07 janeiro 2014

A crise espiritual da Igreja Moderna

felske

Dois dados recentemente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e suas consequências, nos trouxeram à lembrança a necessidade de a Igreja Moderna se debruçar sobre esta perspectiva. Marcha para Jesus, passeata e concentração realizada ao longo de duas décadas em São Paulo, reúne em torno de si, mais de um milhão de evangélicos, numa demonstração do crescimento da igreja neopentecostal; outro pregador, pastor Silas Malafaia, tem reunido em suas cruzadas, centenas de milhares de crentes, através de apresentação de cantores e pregadores vinculados à Assembleia de Deus; é comum ouvir-se de igrejas sob a nova visão celular, mostrarem crescimento de duas, três, centenas de membros.
O número de evangélicos subiu de 15,4% para 22,2% em dez anos (2000-2010); isso significa que dos 190,7 milhões de brasileiros entrevistados, 42,3 milhões responderam pertencer e professar a fé evangélica. O número de católicos teve um decréscimo, no mesmo período, de 73,6% para 64,6% (2000-2010). Esses dados colocaram os evangélicos em polvorosa. Afinal, em três décadas o número de evangélicos brasileiros triplicou, comparando com o censo de 1980 em que apenas 6,6% se professaram evangélicos, contra 89,9% de praticantes católicos.
Surge, então, um problema: como manter esse crescimento, ao mesmo tempo em que se conservam dentro das igrejas os novos convertidos? Como, de acordo com os mais audazes, conservar a porta dos fundos da igreja fechada para que não haja evasão? Aqui entra a criatividade de verdadeiros “ases” do marketing moderno. E surgem novas indagações: qual o limite dessa criatividade? Como coadunar interesses espirituais com materiais? Como manter essa indústria do crescimento, sem ferir posturas bíblicas e doutrinárias? Quais as implicações socioeconômicas que este crescimento enseja? Como conviver com esta realidade, contrapondo-a ao atual estado político e sociológico de nossa sociedade?
Ao tentar resolver essas indagações, a Igreja Moderna entrou num emaranhado de atitudes, nem sempre legais do ponto de vista da Bíblia, embora travestidas de legalismos religiosos discutíveis, resultando numa paranoia de necessidades de mostrar ao mundo seu poder de promoção da bênção de Deus, onde a “mão do Senhor” movimenta os milagres, o grupo de obreiros se lança em direção ao estrelismo e a fé é medida pelo número de testemunhos que podem ser dados durante os ofícios de culto. Estaríamos elucubrando sobre um assunto tão sério? Seria uma forma de desacreditar os pregadores hodiernos em seu plano de crescimento com vistas a alcançar o mundo para Deus? Vamos pensar um pouco sobre isso.
DEIXANDO OS RUDIMENTOS
É comum, ao longo dos últimos vinte anos, encontrarem-se crentes com saudades do tempo em que a Igreja se fazia representar adequadamente diante de Deus e da sociedade. Os saudosistas sentem falta da Igreja que orava, amava sobremaneira a Palavra do Senhor e, mesmo com alguns exageros – compreensíveis – se aplicava a manter a sã doutrina, motivo de orgulho de muitas denominações.
O que aconteceu com a Igreja Moderna? Teria ela deixado o “primeiro amor”? Estaria adulterando contra seu Senhor? Estaria se acomodando ao formato social e moral do mundo? Deixou de ser apologética? Passou a servir às coisas de Deus ao invés de servir ao Deus das coisas?
Numa análise superficial e despretensiosa, as respostas a essas e outras perguntas tão pertinentes quanto, fatalmente levariam às evasivas como é o modernismo sendo levado ao centro da Igreja, ou, é assim mesmo: as pessoas se adaptam ao meio onde vivem. Ou, pior, é preciso acompanhar a evolução dos tempos e adaptar-se ao crescimento intelectual da humanidade.
Todavia, vendo o lado estritamente espiritual da Igreja, nota-se que as respostas àquelas inquirições, apenas ensejarão respostas depoentes contra o arrazoado hodierno do povo dito de Deus. Os princípios da maturidade cristã estão se perdendo em ecos cada vez mais distantes e indistintos. Os alvos estão se invertendo. Os paradigmas se contrapõem ao que se determinou biblicamente correto. A teologia deixou de ser o que o vocábulo preconiza, para ser apenas, para uns, uma nova ciência, para outros uma filosofia e para outros mais, apenas um meio de subsistência material.
Outro fator importante para o estado da Igreja moderna, talvez o mais grave, é a politização profissionalizante dos púlpitos: saem dos seminários, obreiros preocupados apenas com a aquisição de uma rentável profissão. Pensa-se o ministério como um plano de carreira, onde se começa como cooperador, passa-se pelo diaconato, alcança-se o presbitério, o evangelismo, culminando com o pastorado. Então, com um pouco de sorte e um trabalho árduo, se chega ao episcopado e, melhor ainda, a um apostolado recompensador. Tudo isso sem considerar chamado, dom específico e, principalmente a fundamentação bíblica.
Sinceramente falando, essa invencionice pós-pentecostalista de plano de carreira, embora pareça boa, pois fabrica verdadeiros peões do evangelho ávidos por postulações de visibilidade e poder, forja apenas obreiros medíocres, inseguros (com exacerbado medo de perder seu lugar no “santo” chamado de Deus), alguns extremamente levianos e possessivos, esquecendo-se do que a Bíblia, pelo apóstolo Paulo nos ensina (Ef 4:11-14): “ E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,  com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,  até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo,  para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.”
Os mais afoitos – e defensores desse idealismo – hão de achar retrogradas estas afirmações. Mas elas mostram exatamente a extensão da materialização da nossa Igreja. Foram aí colocadas por terem sido consideradas canônicas, portanto, plenamente aceitáveis como inspiradas pelo Espírito Santo de Deus. Sem planos de carreira, sem sentimento de necessidade de “crescer no ministério”, ou alcançar “status quo”.
Mudamos os alvos. A fala de Jesus no memorável sermão do monte retratado pelo evangelista Mateus nos leva a arrazoar sobre o fato de que não se busca mais o Reino de Deus e Sua justiça, para que as coisas do cotidiano sejam acrescentadas: buscamos as coisas de Deus, para que Sua justiça (segundo nossa ótica), nos seja acrescentada e nos leve, se der, ao Seu Reino.
Isso mostra que a Igreja perdeu o foco: vale-se, em termos de fé, pelo que se tem ou se é, e não pelo que se cresce na graça e no conhecimento. O bom crente, segundo a nova visão, vale pelo montante de bênçãos recebidas, e não pelo andar com Deus tendo, por via de consequência, o nome inserto no Livro da Vida de Deus. Como ouvimos recentemente em uma predica proferida em dia de batismos em nossa Igreja, as agremiações estão produzindo membros ao invés de discípulos. E isso é extremamente sério!
Queremos comparativos; precisamos de números; criamos mega templos e eventos grandiosos. Nossas estatísticas mostram que nossa igreja (leia-se denominação), estão com crescimento quantitativo excelente. E esquecemos o qualitativo. Não que não devamos crescer quantitativamente (somos hoje cerca de trinta e cinco por cento da população brasileira); precisamos continuar crescendo, porém com a mesma qualidade da Igreja fomentada pelos primeiros apóstolos, quando os milagres eram para o incentivo das pessoas a crerem na soberania de Deus e não no poderio do “profeta”.
A verdade é que estamos nos aproximando do que a Bíblia chama de “o grande e terrível dia do Senhor” quando, pensando escatologicamente, Jesus virá arrebatar os seus. Dentre os sinais principais que anteveem esse glorioso evento, e para melhor situar-se diante do aqui enfocado, destacamos os seguintes, que seguramente ilustram o estado de apostasia vivido pela Igreja moderna: Jesus fala de sua preocupação com o surgimento de falsos ‘Cristos’. Vemos isso declarado por Ele em Mateus, 24:5: “Pois muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos”.
Analisemos os nossos atuais pregadores, especialmente os que se exibem através das mídias, especialmente a televisiva e a radiofônica. O que encontramos é um amontoado de pretensos obreiros do bem, travestidos de uma pieguice discutível, eivados de uma boa dose de interesse pessoal de projeção, ávidos por serem reconhecidos como os mais humildes, os mais santificados e de discurso mais abrangente.
Recentemente, um desses “abnegados” possuidores de dons especiais, gastou preciosos minutos numa emissora dita ‘evangélica’, para pedir doadores em número certo de importância certa, sob o argumento de que, se seus ouvintes não o atendessem, seu programa radiofônico sairia do ar. Inquirido naquela ocasião sobre seus reais objetivos, saiu-se com a assertiva de que seu inquiridor, que questionara a honestidade do pedido, estaria fora da ‘visão’. Encurralado, terminou por praguejar, medrosamente fora do ar, afirmando que quem o questionava por sujeitar os radio-ouvintes a um golpe, estaria, nas suas palavras, endemoninhado. Obviamente, o programa do ‘missionário’ e seus asseclas não apenas continuou no ar, como teve aumentado seu tempo, por achar pessoas que, na boa fé, se iludiram com os preciosos – e tendenciosos – testemunhos de realizações sobrenaturais operados pelo tal pregador.
Outra prática muito usual entre esses “astros do evangelho” é a ameaça: se o crédulo ouvinte não cooperar financeiramente, não terá as benesses de Deus. A situação é tão sinistra, que recentemente recebemos em nossa congregação uma família vinda de um desses “trabalhos de ação tremenda de Deus”, cujo pastor, para justificar sua inépcia como tal, afirmou que só seriam abençoados com a cura de suas enfermidades, especialmente seus filhos, se fossem dizimistas fiéis!
Embora o apóstolo Paulo, referindo-se ao alcance do nome de Jesus tenha dito que ninguém que profere esse nome o faz senão pelo Espírito de Deus, é de se salientar que, muitos homens ditos “vasos do Senhor” o proferem para autopromoção e obtenção de vantagens, que se estendem da busca pelo dinheiro fácil, até ao alcance de favores pessoais junto a políticos, mulheres incautas e pessoas desajustadas socialmente, num frenético manusear de mentes fracas e de simplicidade a toda prova.
O que foi dito até aqui é a essência do que a igreja precisaria crer e pregar. O que ela tem feito? Acomodar-se ao estado de coisas que ela mesma criou, talvez imitando as religiões e denominações seculares, que crescem ao longo da história do cristianismo, à sombra da materialização de seus objetivos.
A INFLUÊNCIA NEOPENTECOSTAL
De acordo com a Wikipédia, a Enciclopédia Livre, “O Neopentecostalismo, Pentecostalismo Moderno ou Terceira Onda do Pentecostalismo, é uma vertente do evangelicalismo que congrega denominações oriundas do pentecostalismo clássico ou mesmo das igrejas cristãs tradicionais (batistas, metodistas, etc.). Surgiram sessenta anos após o movimento pentecostal do início do século XX, em 1906, na Rua Azuza, ambos nos Estados Unidos.”.
Paulo Silvino Ribeiro, colaborador do site “Brasil Escola”, assim se expressa sobre o movimento neopentecostal: “Neopentecostalismo é o resultado da transformação e readaptação das igrejas pentecostais que veio à tona no final da década de setenta do século passado, e que hoje se faz presente nas mais diversas áreas do contexto nacional, da mídia ao cenário político. (…) ” No entanto, é válido afirmar que tal classificação tem abrangência diversa para vários pesquisadores do tema, que atribuem o termo “neopentecostal” a tantas outras denominações e igrejas que aqui seriam diferentemente classificadas pelos critérios apresentados.
O que o neopentecostalismo tem a ver com o estado da igreja moderna?
Talvez seja seu grande fomentador. Para entender o que dissemos, basta observar o Professor Isaltino Gomes Coelho Filho, falando à Conferência Teológica na Faculdade Teológica Batista de Campinas, em 12 de abril de 2004, que assim define a metodologia neopentecostal: “É a experiência que interpreta a Bíblia, nesta visão neopentecostal. A interpretação é privada e individual. O sentido deixa de ser o que é e passa a ser o que pessoa quer que seja.”
O neopentecostalismo é a cara do Brasil sincrético. Freston (1995), em sua palestra no I Congresso da AEVB em Brasília, onde a temática do dia era ética, fez uma grave denúncia de que, em nome do crescimento, adesão de diversos grupos e enriquecimento dos mesmos, estava se pondo em risco o próprio movimento: quanto mais a igreja cresce, mais ela fica parecida com a sociedade na qual está inserida.
Ricardo Mariano (1998), num texto “profético”, afirma que o protestantismo que está crescendo e se tornando hegemônico, perdeu as marcas originais se aculturando de tal forma que deixou de ser “protestantismo”. Esse protestantismo é a construção possível para um evangelho de facilidades.
Independente do juízo de valor que se faça dessa expressão religiosa chamada pentecostalismo moderno, ela é o que existe de mais entranhável na cultura brasileira. De acordo com alguns de seus defensores, mal ou bem é uma designação teológica de que estamos longe de ter uma igreja tão poderosa e eficiente como a primitiva. Entretanto, esta ideia se mostra meramente uma falácia desamparada da própria essência vivida pela igreja do primeiro século cristão.
O fato é que as igrejas evangélicas mais tradicionais, pentecostais ou não,  vendo o crescimento da ideologia neopentecostal com suas promessas de bênçãos fáceis e “revelações” discutíveis, onde se trata do passado do indivíduo, ou de amedrontamento pela pretensa existência de “macumbas” e “trabalhos mandados”, aplicaram-se às mesmas práticas dos pentecostais modernos.
É evidente que Deus utiliza-se de seus servos para a benção das pessoas necessitadas; todavia, os meios para a referida benesse, tem como paradigma único, o Senhor Jesus Cristo. Mesmo os apóstolos, na continuidade do trabalho de Deus, não lançaram mão de subterfúgios. Se faz necessário reconhecer, entretanto, que os neopentecostais têm contribuído para o rejuvenescimento dos louvores da igreja, além de implementarem uma linguagem mais moderna e dinâmica para a pregação da palavra de Deus e para a dinâmica do culto.
Tudo isso se constitui apenas em tendências. E não estamos diante de um fato desconhecido: ao longo da história, a igreja sempre enfrentou heresias, interpretações exegéticas forçadas e adequadas ao momento e necessidades dos exegetas, além do esfriamento espiritual. Mas isso é assunto para outra ocasião.
Alberto Felske

Nenhum comentário:

Postar um comentário