22 julho 2013

Por trás do véu…


O Templo estava cheio, afinal acontecia uma das festas mais tradicionais de toda a história judaica, a Pessach (Páscoa). Lembranças da libertação do Egito e do cuidado de Javé com o seu povo durante os anos enchiam o coração de milhares de pessoas que afluíam a Jerusalém nesta época do ano.
Os sacerdotes, desde cedo já se preparavam no templo para o começo dos sacrifícios, à hora nona, hora em que o primeiro cordeiro seria sacrificado e logo após os sacrifícios daquela tarde as famílias se reuniriam em suas casas, onde comeriam a carne do cordeiro com ervas amargas.
O altar, no pátio, estava rodeado de gente e essas gentes de longe espiavam o lugar santo, e um enorme véu que o separava do lugar santíssimo, o Santo dos Santos, barreira intransponível para o simples povo. O véu é sinal de poder, de separação, de autoridade. Lá, só o sumo sacerdote entrava, e com sérias preparações, uma vez ao ano.
Tudo indicava mais uma páscoa normal para o povo que lotava o templo, não fosse o fato que mudaria aquela história e transformaria para sempre a humanidade.
Exatamente às 3 da tarde, hora do sacrifício, as pessoas percebem o céu escurecer de forma assustadora, a terra treme, o altar balança junto com a terra, os sacrifícios são derramados no chão antes que qualquer sacerdote pudesse imolar a primeira vítima e, de dentro do lugar santo, um barulho chama a atenção do povo. É um barulho de um tecido que media cerca de sete centímetros de espessura se rasgando, de alto a baixo e o que se vê é que chama a atenção.
Há um vazio atrás do véu, ninguém está lá, não há sacrifício pelo perdão, não há nem sumo sacerdote. Há apenas um altar vazio.
Sim, o sacrifício não estava ali, nem o sumo sacerdote, só o vazio…
O verdadeiro cordeiro estava num outro altar, aliás era ele mesmo cordeiro e sumo sacerdote, sendo levantado num altar natural no alto de um monte. Naquele momento! Na exata hora do primeiro sacrifício da páscoa, o último e primeiro cordeiro era imolado. Não por sacrifício, mas por amor. Não como algo transitório, mas de uma vez por todas.

O véu rasgado, é muito mais do que um simples sinal de livre acesso ao altar, é a demonstração cabal do vazio que há na religião do poder. É sinal claro de que as separações não encontram eco naquilo que deveria ser lugar de unidade. Não há mais a marca do poder, da separação, da autoridade. Há, sim, a exposição nua e crua do nada que a religiosidade morta e ávida por títulos, posições e cargos anseia. A busca desenfreada da autoridade sobre os outros, da força de uma religião que oprime o mais pobre e favorece quem tem mais pra oferecer sucumbe diante de um véu rasgado.
Aqui não há como não estabelecer uma conexão entre este véu rasgado e o véu que Moisés usou durante muito tempo, para esconder uma glória que já havia ido embora. O véu do templo era o guardião, na verdade, da ausência de Deus. Antes, guardava a Arca, símbolo da presença já nem estava mais lá. Não havia arca, muito menos a presença de Deus. Mas havia o véu, como a esconder essa ausência e a glória que há tempos já havia desvanecido.
O véu é sempre uma boa máscara, um bom refúgio para aqueles que querem esconder um rosto que já não brilha mais, uma fé que já não crê, uma religião que já não satisfaz.
Enquanto isso, sem véu, o próprio Deus encarnado é morto diante dos homens no Calvário. Sem véu, nu, parece dizer a todos nós que não precisamos mais das cortinas que escondam nossas vergonhas, nossos medos, nossa glória que se vai. Diante dele, resta-me o descortinar-me, o abrir-me, o desvelar-me.
O convite de Jesus é para a claridade, para a vida sem véu, para o amor que se dá abertamente. O véu está rasgado! Não há mais o que esconder! O convite agora é para que saiamos “fora do arraial”, sem véu, sem cortina, e, em amor, revelemos o Deus da Graça, que escancaradamente nos amou até o final…
 José Barbosa Junior
crerepensar.com.br

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