologia neopentecostal são, além de Hinn e Hagin (os principais): T.L. Osborn, Frank Peretti, Don Gosset, Peter Wagner, Rebecca Brow, Kenneth Copeland, Paul Crouch, Joyce Meyer; além dos brasileiros R.R. Soares, Edir Macedo, Valnice Milhomens, Neuza Itioka, Marco Feliciano, Robson Rodovalho, Jorge Linhares e o português-angolano Jorge Tadeu.
Quais das duas tendências estão prevalecendo? Pergunta difícil de ser respondida, pois é certo dizer que as duas tendências têm espaço no pentecostalismo contemporâneo. Quais das duas tendências ajudarão no amadurecimento dos pentecostais? Certamente é o consumo de obras dos reformado-ortodoxos, que primam pelas Escrituras e os valores da Reforma Protestante.
Além dessas duas tendências, é preciso destacar que há um universo de crentes pentecostais que nada lêem e outros que estão em busca de uma literatura recheada pelos novos conceitos do liberalismo teológico. O universo que não lê é manipulável para os influenciados da teologia neopentecostal, sendo esse grupo forte e crescente no meio das igrejas. O liberalismo teológico tem entrado por meio dos inconformados com o mercantilismo neopentecostal e com o “fundamentalismo” reformado, sendo passível da “linguagem piedosa” usada pelos liberais.

Conclusão:

A produção de livros teológicos profundos e prontos para atender as necessidades da academia, começam a nascer no meio pentecostal, ainda de forma tímida, mas crescente e constante. Os pentecostais, que lêem, consomem cada dia mais obras de teologia ortodoxa e qualificada, representando uma esperança para solidificação do Movimento Pentecostal. Em contrapartida, há muitos sendo influenciados pelos modismos neopentecostais, sendo um campo que precisa ser trabalhado.



Notas e Referências Bibliográficas:

1- Denominações como a Igreja Pentecostal Deus é Amor, fundada pelo missionário David Martins Miranda, não possui uma editora e proíbe seus membros de estudarem em escolas teológicas de outras denominações. A IPDA não possui nenhum seminário teológico de nível superior e publica pouquíssimos materiais escritos.
2- Segundo reportagem da Revista Veja, de 03 de julho de 2002, o evangélico brasileiro ler em média 06 livros por ano, enquanto a média nacional é de 03 livros por ano. A média da tiragem de um livro evangélico é de 5 mil cópias, enquanto as editoras seculares no Brasil tem como média 2,5 mil cópias por edição.
3- O livro Hermenêutica: Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras, lançado em 1966 e no Brasil pelo Editora Vida, foi um grande sucesso nos seminários teológicos do Brasil. Escrito por E. Lund e P.C. Nelson mostra uma das primeiras obras de pentecostais a fazer sucesso em torno o mercado teológico brasileiro. P.C. Nelson aprendeu aos pés de Augustus H. Strong e se tornou um dos mais célebres educadores pentecostais, sendo fundador da Southwestern Assemblies of God College.
4- A obra editada por Horton não foi a primeira que sistematizou a teologia pentecostal. Em 1926 S.A. Jamieson publicou o livro Coluna da Verdade; em 1934 P.C. Nelson escreveu a obra Doutrinas Bíblicas. O best-seller de Myer Pealman, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia foi lançado em 1937. A obra Systematic Theology, de Ernest S. Williams foi publicada em 1953. Na década de 90, Stanley M. Horton, além de editor de Teologia Sistemática, lança com o Dr. William W. Menzies o livro Doutrinas Bíblicas- Os fundamentos da nossa fé. Em 1991, os teólogos Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, da Igreja do Evangelho Quadrangular, lançam em dois volumes a obra Fundamentos da Teologia Pentecostal.
5- Para diversas dados expressos nesse artigo: ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.; SOARES, Esequias. A teologia assembleiana in. Manual do Obreiro. Ano 29, n. 38, pp 15-19; MARIANO. Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

Carlos Nunes

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