06 abril 2013

Casamento gay: você está pronto para o debate?



Ao assumir o romance com a jornalista Malu Verçosa e apresentá-la como sua esposa, a cantora Daniela Mercury tornou o casamento gay um assunto incontornável. Entenda como a ciência, a História e a compreensão da dinâmica das maiorias e das minorias na sociedade moderna ajudam a travar esse debate de maneira serena e racional.

"Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar", escreveu Daniela na legenda da foto, que mostrava ainda as duas usando um par de alianças douradas na mão esquerda.

Desde o começo do ano, especulava-se que as duas formavam um par romântico. Daniela era casada desde 2009 com o publicitário Marco Scabia, com quem terminou o relacionamento no ano passado.

Após ser destaque nas redes sociais nesta quarta-feira, quando anunciou pelo Instagram que estava em um "casamento" com outra mulher, a cantora Daniela Mercury falou pela primeira vez sobre a relação ao Jornal Nacional, da Globo, e aproveitou a ocasião para protestar contra o deputado Marco Feliciano.

"Tratei com a mesma naturalidade com que tratei minhas outras relações", disse a cantora, em nota lida pelo apresentador William Bonner. Ela ainda afirmou ser "amante das liberdades individuais" e criticou o pastor que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que tem recebido críticas por fazer declarações consideradas homofóbicas.

Comentário de Reinaldo Azevedo, colunista da Veja:
 
Daniela Mercury se casou com a jornalista Malu Verçosa, a quem chamou de “esposa”. O anúncio foi feito pelas redes sociais. Deve ser coisa importante — ou não seria notícia no Jornal Nacional.

“Esposa”… Engraçado esse termo. Na primeira vez em que chefiei uma redação, há mais de 25 anos, eu o proibi — a não ser como referência irônica. Eu perguntava então: “Quem consegue se deitar com uma esposa”? Neste jornal, a gente vai escrever ‘marido’ e ‘mulher’, nunca ‘esposa’ e ‘esposo’”. Noto,  no entanto, que alguns áreas da militância gay parecem ter certa nostalgia da família tradicional, ainda que sejam, por definição, uma desafio à tradição, né? Percebo uma certa compulsão para brincar de casinha.

Não estou tentando ser irônico, não. Apenas constato certo apelo regressivo no que parece ser, assim, tão vanguardista.

 Acho estranha essa fixação no “casamento”. Fica no ar uma tentação de “como nossos pais”, só que de homem com homem e mulher com mulher. Ainda que pudesse e que não tivesse sido vítima de uma legislação estúpida, será que Oscar Wilde teria se casado com aquele tontinho do Lorde Douglas? E Proust reivindicando “casamento”? Ou André Gide?
Que se casem quantos queriam se casar, é o que penso. Não apoio é que hordas fascistoides tentem meter o pé na porta da legalidade para impor o seu ponto de vista e que convertam o discurso da tolerância em violência. Não aceito é que se recrie no país o delito de opinião. No que concerne a Daniela, desejo felicidades na união com a sua “esposa”, bastando-me que não me obriguem a ouvir axé e a tirar “o pééé do chãããooo”.

Fiquei sabendo pelo Jornal Nacional que ela criticou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Então tá! Doravante, gays e progressistas devem criticar Feliciano ao comprar um Chicabon, ao informar as horas, ao dizer um simples “bom dia!”… Essa passou a ser a única clivagem realmente relevante da política brasileira, da sociedade brasileira, da vida brasileira. Só isso nos desune…
Até o “progressismo” brasileiro consegue ser cafona e retrô!


http://veja.abril.com.br/noticia

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