30 novembro 2013

No embalo gospel jóvem


Eu e minha noiva nos divertimos muito, dançamos, cantamos e saímos de lá às 3 horas da manhã com a alma purificada", diz o publicitário Fábio Faroni. O casal estava num show da Ivete Sangalo ou de Ed Motta? Não. Eles estavam na Balada LOCAL da Comunidade Apostólica Livre, a qual, segundo matéria da revista Up!Gospel (nº 8, ano 2), "agitou mais de 400 pessoas com ritmos como eletrônico, black e forró".

Na Cristoteca, há uma missa à meia-noite e depois o som segue rolando até a alvorada. Tem ainda: Gospel Night - a festa, Pré-Reveillon Gospel, Gospel Night Fantasy, Festa Jesuína, Cristoteca... Os sons são diferentes, mas a linguagem é a mesma para agitar o esqueleto evangelizado, sacudir o corpitcho renascido, curtir 'a vida transformada' que Jesus-me-deu!
A questão aqui não é discutir se há honestidade espiritual ou não nas estratégias formuladas pelos líderes religiosos ou se o público-alvo é de fato atingido pelas mensagens musicalizadas. Eu só gostaria de ponderar sobre as propostas de eventos como a balada gospel, embora ponderações sejam logo atacadas com frases do tipo: (1) "É melhor isso do que a balada secular", ou (2) "As igrejas estão atraindo os jovens", e ainda, (3) "O jovem evangélico precisa se divertir".
Se colocarmos uma interrogação ao final das três frases acima, podemos ter uma pausa para reflexão antes de entrar no clima do "batidão". A primeira: É melhor isso do que a balada secular? A balada gospel seria uma reprodução dos festejos dos baladeiros noturnos, com a simples retirada do álcool e do fumo(que nem sempre acontece, sejamos honestos). Faz-se uma 'missa', ou uma 'oração gospel'(dependendo da galera que estiver presente, ou os dois), à meia-noite e mexe-se as cadeiras até o galo cantar três vezes, para então sair dali com a sensação de que ser cristão é "legal", é "massa", é "da hora"?
Segunda interrogação: As igrejas estão atraindo os jovens? A palavra-chave é mesmo "atração". Se está escrito que "Eu [Cristo], quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim", é fato que, hoje, quando o funk levanta poeira, atrai muita gente. Assiste-se atualmente a um modelo de atração de público jovem para reuniões em que há muita religiosidade, mas pouca religião. Cantores de grande vendagem, músicas pop-religiosas, luzes feéricas: isso tudo fascina o jovem público que encontra nas grandes concentrações religiosas, em logradouros públicos ou em salões particulares, um genérico das baladas e shows populares.
Denomino de "genérico" porque o princípio ativo é o mesmo. Isto é, aquilo que desencadeia as reações psicossomáticas (em português, as reações mentais e corporais) do público não são apenas as letras, mas a intensidade sonora e a “dançabilidade” do ritmo e da canção.
Sendo mais esquemático: a estilos como funk, axé, dance e balada acrescenta-se o termo "gospel"; essa junção de palavras, que não é mais nenhum anátema, passa a ditar o índice de maior ou menor atratividade jovem; os cantores, autodenominados "levitas", dão autógrafos, têm comunidades concorrentes no Orkut/Facebook (com pesquisas sobre "quem canta melhor"), e reproduzem o modelo dos astros pop por meio de sua postura no palco, seus figurinos e seus chavões ("tira o pé do chão!"). Além disso, são recebidos com estridência nos shows por um público que também reproduz o comportamento de fãs histéricos do mundo musical pop.
As letras religiosas seriam o diferencial? As letras podem até ajudar a derreter corações de pedra, mas elas submergem na atmosfera de rave criada para entreter e divertir. Embora as letras apresentem temas da vida evangélica, a embalagem de melodia e arranjo reproduz os estilos musicais da moda. Já a indústria gospel imita o caráter de atração jovem e divulgação musical da indústria fonográfica pop, estimulando o comportamento de baladeiro e fã por parte do jovem fiel.
Por último: O jovem religioso precisa se divertir? Ora, isso é elementar. Afinal, sem um pouco de lazer, recreação e leve entretenimento não há cristão que suporte esse rojão. Contudo, quando a diversão deixa de ser um momento para se tornar o estilo de vida, algo está se perdendo na caminhada, e este algo pode ser um sentido mais profundo do que é conversão. Se conversão significa mudança de direção, por que ainda repetir os maneirismos de interpretação, a histeria fanática, as caras e bocas e adereços dos artistas, as melodias e arranjos da música pop mais descartável da mídia?

Há tempo pra tudo. Só não confundamos louvor sincero e singelo com shows de entretenimento. Que não incentivemos nossos jovens a se tornarem bobos alegres, sem a noção verdadeira do que é ser Cristão.
"Haja entretenimento" - o mandamento da nossa sociedade do espetáculo passou a ser a palavra de ordem para a sobrevivência das igrejas na modernidade.
Do jeito que as coisas estão caminhando, penso que dentro de pouquíssimo tempo, teremos que dar adeus aos nossos cultos congregacionais, porque a grande maioria não irá mais, uma vez que já ofereceu 'seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus', na concepção deles.
Como lamento tudo isso!!!
Vivam vencendo o mundo com suas estratégias que chegou a nossas igrejas para confundir os incautos e/ou carnais!!!
Seu irmão menor.

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