01 setembro 2014

EXPONDO OS ERROS DA BÍBLIA NVI / NIV - 03




I Pedro 2:2

"A inclusão da expressão grega ("para a salvação" ou "na salvação") é atribuída à crença de que "a salvação vem por um processo gradual de crescimento." Temos aqui um caso em que a tradição textual bizantina (TMaj) apresenta divisão. A leitura da NVI é apoiada por alguns dos principais manuscritos dessa tradição".

Temos então posto um grave problema. "Para a salvação" é MUITO diferente de "na salvação". A primeira expressão indica claramente um destino, um alvo a ser alcançado, algo que ainda não temos, mas que estamos caminhando "para" conseguir. A segunda expressão indica já termos chegado lá, estarmos já "na salvação". É gravíssimo misturarmos estas duas expressões, pois querem dizer coisas completamente diferentes.

A primeira indica exatamente que "a salvação vem por um processo gradual de crescimento", o que é contrário aos rudimentos mais básicos de soteriologia, enquanto doutrina estabelecida pela palavra de Deus. Já a segunda expressão é plenamente aceitável, pois o crescimento espiritual é um fato na vida do salvo e deve ser buscado por cada crente em Jesus Cristo.

Vejamos os versículos como podem ser lidos na ACF (Almeida Corrigida Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana) e na NVI (Nova Versão Internacional):
(ACF) "Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo;"
(NVI) "Como crianças recém-nascidas, desejem intensamente o leite espiritual puro, para que por meio dele cresçam para salvação".

Se no texto da NVI lêssemos "para que por meio dele cresçam na salvação", não haveria qualquer problema doutrinário. O problema está no TC, a base da NVI, que diz "para salvação". E assim por ter sido adotado o TC como base da tradução, temos um sério problema doutrinário incorporado à NVI.

II Tessalonicenses 2:8
"Esta passagem está alistada como umas das "gravíssimas contradições." A NVI é acusada de contradizer Apocalipse 19:20 ao traduzir aqui o verbo grego ou por "matará". Ora, esse verbo indica "consumir " ou "destruir" em Lucas 9:54 (idéia de consumir com fogo) e em Gálatas 5:15 (sentido figurativo). Assim sendo, especialmente em vista de Lc 9:54, a tradução da NVI é aceitável e não configura contradição."

O problema é que a tradução como está na NVI cria, de fato, uma contradição com Apocalipse 19:20, vejamos:
(ACF) "E a besta foi presa, e com ela o falso profeta, que diante dela fizera os sinais, com que enganou os que receberam o sinal da besta, e adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados VIVOS no lago de fogo que arde com enxofre." (Ap.19:20, destaque adicionado).

Se foram lançados vivos (zao) não poderiam estar mortos, mas poderiam sim, ter sido desfeitos ou consumidos (analisko), o que tem uma conotação completamente diferente.

I João 5:7-8
"Será que gostaríamos de basear nossa crença da doutrina da Trindade numa passagem que não constava da primeira edição do TR (1516, que o autor de E.E. declara reconhecer como o seu TR, p. 1 do documento) porque Erasmo não a encontrara em nenhum manuscrito grego disponível?"

A doutrina da trindade (trinitariana), não se baseia neste verso, ela vem desde Gênesis 1. Novamente sinto estranheza quanto a esta colocação do Prof. Oswaldo, pois não creio que ele seriamente possa crer que qualquer crente não neófito venha a basear um dos pontos doutrinários cardeais de nossa fé em apenas uma passagem bíblica. Entretanto, esta é uma das passagens que mais claramente nos apresenta esta doutrina, sendo por esta razão tomada e referenciada em praticamente toda apologia8 da doutrina trinitariana.

Quanto à questão do manuscrito, sim, esta é uma das passagens que não se encontravam nos manuscritos utilizados por Erasmo durante a confecção de sua primeira edição do TR.

"A adição da Comma Johanneum em edições posteriores se deveu a protestos iniciados pelos católicos romanos que produziram a Poliglota Complutensiana que, dominada pela Vulgata, incluíra o texto."

Não, a adição da Comma não se deveu à grita católica, mas ao fato de Erasmo ter encontrado base sólida para a sua inclusão. Apesar de haver poucos manuscritos em grego onde pode ser encontrada esta passagem: 61 (séc. XVI), 88 (séc. XII), 221 (séc. X), 429 (séc. XIV), 629 (séc. XIV), 635 (séc. XI), 636 (séc. XV), 918 (séc. XVI), 2318 (séc. XVIII) e 2473 (séc. XVII), ela está extremamente bem documentada nos textos em latim. Está presente em praticamente todos os manuscritos antigos em latim, cujo número chega a exceder o número de manuscritos em grego. Vários pais da igreja citaram a passagem em seus textos: Cipriano (258 d.C), o "Varimadum" a cita (um escrito anti-ariano de autor desconhecido de 380 d.C), Prisciliano (385 d.C), Cassiano (435 d.C) e Cassiodoro (580 d.C), entre outros. Está na Antiga Latina (150 d.C), na Peshita (150 d.C), e na Speculum (550 DC). Ela é também encontrada no credo apostólico usado pelos Waldenses9 e também no usado pelos Albigenses, ambos no século XII. Com isto podemos ver que a passagem tem um suporte textual antigo e forte, apesar de ser minoritária nos manuscritos em grego.

"Nenhum desses é anterior ao século XIV. A passagem não é citada por qualquer dos pais gregos, e sua primeira aparição em grego é num relatório conciliar de 1215."

Como podemos ver pela explanação acima, esta informação do Prof. Oswaldo é incorreta. Vários dos pais da igreja citaram a passagem, há manuscritos do século X (221), do século XI (635) e do século XII (88), e claro sua primeira aparição em grego não foi neste relatório conciliar.

"O aparato indica ainda que os manuscritos gregos que contém a Comma são os seguintes: 221, 2318..."

Até prova em contrário, a NR da NVI não falou inverdade quando disse que o texto da Comma "não é encontrado em nenhum manuscrito grego anterior ao século XII". O ônus da prova se encontra com o autor de E.E.

O 221 é do século X, sendo portanto anterior ao século XII

"Vale lembrar, ainda uma vez, que o Greek New Testament According to the Majority Text também omite a Comma, alistando o TR como a única testemunha a seu favor."

Como foi mostrado acima, há várias outras testemunhas além do TR. E há também sólida evidência interna baseada no próprio texto grego que dá suporte à leitura encontrada no TR. Contudo, seu estudo fugiria ao escopo deste texto.
Marcos 1:2

(ACF) "Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. (2) Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. " (Mc.1:2-3)

(NVI) "Conforme está escrito no profeta Isaías: 'Enviarei à tua frente o meu mensageiro; ele preparará o teu caminho' (2) 'voz do que clama no deserto: preparem o caminho para o Senhor, endireitem as veredas para ele'." (Mc.1:1-2)

"Em Marcos 1:2, o texto adotado pela NVI exige muito maior firmeza quanto à inerrância do que o do TR. Conquanto minha preferência pessoal seja pelo TMaj (= TR), precisamos reconhecer que o mesmo expediente de alistar dois profetas sob uma única autoria acontece em Mateus 27:9..."

Ora em Mateus 27:9 temos:
(ACF) "Então se realizou o que vaticinara o profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, que certos filhos de Israel avaliaram." (Mt.27:9)

Se atentarmos para o texto vemos que este diz "vaticinara o profeta Jeremias", e não "escrevera o profeta Jeremias", há clara distinção entre falar e escrever, assim, não há contradição, ou erro, quando encontramos o fato não apenas profetizado, mas também escrito pelo profeta Zacarias (Zc.11:12-13).

O mesmo não ocorre em Marcos 1:2. Por esta razão há uma informação incompleta (informação parcial apenas) na passagem tal como está na NVI, já que não foi somente o profeta Isaías (40:3) que escreveu sobre este fato, o profeta Malaquias também o profetizou e escreveu (Ml.3:1).

Assim, apesar de não reconhecermos que o mesmo expediente de Marcos 1:2 tenha sido utilizado em Mateus 27:9, concordamos com o Prof. Oswaldo quanto à sua preferência pela leitura da passagem como é encontrada no TR, que lemos "nos profetas", indicando (como realmente ocorreu) que mais de um profeta escreveu sobre o fato.

Mateus 27:34
"De igual modo, a questão do vinho e do vinagre em Mateus 27.34 reflete a expressão "procurar chifre em cabeça de cavalo." A diferença textual entre vinho e vinagre em grego é mínima () e poderia ser explicada tanto para um lado quanto para outro. O que dizer de Marcos 15:23, no TR, que usa "vinho"? Estará o TR em contradição com Salmo 69:21 [22 no Hebraico], onde surge a palavra "vinagre"? Quem sabe o fato do vinagre bíblico ser nada mais que vinho azedo (ver NVI em João 19:29) tenha motivado esse tipo de ambigüidade inerrante que o autor de E.E. apressadamente (ou por falta de maior destreza exegética) atribuiu à natureza herética da NVI?"

No caso destas duas passagens, temos duas situações diferentes que ocorreram pouco antes da crucificação:

(1) (ACF) "Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber." (Mt.27:34).

(2) (ACF) "E deram-lhe a beber vinho com mirra, mas ele não o tomou." (Mc.15:23).

(3) (ACF) "Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre." (Sl.69:21).

Indo ao texto grego, temos:

1. Mt.27:34 - Deram a Jesus Vinagre misturado com Fel, ou "oxos" misturado com "chole". Esta é uma mistura extremamente desagradável de azedo com amargo, a qual Jesus após provar, se recusou a tomar. 

2. Mc.15:23 - Deram a Jesus Vinho com Mirra, ou "oinos" com "smurnizo". Era costume à época de Jesus misturar-se mirra ao vinho de modo a dar-lhe um sabor e uma fragrância mais agradáveis. Esta bebida foi oferecida a Jesus, que a recusou sem sequer prová-la. 

Vemos então duas situações distintas e duas bebidas distintas. Sendo que a referência concordante com o Salmo 69:21 é a passagem de Mateus 27:34. Infelizmente o TC adultera esta passagem em Mateus, colocando a palavra "oinos" onde deveria estar a palavra "oxos", criando com isto uma contradição entre o texto de Mateus 27:34 e do Salmo 69:21 na NVI (que também nesta passagem seguiu o TC), problema este que não ocorre com o TR nem com as Bíblias traduzidas fielmente a partir dele.

O Prof. Oswaldo cita também a passagem em João 19:29. Esta passagem se refere a uma terceira situação que ocorreu pouco antes da morte de Jesus:
(ACF) " Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissope, lha chegaram à boca." (Jo.19:29).

A palavra grega utilizada nesta passagem, tanto no TR quanto no TC, e traduzida pela ACF como vinagre é "oxos", e significa exatamente isto: vinagre. Esta passagem concorda com Mt.27:48, Mc.15:36 e Lc.23:36, e em todas as passagens a palavra utilizada é a mesma (ou seja "oxos"), significando sempre a mesma coisa: vinagre. Este é um princípio exegético básico, qual seja: uma mesma palavra em contextos idênticos tem sempre o mesmo significado. E como podemos observar, este princípio básico está sendo seguido pela NVI nas passagens apresentadas abaixo:

(NVI) "Imediatamente, um deles correu em busca de uma esponja, embebeu-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e deu-a a Jesus para beber" (Mt.27:48)
(NVI) "Um deles correu, embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e deu-a a Jesus para beber. E disse: "Deixem-no. Vejamos se Elias vem tirá-lo daí" (Mc.15:36).

(NVI) "Os soldados, aproximando-se, também zombavam dele. Oferecendo-lhe vinagre" (Lc.23:36).

(NVI) "Estava ali uma vasilha cheia de vinagre. Então embeberam uma esponja nela, colocaram a esponja na ponta de um caniço de hissopo e a ergueram até os lábios de Jesus" (Jo.19:29).

Mais uma vez uma afirmação do Prof. Oswaldo me causou estranheza. Isto aconteceu no momento em que afirmou que na NVI a palavra "oxos" em João 19:29 havia sido traduzida como "vinho azedo" contrariando a regra acima enunciada. Posso apenas supor (visto não ter a primeira edição do NT da NVI em mãos) que houve uma falha exegética em sua tradução, e que tal falha teria chegado até a prensa, tendo sido posteriormente corrigida pelo CT antes da publicação do texto completo da NVI.

Mas, o que realmente importa é termos podido ver claramente que vinho é vinho e que vinagre é vinagre, e que estas traduções vem de palavras gregas distintas, com significados distintos e com usos distintos, devendo portanto ter sua correta tradução respeitada em todas as suas ocorrências (e não somente estas palavras, mas todas), sob pena de introduzirmos graves contradições no inerrante texto inspirado por Deus.

(ACF) "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; (17) Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." (II Tm.3:16-17).

Conclusão

Não podemos de forma alguma sugerir que quaisquer das pessoas que participaram da tradução da NVI tenham comprometimento com uma agenda destinada a denegrir, vilipendiar ou destruir a confiança na inerrância da palavra de Deus.

Mas, podemos afirmar que sua escolha de basear seu trabalho de tradução em um texto espúrio como o que resultou dos esforços dos padres anglicanos Westcott e Hort, estes sim pessoas com posições doutrinárias heréticas (como podemos comprovar pela leitura dos livros "Life and Letters of Fenton J.A. Hort"10 e "Life and Letters of Brooke Foss Westcott"11), resultou em uma obra com vários erros e problemas, introduzidos em grande parte pela base textual escolhida e em outra parte pela filosofia de equivalência adotada. Os textos resultantes sempre que comparados aos textos do TR, ou aos textos de quaisquer de suas traduções fiéis, estão invariavelmente em uma posição de enfraquecimento doutrinário, introduzindo dúvidas em algumas partes e contradizendo-se em outras, e com isto diminuindo a absoluta confiança que os crentes devem ter na inerrância da palavra de Deus.

Não podemos imaginar qual seria a utilidade ou a necessidade de mais uma outra tradução da palavra de Deus (opinião esta que expressamos na introdução deste estudo), mas caso se achasse por bem executá-la, deveríamos então optar pela base textual que tem servido aos crentes durante séculos a fio, causando transformações de vidas e dando crescimento espiritual aos salvos, e esta base é o TR. Tenhamos se não uma única tradução, pelo menos uma única base textual! Não há como convivermos com mais que uma "palavra de Deus", não podemos ter dúvidas sobre o que Deus nos disse, não podemos ficar a cada passo lendo traduções e traduções da Bíblia para depois fazermos uma média e obtermos o que teria sido a palavra de Deus. A palavra de Deus é a palavra de Deus. Ela é única e imutável!

(ACF) "Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o SENHOR que se compadece de ti." (Isaías 54:10)
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1 Todos os textos bíblicos citados neste estudo foram extraídos da tradução de João Ferreira de Almeida - Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF), editada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, exceto quando houver sido especificado em contrário.
2 Francisco I foi um rei francês comprometido com a causa protestante, sendo também aliado e colaborador dos protestantes alemães.
3 Conforme John William Burgon em seu livro "The Revision Revised".
4 Colofão é uma inscrição ou ilustração utilizada para separar porções de texto ou posta ao fim de manuscritos ou de livros impressos.
5 Uncial: Designativo da escrita que se originou do arredondamento das letras maiúsculas romanas e era usada principalmente em manuscritos gregos e latinos dos séculos IV a VIII.
6 Cursivo: manuscrito escrito com letra miúda e ligeira.
7 Lecionário: conjunto de passagens da Sagrada Escritura para ser lido na igreja.
8 Apologia: Discurso ou escrito laudatório para justificar ou defender alguém ou alguma coisa.
9 Cristãos fiéis que se recusaram a servir à hierarquia religiosa estabelecida.
10 HORT, A.F., Life and Letters of Fenton J.A. Hort, MacMillan and Co., London, 1896, vols. I,II.
11 WESTCOTT, A., Life and Letters of Brooke Foss Westcott, MacMillan and Co., London, 1903, vols. I,II.

Continua amanhã...

Abraços.



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