20 dezembro 2013

Novidades ou a Eterna Escritura?


Texto Básico: 2 Timóteo 3.14-17

Nosso tempo é contraditório no que diz respeito à Bíblia. Por um lado, ela circula entre nós livremente. Hoje, a Bíblia é publicada com comentários específicos para diferentes grupos de pessoas e encadernada de tantas formas diferentes, que é possível encontrar edições para todos os tipos e para todos os gostos. Por outro lado, vivemos um tempo de analfabetismo bíblico e de falta de apego à Escritura Sagrada. Na mesma proporção em que a Bíblia é aproximada das pessoas, elas se afastam dela.

Neste estudo abordaremos o apego que o cristão precisará ter à Palavra de Deus, diante da oposição doutrinária sofrida pela igreja.

I. O contexto

1. O que Paulo diz a Timóteo que aconteceria nos últimos dias? Como Timóteo deveria se comportar? Por quê?

A segunda carta a Timóteo foi escrita pelo apóstolo Paulo no fim de sua vida. Muito provavelmente ele a escreveu quando estava preso em Roma, na iminência de ser executado a qualquer momento. Essa proximidade do martírio pode ser inferida do conteúdo da própria carta: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado” (2Tm 4.6). Essa é a razão pela qual essa carta possui um tom exortativo – as últimas palavras de Paulo. É como um testamento.

Umas das advertências de Paulo a Timóteo, nessa carta, se refere ao florescimento do mal nos últimos dias. Ele alerta o jovem pastor dizendo que “nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis” (2Tm 3.1). Esses tempos difíceis seriam, primeiramente, resultado do modo de vida dos homens (2Tm 3.2-5), e da presença do falso ensino que seduz as pessoas e as corrompe (2Tm 3.6-9).

Esses tempos difíceis seriam vividos em um momento que ele denomina “últimos dias”. Comumente essa expressão tem sido interpretada como uma referência a um curto período de tempo exatamente anterior à segunda vinda de Cristo. Todavia, quando a Bíblia usa essa expressão, refere-se a um período mais longo, que vai desde a primeira até a segunda vinda de Cristo.

No sermão do Pentecostes, por exemplo, Pedro interpreta o acontecido naquela ocasião, como sendo o derramamento do Espírito Santo, profetizado pelo profeta Joel: “… acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos, até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão” (At 2.17-18). Pedro entendia que estava vivendo os últimos dias. Semelhantemente, a orientação de Paulo a Timóteo quanto ao florescimento do mal não se refere a um tempo futuro, do qual Timóteo não participaria, mas ao período em que viviam. A ordem dada no v. 5, “foge também destes”, é evidência disso. Trata-se de uma advertência para o presente e não para o futuro.

II. A pós-modernidade e o apego às novidades

2. Segundo o sociólogo Bauman, o que caracteriza a sociedade contemporânea? Qual impacto isso tem produzido na igreja?

O falso ensino, no entanto, também está presente em nossos dias e se encaixa de maneira justa ao modo de ser contemporâneo. Uma das características mais marcantes do modo de ser do mundo pós-moderno é a ênfase no caráter fluido, dinâmico e mutável das experiências humanas.

Zygmunt Bauman, um estudioso da sociedade contemporânea, afirma que nós vivemos, nos últimos anos, a transição entre um período histórico denominado “modernidade sólida” para a “modernidade líquida”. Bauman diz que há alguns anos, vivíamos um tempo de maior solidez, em que as coisas estavam mais claramente estabelecidas, o tempo do preto no branco. Naquele tempo, a permanência era considerada uma virtude. As pessoas tinham orgulho da festa de aposentadoria realizada na empresa em que haviam começado a sua carreira profissional. Um indivíduo entrava em determinada empresa, trabalhava nela por 30 anos e, quando saía, recebia uma festa, um relógio de ouro de presente, como símbolo da solidez de sua carreira profissional naquele lugar.

Hoje, contudo, vivemos um tempo de liquidez, de fluidez, em que as coisas não estão tão claramente definidas. Um tempo marcado pelo relativismo. A permanência não é mais vista como virtude, mas como defeito. Para nossos dias, virtude é a mudança, a capacidade constante de adaptação ao novo. Neste tempo, se alguém se encontra trabalhando há mais de três ou quatro anos em uma empresa, corre o risco de ser considerado um indivíduo acomodado, ou até mesmo um falido profissionalmente. De acordo com pesquisas recentes, o tempo médio de um jovem profissional da área de tecnologia em uma empresa é de mais ou menos oito meses. De maneira ilustrativa, Bauman compara o homem contemporâneo a um turista, a um sujeito ávido por mudanças. Ele está sempre de passagem, contempla coisas, relaciona-se temporariamente com elas, mas não se compromete.

Essa característica do homem contemporâneo afeta as mais diversas áreas da vida humana e as mais diferentes manifestações do homem na sociedade. A religião não foge da influência desse modo de ser. Alguém já disse que o mundo contemporâneo viu nascer um novo tipo de crente: “o crente macaco”, que pula de galho em galho, ou de igreja em igreja, não se fixando em lugar algum. O maior problema é que não apenas as religiões em geral sofrem com essa influência, mas o próprio cristianismo.

Mais especificamente ainda, a pregação evangélica também sofre a influência dessa mentalidade turística. Basta olhar para o cenário evangélico brasileiro, para perceber que ele é ávido por novidades. Nesse cenário, ondas vêm e vão a cada instante. Dia após dia, as novas doutrinas e práticas evangélicas surgem. E tão rapidamente quanto surgem, são substituídas por outras. O poeta Sérgio Pimenta escreveu sobre essa tendência de mudança do falso ensino, com as seguintes palavras:
“Toda a novidade que vem no vento, ao peso da força, na rotina cai na monotonia do pensamento, que à busca de outra novidade sai”. 
Essa sede do homem contemporâneo por novidades, e o caráter fortemente reprodutivo do falso ensino, torna muito atual a orientação de Paulo ao jovem pastor Timóteo.

III. O cristão e o apego à Palavra de Deus

3. O que Timóteo deveria fazer para combater o paganismo de seu tempo? Por quê?

Após apresentar um tempo difícil, caracterizado por uma moralidade ímpia e pela presença do falso ensino, Paulo orienta o líder Timóteo sobre como reagir a essas circunstâncias.

Contrariamente a essa tendência de apego às novidades, Paulo orienta Timóteo a se apegar àquilo que ele já havia aprendido: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado” (v. 14). A conjunção adversativa “porém” estabelece que a atitude de Timóteo deveria ser contrária à dos perversos e falsos mestres. Ele deveria seguir um curso exatamente oposto àquele seguido pelos falsos mestres e seus adeptos, não se amoldando às novidades, mas adotando uma posição conservadora, isto é, conservando o ensino aprendido.

Em seguida, o texto apresenta três razões pelas quais a posição conservadora era desejável para Timóteo e, consequentemente, para todo cristão:

A. O poder do conhecimento adquirido

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado” (v.14).

A primeira razão pela qual Timóteo deveria permanecer no que aprendera era porque o conhecimento recebido por ele era mais do que informação teórica, era o poder de Deus que transformara a sua vida. A expressão “foste inteirado” significa literalmente “foste convencido”. Com essa expressão, o apóstolo deseja lembrar Timóteo que ele não havia apenas aprendido intelectualmente a verdade, mas que o conhecimento possuído por ele fora aplicado ao seu coração pelo Espírito Santo e havia transformado seu ser de maneira integral.

O conhecimento do evangelho é transformador. “O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). Timóteo, portanto, tinha experiência própria de que o conhecimento recebido por ele era um conhecimento verdadeiro do evangelho. Por isso, apesar de todas as novidades, ele deveria se apegar ao conhecimento que havia recebido.

B. A fidedignidade dos instrutores

“Sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras” (v. 14-15). A segunda razão apresentada por Paulo a Timóteo, para que, diante das novidades, se apegasse ao conhecimento outrora recebido, foi a fidedignidade dos seus instrutores.

Ao lembrar do aprendizado que Timóteo recebeu na infância, Paulo tem em mente sua mãe e sua avó, Eunice e Loide, respectivamente. Elas eram judias e lembraram-se da orientação do Senhor dada ao seu povo, recém-saído do Egito: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos” (Dt 6.6-8). Isto é comprovado pelas palavras do apóstolo no início dessa carta. Falando do desejo de encontrar em breve o jovem Timóteo, ele afirma: “estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.4-5).

Por outro lado, Timóteo havia também sido instruído pelo próprio apóstolo. Ele era seu discípulo, no sentido mais profundo da Palavra. Timóteo é descrito por Paulo como aquele que estava seguindo, de perto, o ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança, perseguições, e sofrimentos do apóstolo (2Tm 3.10-11).

A segunda razão, portanto, pela qual Timóteo não deveria se afastar do ensino recebido, mas se apegar a ele, era o caráter fidedigno de seus instrutores. As verdades nas quais Timóteo cria não haviam sido transmitidas a ele por aventureiros sagazes, mas por testemunhas de fidelidade comprovada; mulheres piedosas e o apóstolo de Cristo.

C. A fonte do conhecimento adquirido

4. “Toda Escritura é inspirada por Deus”. O que isso significa?

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (v. 16-17).

Mais importante, contudo, é a terceira razão apresentada pelo apóstolo a Timóteo. Diante das novidades, ele deveira se apegar ao conhecimento outrora recebido, por causa da origem divina do conhecimento adquirido.

O conhecimento recebido por Timóteo era o das “sagradas letras” (v. 15), uma referência à Escritura Sagrada, que é“inspirada por Deus” (v. 16). O termo usado pelo apóstolo (theopneustos), traduzido por “inspirada”, significa literalmente “expirada” ou “soprada”. Toda a Escritura deve sua origem ao sopro de Deus. Deus é a fonte da Escritura SagradaE isso significa que, embora tenha sido escrita por homens, a Bíblia é a revelação de Deus. Tais homens, quando registraram a revelação divina, foram guardados pelo Espírito Santo de Deus, de modo que, mesmo mantendo suas características individuais, registraram tudo o que Deus desejou que fosse registrado, e tão somente isso.

A esse respeito Pedro afirma: “…não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade…” (2Pe 1.16). E ainda: “…nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20-21).

Dentre as consequências de ser Deus o autor último das Escrituras Sagradas, está o fato de que elas são necessárias para que alguém se torne um bom servo de Cristo. Ela é útil para ensinar, para apontar os erros nos quais estamos incorrendo, para nos guiar pelo caminho correto e para nos santificar na justiça de Deus.

O salmista Davi também nos apresenta outros diversos benefícios da Escritura na vida daquele que a recebe: “A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos. O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre; os juízos do SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos” (Sl 19.7-10). Por isso, a Escritura Sagrada é o mais básico recurso do discípulo de Cristo, o que torna o homem de Deus “perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (v.17).

Eis a terceira e mais importante razão pela qual Timóteo deveria se apegar ao conhecimento recebido: o fato de que seu conhecimento era o conhecimento da Palavra revelada de Deus, do qual o próprio Deus é a fonte.

Conclusão

5. Resumo do conteúdo deste estudo.

Timóteo vivia num tempo em que as falsas doutrinas proliferavam. Assim como naquele tempo, hoje novas doutrinas surgem a cada dia. Diante desse quadro, Paulo orientou Timóteo a que, como obreiro do Senhor, se apegasse ao conhecimento anteriormente recebido, pois tal conhecimento era poder de Deus, recebido por meio de testemunhas fiéis, exalado da Revelação de Deus.

6. Como você pode aplicar ese conhecimento de modo eficiente?

Aplicação

Qual é a novidade do momento?

Que nova “doutrina” você ouviu? Seja qual for, a orientação de Paulo a Timóteo se aplica a você. Não se deixe cativar pelo sabor da novidade. Não dê ouvidos à voz da maioria. Apegue-se à Palavra de Deus.

Leia a Bíblia. Procure conhecer o seu conteúdo. Creia na Bíblia. Lembre-se de quantos cristãos deram sua vida para que a verdade do evangelho chegasse até você. Pense no que o verdadeiro evangelho fez na vida de tantas pessoas e até sociedades. Sobretudo, lembre-se do fato de que Deus é a fonte da Escritura Sagrada.

Para ler e meditar
Sl 19 – A revelação divina
At 2.17-18 – Os últimos dias;
Dt 6.6-8 – A educação cristã;
2Tm 1.4-5 – Eunice e Loide;
2Tm 3.10-11 – Paulo e Timóteo;
Rm 1.16-17 – O poder do evangelho;
Pe 1.20-21 – A doutrina da inspiração

Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, na série Expressão – Cartas aos Líderes das Igrejas e Cartas Gerais. Usado com permissão

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