27 março 2013


A HISTÓRIA DA TRADUÇÃO DA BIBLIA EM PORTUGUÊS


 O presente trabalho foi apresentado pela primeira vez como texto exigido para a matéria de História das Religiões, na Universidade de Brasília. Posteriormente foi apresentado em forma de palestra no encontro da CEHILA (Comissão de História da Igreja na América Latina) entidade que coordena historiadores e pesquisadores interessados na história eclesiástica em nosso continente. Mais tarde ele sofreu nova alteração para ser utilizado na internet, no sítio, www.estudosbiblicos.com. Ele está sendo aperfeiçoado para futura publicação num livro que congrega diversos autores, que estão interessados na divulgação da Bíblia.Existe ainda resquícios da oralidade exigida pela apresentação no encontro da CEHILA. O que torna o texto mais leve do que um trabalho acadêmico, com suas exaustivas notas e referências bibliográficas. 

Brasília, 29 de março de 2.001 A Bíblia em Português 
A história da Bíblia em português é cheia de lances dramáticos e tão antiga quanto a da Bíblia inglesa, pois os primeiros ensaios de tradução datam dos tempos do rei Diniz (1279-1325), antes mesmo de Wycliff[1] . A primeira porção traduzida, foram os vinte primeiros capítulos do Gênesis, da Vulgata Latina, pelo próprio rei D. Diniz. Mas o Novo Testamento só mais tarde foi traduzido para o português, talvez uns cinqüenta anos depois de Wycliff, quando D. João era rei (1385-1433), o qual ordenou a tradução dos Evangelhos, dos Atos e das Cartas Paulinas, trabalho que foi executado provavelmente por padres católicos e certamente da Vulgata.
 A publicação das porções acima do Novo Testamento se adicionou o livro de Salmos, traduzido pelo próprio rei. Outras traduções, sem grande importância para a história da Bíblia em português, seguiram-se. De acordo com a tradição, a Infanta D. Filipa, filha do senhor Infante D. Pedro e neta do rei D. João, traduziu os Evangelhos do francês. O frei cisterciense Bernardo de Alcobaça traduziu o Evangelho de Mateus e parte dos outros, publicando seu trabalho em Lisboa no século XV. Em 1495 um Harmonia dos Evangelhos foi publicada em Lisboa por Valentim Fernandes. No mesmo ano um jurista chamado Gonçalo Garcia de Santa Maria traduziu as Epístolas e os Evangelhos. 
Dez anos depois os Atos e as Epístolas Gerais foram traduzidos por ordem da rainha Leonora. A linguagem portuguesa destes primeiros escritos é arcaica. Algumas destas tentativas usaram um português tão arcaico como o inglês de Wycliff. O futuro da Bíblia em português dependia, entretanto, de João Ferreira de Almeida, nascido em Torre de Tavares, próximo de Mangualde, Portugal, em 1628. Seus pais eram católicos, mas ele se converte a fé da Igreja Reformada em 1642, pela profunda impressão que causou em seu espírito a leitura dum folheto espanhol. Desde o princípio de sua conversão, mostrou a sua aptidão para o estudo teológico e a participação na liderança eclesiástica. Ignoram-se as circunstâncias que o fizeram transportar-se à Batávia, onde se tornou muito ativo e zeloso no trabalho de evangelização, pregando nas línguas portuguesa, espanhola, francesa e holandesa. Seu primeiro trabalho foi a tradução do espanhol de um resumo dos Evangelhos e Epístolas. Este não foi publicado. Almeida conta-nos que, enquanto se demorava em Málaca, principiou a traduzir algumas partes do Novo Testamento do espanhol para o português[2] diz ele: “no segundo ano após minha conversão (do catolicismo romano para o protestantismo) e meu décimo sexto ano de idade”. Ele acrescenta que terminou esta tarefa de iniciativa própria em 1645. Mais tarde, com 17 anos de idade somente, ele traduziu o Novo Testamento da versão latina de Beza. Ele também traduziu o Catecismo de Heidelberg e a liturgia reformada para o português. A Igreja Reformada não cabia em si de contente em se servir dos serviços de um homem jovem e talentoso como Almeida, cuja língua materna era o português. A razão disto estava em que o português era a língua franca de muitas partes da Índia e sudoeste da Ásia. Por causa da expansão marítimo-comercial. o português era usado nas congregações da Igreja Reformada, por asiáticos e cristãos protestantes por conversão (com freqüência do catolicismo). No decorrer dos tempos o número destes cristãos de fala portuguesa foi crescendo em Málaca e Batávia, e algumas vezes até excedia aos cristãos da língua holandesa. Durante a sua longa vida pastoral, Almeida escreveu e publicou várias obras de caráter religioso. Entretanto, ele ajudou a publicar outras obras, de cunho secular. Pode-se mencionar a sua revisão de uma tradução em português das fábulas de Esopo, feitas por M. Mendes de Vidigueyro, intitulada Esopete Redi Vivo (1672). Anos depois ele sente a necessidade de apresentar o Evangelho ao povo de Portugal numa tradução mais séria. Após aprender o grego e hebraico, começou sua tradução do Novo Testamento, tendo como base o chamado "Textus Receptus", segunda edição de 1633 publicada por Elzevir. Este trabalho ele o findou em 1670, mas a publicação só teve lugar em 1681, em Amsterdã, na Holanda, assim entitulada: "O Novo Testamento Isto he o Novo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo traduzido na Língua Portuguesa pelo reverendo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Sacto Evangelho nesta cidade de Batávia, em Java Maior". [3] Antes que saísse do prelo sua tradução, em 1o. de janeiro de 1681, Almeida publicava uma lista de mais de mil erros em seu Novo Testamento, e Ribeiro dos Santos afirma serem mais. Estes erros eram devidos ao trabalho de revisão feito por uma comissão holandesa que procurou pôr a tradução de Almeida em harmonia com a versão holandesa. Algumas razões levam-nos a crer sido esta uma versão pobre, no dizer de Ribeiro dos Santos[4]. O texto grego do qual ele traduziu não era bom, embora fosse o melhor do seu tempo. Sua linguagem não era boa, não só por haver deixado Portugal bem cedo, mas também porque tentou fazer uma tradução literal, seguindo muito de perto a versão holandesa de 1637 e a castelhana de Cipriano de Valera de 1602. Também o trabalho de revisão, feito por seus colegas holandeses, piorou ainda mais o seu trabalho. 

Em março de 1683 Almeida deu, ao Presbitério em Batávia, a notícia de que completara o Pentateuco e que esta fora revisado pelos seus colegas holandeses. Entretanto, ele não pôde completar seu trabalho. Sua tradução só chegou até o livro de Ezequiel, capítulo 48, versículo 21. A última parte foi completada por Jacobus op den Akker em 1694. Depois de muitos problemas foi impresso na Batávia (em dois volumes, 1748 e 1753).O saltério de Almeida foi publicado no Livro de Oração Comum[5] para o uso das congregações da Igreja Anglicana na Índias Orientais, em 1695. Nesta época, o rei da Dinamarca, Frederico IV, interessou-se em desenvolver no Oriente o conhecimento das Escrituras Sagradas, e pelo seu patrocínio foi estabelecido o trabalho em Tranquebar, aonde foram muitos missionários célebres. Para este trabalho foi publicada, em Amsterdã, uma 3º edição do Novo Testamento de Almeida, às expensas da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, em 1712.[6] Somente no fim do século XVIII, e o princípio do XIX, a Bíblia inteira, na tradução de Almeida, foi publicada. Sob os auspícios da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, foi publicada uma edição do Novo Testamento de Almeida em 1809. Em 1819 Bíblia completa de João Ferreira de Almeida foi publicada em um só volume pela primeira vez, com o título: A Bíblia Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamentos, traduzida em português pelo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Santo Evangelho em Batávia.Londres, na oficina de R. e A Taylor, 1819 8º gr. de IV884pp. A que se segue, com rosto e numeração o Novo Testamento, contendo IV – 279 páginas. Apesar de tudo, a tradução de Almeida encerra algumas coisas notáveis. Ela teve lugar em Batávia, na ilha de Java, milhares de quilômetros longe de Portugal. Realizou-se num a terra cuja língua oficial não era o português. Era a 13a. tradução numa língua moderna depois da Reforma. Feita por um pastor protestante, destinava-se a um país católico, como Portugal, que só poderia receber de bom grado uma tradução do Novo Testamento feita diretamente da Vulgata. E o mais dramático lance de sua grande obra é que até hoje nos países de língua portuguesa, sua tradução, mesmo que sofrendo inúmeras reformas, ainda é usada e querida. O padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido em Mação, Portugal aos 14 de fevereiro de 1725, realizou a primeira grande tradução da Vulgata para o português. Seu trabalho consumiu-lhe dezoito anos de esforços. O Novo Testamento apareceu primeiro, em 1781 e a Bíblia toda, em seis volumes, pouco depois. A linguagem de Figueiredo é inegavelmente superior à de Almeida. Alguns fatores contribuíram para esta melhora. Figueiredo possuía cultura muito superior à de Almeida e ele traduzira a Bíblia e publicara o seu Novo Testamento exatamente um século depois da obra imortal de Almeida. Embora revelando sensível melhora quanto ao português da tradução, Figueiredo não pode escapar aos defeitos de uma tradução que tem por base uma outra tradução. A Vulgata é uma mera revisão do Velho Latim, textos antigos do Novo Testamento, vertidos do grego, que Jerônimo usou para seu trabalho e com tendências peculiares. A tradução de Figueiredo tem sido usada pela Igreja Romana desde então. 
A primeira tradução da Bíblia iniciada no Brasil, foi feita pelo refugiado Bispo de Coimbra, Frei D. Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, o qual publicou só o Novo Testamento em São Luís, Maranhão, em 1875, enquanto que o trabalho de impressão foi feito em Portugal. O século XX viu florescer no Brasil uma série de grandes traduções do Novo Testamento e da Bíblia toda, tanto do lado protestante como da Igreja Católica. Duas tentativas sem grande importância tiveram lugar. D. Duarte Leopoldo e Silva, traduz e publica os Evangelhos, arranjados como uma harmonia. Depois o Colégio da Imaculada Conceição, Botafogo, Rio de Janeiro, publica uma tradução dos Evangelhos e Atos, do francês, preparada por um padre católico, em 1904. Os padres franciscanos iniciam um trabalho de versão da Bíblia em 1902 e, embora traduzindo da Vulgata, tentaram fazer um trabalho realmente crítico. Sua edição dos Evangelhos e Atos apareceu em 1909. Estava reservada ao então padre Humberto Rohden a primeira tradução diretamente do grego para o português, feita por um católico. Isto ele fez num trabalho começado quando estudante na Universidade de Innsbruck, Aústria (1924-1927) e terminado no Brasil. Publicado sob os auspícios da Cruzada da Boa Imprensa. O trabalho do padre Matos Soares, é a versão mais popular da Igreja Romana no Brasil. Depois do concílio Vaticano II[7] , a Bíblia encontrou mais espaço dentro da Igreja Católica. Várias traduções surgiram, como a Edição Pastoral[8], publicada pelas Edições Paulinas. Feita por eruditos brasileiros, liderados pelo teólogo Ivo Storniolo. Ela foi divulgada entre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tendo como base teológica a Teologia da Libertação. Storniolo também colaborou com uma outra importante tradução católica, a conhecida Bíblia de Jerusalém. Inicialmente foi publicada em francês, nos anos 70, produzida por padres belgas. Nos anos 80 aparece a versão brasileira. Que segue o critério de tradução dos franceses, uma linguagem moderna, porém sem excessiva simplificação, com base nas línguas originais. As notas e comentários foram, em parte, traduzidos da versão francesa.
 Recentemente a Edições Loyola, publica no Brasil, a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). Com notas e comentários, como a Bíblia de Jerusalém, mas difere desta pela linguagem. A TEB foi o trabalho conjunto de eruditos católicos, protestantes e judeus. No Velho Testamento, ela segue a disposição dos livros consagrada pelo judaísmo. Assim nos é explicado por R.T. Beckwith: “(...) a Bíblia Hebraica tem uma estrutura diferente em relação à Bíblia em português. está dividida em duas seções: os Profetas e os Hagiógrafos (escritos sagrados). Os Profetas abrangem oito livros: os livros históricos de Josué, Juízes, Samuel e Reis, os livros proféticos de Jeremias, Ezequiel, Isaías e os Doze (os profetas menores). Os Hagiógrafos compreendem 11 livros: os livros líricos e sapienciais de Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações de Jeremias, e os livros históricos de Daniel, Ester, Esdras-Neemias e Crônicas. Esta é a ordem tradicional, segundo a qual o remanescente hagiógrafo, Rute, vem antes de Salmos. Na Idade Média, esse livro foi colocado em uma posição mais adiante, ao lado de outros quatro livros de brevidade similar (Cantares de Salomão, Eclesiastes, Lamentações de Jeremias e Ester). É digno de nota que na tradução judaica Samuel, Reis, os Profetas Menores, Esdras-Neemias e Crônicas sejam computados cada um como um único livro[9]. A TEB representa uma nova mentalidade da Igreja Romana. Se antes, as Bíblias Protestantes eram acusadas de serem falsas e conterem inúmeros erros, agora o discurso é radicalmente outro. Tenta-se encontrar pontos de contato, pontes são construídas e barreiras são vencidas pelo diálogo. 
Mas adiantamos muito a nossa história. Temos que voltar um pouco no tempo. As Sociedades Bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil reuniram-se, em 1902, para nomear uma comissão para traduzir os textos hebraico e grego em português. Este comissão era formada de vários eruditos ligados a diversos grupos protestantes. Entre eles, o Dr. W.C. Brown, da Igreja Episcopal; J.R. Smith, da Igreja Presbiteriana Americana (igreja do sul); J.M. Kyle, da Igreja Presbiteriana (igreja do norte); A.B. Trajano, Eduardo Carlos Pereira e Hipólito de Oliveira Campos[10]. Além do texto grego e de todas as versões portuguesas existentes, a comissão tinha as seu dispor muitos comentários e obras críticas que contêm os mais novos e mais úteis resultados da investigação e estudo moderno do Novo Testamento. A Tradução Brasileira, iniciada em 1902, editando os dois primeiros evangelhos em 1904, e depois de alguma crítica e revisão, o Evangelho de Mateus saiu em 1905. Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos foram publicados em 1906, e o Novo Testamento completo em 1910. A Bíblia inteira apareceu em 1917. Apesar de suas inúmeras vantagens ela não vingou em terras do Brasil e Portugal. Deixando posteriormente de ser impressa. A história da Bíblia em português se confunde com a história das Sociedades Bíblicas. Entidades sem fins lucrativos, que foram formadas no início do século XIX, para distribuir a Bíblia. Como já foi visto anteriormente, foi a Sociedade Britânica que popularizou o trabalho de Almeida nos países de língua portuguesa. Por volta de 1790[11] morava numa insignificante aldeia de um condado inglês, no País de Gales, a pequena Mary Jones, com cerca de oito anos de idade. Filha de tecelões da localidade, cuja pobreza, naqueles tempos era proverbial, a pequena Mary elevou-se, por assim dizer, à fama mundial. Devido a ela foi fundada a primeira grande Associação da Bíblia. No meio das grandes privações em que viviam, a menina Mary aprendera a ler e, desde então, seu maior desejo fora possuir uma Bíblia. Uma Bíblia no entanto, representava um tesouro inatingível para uma família de tecelões. Assim sendo, Mary começou a economizar tudo o que ganhava prestando pequenos serviços, mas, a fim de um ano, conseguira juntar, o equivalente a pouco mais de uma libra. Uma soma ridícula, em relação ao preço de uma Bíblia completa em língua inglesa. Entrementes o pai morreu, e mãe adoeceu e a libra foi gasta em medicamentos. Mary recomeçou tudo do princípio, com uma perseverança inacreditável numa menina tão pequena. Passados alguns anos suas economias tinham aumentado a ponto de permitir a Mary a ousadia de procurar obter um Bíblia. Mas onde? O próprio pastor local não possuía nenhum exemplar. Ele sabia, porém, de um colega, em Bala, um certo pastor Charles, que tinha um daqueles livros. Bala ficava a 40 quilômetros; mesmo assim, Mary pôs-se a caminho, a pé, levando uma modesta provisão para a viagem. Depois de dois dias de marcha, chegou a Bala e comunicou seu desejo ao pastor Charles. O homem, todavia, sacudiu a cabeça negativamente. Uma Bíblia, sim, ele possuía um exemplar, mas já o tinha prometido a alguém. Além disto, a modestíssima soma que Mary podia oferecer era insuficiente. Diante de tão terrível decepção, depois de anos de privações e de esperanças, a menina desfaleceu. O pastor Charles fez o que em tais momentos qualquer um faria: passou por cima de promessas e ajustes e presenteou a pequena Mary com a sua Bíblia. Fez ainda mais o pastor Charles: na reunião da Sociedade de Assuntos Religiosos, em Londres, ele contou o acontecimento: - “Precisamos achar um meio de imprimir Bíblias ao alcance também do povo pobre de Gales”. No mesmo instante saltou o pregador batista Hughes e exclamou: – Por que só para Gales? Por que não para todo o império? Por que não para o mundo inteiro?” A sugestão foi aceita. Dois anos depois era fundada a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira.
O alcance do trabalho dos ingleses foi fenomenal. Todo o Império Britânico foi alcançado. Na época dizia-se que, os ingleses dominavam o mundo, e seu Império tinha tanto alcance, que o “sol nunca se punha, nas terras dominadas pela coroa inglesa”. Somente em 1949, a distribuição da Bíblia passa a ser feita pelos brasileiros. É a fase conhecida como nacionalização da obra da Bíblia. A data de 1949 é uma referência importante. O trabalho protestante no Brasil sempre dependeu da força estrangeira. Os dois campos promissores para os missionários estrangeiros eram a África e a China. Com a ascensão de Mao na China em 1949, milhares de obreiros cristão foram expulsos pela governo comunista. E muitos deles foram deslocados por suas igrejas para novos campos. A África continuou como um campo promissor, mas logo perdeu sua “hegemonia” para a América Latina. A América Latina, que até então foi negligenciada[12] , recebeu uma leva enorme de missionários. 
Com o aumento do número de trabalhadores, fez-se necessário aumentar o número de ferramentas. A criação da Sociedade Bíblica do Brasil foi a resposta. Desde então a Bíblia se tornou um livro popular no Brasil. Ela acompanhou o crescimento da igreja protestante, e se difundiu no país através dos colportores, como eram chamados os missionários que viajam para vender Bíblia pelo interior do Brasil. Paralelo a este crescimento, surge nos anos 90 um nova versão da Bíblia em português. Seguindo os mesmos ideais da Versão Brasileira. Um tradução promovida por um grupo de eruditos, ao invés de um trabalho solitário, como foi o de Almeida. Uma linguagem moderna, sem simplificação. Bastante acessível ao público médio. Fundamentada em melhores manuscritos, do que o conhecido Textus Receptus, usado por Almeida. Surge a Nova Versão Internacional. Também conhecida como NVI. 


Em 1978, foi apresentada ao povo de fala inglesa, uma nova versão da Bíblia, feita pela Sociedade Bíblica Internacional. Seguindo os melhores padrões lingüisticos e os mais modernos recursos editoriais e gráficos, a NVI, alcançou um amplo espaço no mundo evangélico. Representando uma nova etapa na história das traduções da Bíblia. "... a Sociedade Bíblica Internacional reuniu um grupo de estudiosos evangélicos, de diversas denominações, especialistas nas línguas originais e na língua pátria para produzir um texto fiel e, ao mesmo tempo, contemporâneo. Além de se esforçar por alcançar uma tradução acessível, a comissão formada procurou também esquivar-se da vulgaridade, dos regionalismos, enfim, de tudo que possa empobrecer o texto. É com este espírito de esperança que a Sociedade Bíblica Internacional tem a satisfação de colocar em suas mãos o Novo Testamento na Nova Versão Internacional que pretende ampliar a corrente histórica marcada por aqueles dentre o povo de Deus que têm se esforçado para fazer compreendida a revelação divina na Bíblia Sagrada." [13] Conforme foi visto antes, a divulgação da Bíblia sempre esteve ligada as mudanças que a sociedade sofre. A versão de Almeida se liga ao tempo de formação do protestantismo. A história de Almeida, nas distantes ilhas do pacífico inspirava os primeiros missionários que vinham ao Brasil desbravar o “novo mundo”. A aventura de viajar à cavalo léguas e léguas para levar o “livro santo”, confrontando com o clero hostil, o clima e as doenças tropicais. Mas a obra ainda não tinha sido estabelecida. A mensagem evangélica ainda não tinha fincado raízes no solo brasileiro. A dependência marcou esta primeira fase. Isto pode ser exemplificado pela infrutífera tentativa de produzir uma nova tradução, a versão brasileira. O protestantismo não teve o seu grito do Ipiranga. Ficou limitado a repetir as formas e estruturas do missionário estrangeiro. Figura célebre na história foi o professor Eduardo Carlos Pereira. Gramático conhecido do início do século, liderou um movimento de nacionalização dentro da Igreja Presbiteriana, que até então era liderada por estrangeiros. Ele rompe com a estrutura tradicional e funda a Igreja Presbiteriana Independente. Liderada pelos brasileiros, que comandavam os seminários, igrejas e escolas da nova denominação. Não foi coincidência Pereira ter participado da chamada Versão Brasileira. A fundação da Sociedade Bíblica do Brasil coincide com a nova etapa da evangelização mundial. As portas fechadas da China, que até então demonstrava ser um campo muito promissor. Uma enorme população que estava formando uma nova identidade nacional, mais aberta ao cristianismo[14]. Além do grande investimento de recursos para lá. Fundação de hospitais, seminários e ampliação de igrejas. Finalmente, a NVI aparece num momento oportuno. A Igreja Protestante mudou. Não é mais a igreja pioneira dos primeiros anos, nem é mais a igreja dependente do início do século. A Sociedade Bíblica do Brasil se tornou uma das maiores entidades de promoção da Bíblia no mundo. Até o ano de 1995, apenas duas Sociedades Bíblicas, entre as 120 existentes no mundo, haviam conseguido superar a marca de 20 milhões de Bíblias distribuídas em um ano: a Sociedade Bíblica Americana e a Sociedade Bíblica da Coréia. Em 1996, ao completar 48 de existência a SBB tornou-se a terceira a superar essa marca.[15] A NVI representa a maturidade que a obra bíblica alcançou no Brasil. Um obra enorme hoje, bem diferente dos dias de Almeida e seu pioneirismo.
CEHILA (Comissão de História da Igreja na América Latina)

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