01 maio 2013

Igreja excomunga padre por defender homossexuais

Religioso é acusado de cometer heresia e de ferir os dogmas da fé religiosa 


A Igreja Católica anunciou nesta segunda-feira (29) a excomunhão do padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, de Bauru (SP). O padre é acusado de cometer heresia e de ferir os dogmas da fé religiosa ao divulgar na internet suas opiniões sobre o tratamento dado pela Igreja Católica aos temas sexuais. Nos vídeos, o padre critica a igreja por manter uma posição considerada retrógrada sobre a relação de parceiros bissexuais e do mesmo sexo.
Segundo a Diocese de Bauru, o padre Beto foi excomungado por um padre perito em Direito Canônico, nomeado juiz, chamado pelo bispo de Bauru, Dom Frei Caetano Ferrari, para estudar a situação. Ao analisar o caso, o juiz chegou à conclusão de que Beto poderia ser excomungado e também enfrentar um processo de demissão do Estado Clerical, que será enviado para o Vaticano. A Igreja se revoltou porque as opiniões do padre chegaram em vídeos enviados à Confederação Nacional dos Bispos, ao Núncio Apostólico e até ao Vaticano.

O anúncio de excomunhão foi feito em nota divulgada pelo bispado e assinada por um Conselho Presbiterial Diocesano. A nota explica a convocação do padre perito em Direito Canônico, nomeado como juiz-instrutor e diz que houve tentativa de um último diálogo, mas que Beto reagiu agressivamente, recusando o diálogo. Diante da negativa, que teria ocorrido na presença de cinco membros do Conselho dos Presbíteros, decidiu-se pela excomunhão.
"O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos", diz a nota.

Fogueira
Padre Beto disse que foi pego de surpresa. Pelos vídeos divulgados há duas semanas, ele foi advertido pelo bispo de que deveria retirar os vídeos da rede social e internet e fazer uma retratação, cujo prazo terminaria nesta segunda, mas ao chegar pela manhã para entregar a carta de demissão, ele foi levado para uma sala, onde havia cinco pessoas, o juiz e uma cadeira vazia.
— Fiquei surpreso porque fui cumprir o combinado com o bispo, que era para eu manifestar até hoje e não participar de uma reunião.
— Quando me sentei na cadeira, perguntei se aquilo era um tribunal e se a cadeira era para o réu. Como me disseram que era e que eu seria o réu, eu me levantei e disse que estava ali para entregar a carta, mas eles me disseram que não aceitaria a carta e que eles é que iriam me demitir.
A situação, segundo Beto não durou mais de sete minutos. Ele então registrou a carta em cartório para que fosse levada ao bispo por um oficial de Justiça, mas o bispo não a recebeu.

Demissão
Padre Beto disse que não vai tomar qualquer procedimento com relação ao caso.
— Dou graças a Deus que hoje em dia não existe mais fogueira, senão eu estaria queimado a essa hora.
Segundo o padre, ele vai sobreviver com as aulas que leciona em três em faculdades, em cursinhos de segundo grau e com suas palestras. Para ele, sua excomunhão e possível demissão têm outra causa.
— É fruto de intrigas 'hierárquicas', de colegas e gente invejosa que existem dentro da igreja.
O bispado informou que o juiz-instrutor tem autoridade para fazer a excomunhão. O juiz e o bispo não quiseram dar entrevista, mas a igreja informou que padre está excomungado, privado de celebrar e receber todos os sacramentos e que enfrentará agora um processo de demissão do Estado Clerical. O processo é sigiloso, iniciado na Diocese e enviado ao Vaticano por se tratar de matéria reservada à Santa Sé, que é a responsável pela sentença definitiva.
A partir daí, o réu não poderá mais se chamado de padre e fica impedido do exercício do ministério sacerdotal. Já a excomunhão é a privação da recepção de qualquer sacramento, mas se o padre demonstrar arrependimento a Igreja poderá retirar a excomunhão, mas não a demissão do Estado Clerical.

Padre Beto não foi excomungado por defender gays, diz Igreja

Em nota, entidade diz que excomunhão aconteceu porque ele não obedeceu aos superiores


Um dia depois de excomungar o padre Roberto Francisco Daniel, mais conhecido como padre Beto, a Igreja Católica tenta desvincular a relação da pena eclesiástica da defesa que ele fazia dos direitos dos homossexuais pela internet, em declarações, nas aulas e nos sermões das missas.
Em nota distribuída pela assessoria do bispado de Bauru (SP), o juiz-instrutor da excomunhão diz que o ato se deu porque padre Beto não obedeceu aos superiores e insistiu em manter um comportamento em desacordo com as regras do sacerdócio. Embora o bispo de Bauru, d. frei Caetano Ferrari, tenha exigido que o padre retirasse da internet os vídeos em que critica a postura da Igreja em relação aos temas sexuais, a nota afirma que o sacerdote não foi excomungado por defender os interesses dos homossexuais porque "isso não é matéria para excomunhão na Igreja".
O comunicado diz que a pena aconteceu "(...) de modo automático, em virtude da sua contumácia (obstinação) num comportamento que viola, gravemente, as obrigações do sacerdócio que ele livremente abraçou". A nota completa: "A excomunhão foi declarada porque ele se negou, categoricamente, a cumprir o que prometera em sua ordenação sacerdotal: fidelidade ao Magistério da Igreja e obediência aos seus legítimos pastores", diz no texto o juiz-instrutor, cuja identificação não foi divulgada pela Igreja, alegando motivos de segurança. O juiz é designado pelo Vaticano e foi nomeado para o caso pelo bispo Caetano.
Padre Beto reagiu à nota com indignação:
— Então, um padre pode ser pedófilo que ele não será excomungado só porque obedece aos seus superiores?
De acordo com o presbítero, a nota do instrutor é "uma artimanha para tirar o foco da questão, pois hoje, em pleno século 21, a sociedade não tolera mais isso, não tolera mais inquisições", diz. Padre Beto também negou a versão dada pelo juiz-instrutor de que a excomunhão não tem relação com as declarações em defesa dos gays.
— Se fosse realmente isso, o bispo não teria exigido que eu retirasse os vídeos da internet com minhas reflexões sobre o assunto e pedisse perdão. Vejo essa carta como um pedido de socorro numa tentativa desesperada da Igreja de tirar foco sobre uma atitude intolerante que eles praticaram contra minha liberdade de reflexão e pensamento. Se não queria saber das minhas reflexões, por que a Igreja gastou dinheiro com minha formação, enviou-me para estudar e fazer doutorado na Alemanha, na mesma universidade em que estudou o papa Bento XVI e frei Leonardo Boff?

"Nem com fogueira"
Segundo o bispado de Bauru, após a punição religiosa, o eclesiástico enfrentará agora um processo para demissão do estado clerical, quando, então, não poderá mais ser chamado de padre e ficará impedido do exercício do ministério sacerdotal. Durante o processo, padre Beto ainda poderá ser chamado para dar esclarecimentos a um juiz-notário nomeado para reunir provas.
Por outro lado, se o clérigo demonstrar arrependimento, a Igreja poderá retirar a excomunhão, mas não a demissão. No entanto, não é esta a intenção de padre Beto.
— Não me arrependeria dos meus atos nem que ainda existisse fogueira.
R7.com

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