12 novembro 2014

CALVINISMO: "UM DECRETO HORRÍVEL"


Eu sempre fui ensinado, desde criança, que o calvinismo era um erro teológico.
Mas isso foi só até a época em que eu passei a estudar melhor o assunto. Depois que comecei a ler os escritos de Calvino, descobri que eu estava enganado. Não, o calvinismo não era apenas um erro teológico: era um ensino terrível e assombroso, como o próprio Calvino admitiu, quando disse: “certamente confesso ser esse um decretum horribile”[1].

Por que Calvino chamou sua doutrina do decreto divino de “horrível” ou “espantosa”? Porque ele sabia que, se levada às suas consequencias irredutíveis, sua doutrina transformaria Deus em um mostro moral que predestina todos os acontecimentos maléficos da humanidade, que faz dos seres humanos marionetes nas mãos de um Criador que faz acepção de pessoas, que só ama os eleitos e que não deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.

Um deus que predestina alguns para a salvação e outros para um tormento eterno. Que criou seres pré-ordenados a sofrerem eternamente. Que criou o mal e que ordenou o pecado. Que determinou cada evento que aconteceria neste planeta, inclusive esposas que seriam espancadas por seus maridos, crianças estupradas por pedófilos, genocídios, Holocausto, tortura, assassinato. Um deus que, como disse Olson, “só pode ser temido e mal pode ser diferenciado do diabo”[2]. E o pior: que faz tudo isso para a sua glória!

Como disse Dave Hunt:
“Todos os argumentos dos calvinistas possuem um propósito: provar que Deus não ama a todos, isto é, provar que Cristo não morreu por todos, provar que Deus não é bondoso com todos. E que, na verdade, Ele se agrada em mandar multidões para o inferno. Que amor é este?”[3]

Além disso, a teologia calvinista nos leva a outros problemas. Por exemplo: por que eu oraria para um descrente ser salvo? Se ele foi predestinado por Deus para ser salvo (e essa predestinação é fatalista e a graça é irresistível), então não há qualquer necessidade de eu orar para que esse descrente seja salvo, pois ele será salvo de qualquer jeito. Mas, se ele não foi predestinado (o que significa que ele foi predestinado para a perdição), então qualquer oração que eu faça por ele será completamente inútil, pois ele já estaria pré-ordenado para ir para o inferno e não haveria nada que alguém pudesse fazer para reverter isso. Ou seja: a oração seria inútil de um jeito ou de outro.

A mesma coisa se aplica a missões: para que sair daqui para pregar o evangelho na África ou na Ásia em países perseguidos se aqueles que foram predestinados serão salvos de qualquer jeito? E, se não foram predestinados, não será a minha pregação que irá mudar isso. Ou seja: a oração e a pregação seriam completamente inúteis, sem sentido lógico de existir – de acordo com o método calvinista.

Por outro lado, se Deus não determinou tudo o que irá acontecer – embora saiba tudo o que irá ocorrer –, então a oração e evangelização são absolutamente necessárias. Então vidas podem ser salvas se orarmos, e perder-se pela falta de oração. Então almas podem ser ganhas para Cristo se formos pregar onde Cristo não é pregado – vidas essas que poderiam não ser salvas se não fôssemos pregar. Isso dá sentido à vida cristã. Faz com que a prática do evangelho não seja algo inútil e sem razão de ser. Ou, para ser mais claro, isso é ser arminiano.

Calvinistas admitem tudo isso? Nem todos. Eles disfarçam isso em meio à sua teologia, mascarada sob o nome de “soberania divina”. Assim, eles pretendem dizer que todos aqueles que não creem no calvinismo não creem na soberania de Deus ou na graça soberana. Fazem verdadeiros espantalhos da teologia arminiana[4], comparando-a ao pelagianismo, ao semipelagianismo e ao romanismo[5]. Tudo isso para encobrir as conclusões que se chegam através de sua própria teologia.

Como disse Jerry Walls:
“O debate entre calvinismo e arminianismo não tem sua ênfase na liberdade, mas na bondade de Deus. O arminiano defende, em primeiro lugar, não a liberdade humana, mas a bondade divina, que o calvinista parece afogar em nome da soberania”[6]

Aqui um calvinista poderia alegar: “Mas você está fazendo um espantalho da doutrina calvinista. Ela não ensina isso!”. De fato, muitos calvinistas, quando refutados por arminianos, se defendem dizendo que “o calvinismo não ensina isso”. Em um debate televisivo, o pastor presbiteriano Welerson Alves Duarte disse: “Muitas críticas e argumentos que nós ouvimos contra o calvinismo, na verdade não tratam de calvinismo. Um espantalho é criado e conceitos que nenhum calvinista defende são apresentados como se fosse calvinismo, e então fica fácil argumentar contra a outra parte”[7].

Para evitar que um calvinista use tal argumento contra este livro, dizendo que certa afirmação não representa o que é crido no calvinismo, farei questão de expor mais de duas centenas de citações de Calvino e outras centenas de citações de outros autores calvinistas famosos ao longo de todo o livro.

Uma análise meticulosa nos escritos de Calvino nos mostra claramente que ele era muito mais “calvinista” do que se imagina, e que os calvinistas extremados têm razão em se dizerem os verdadeiros seguidores da sua doutrina. Embora muitos hoje tentem suavizar os ensinos de Calvino, o próprio Calvino não suavizou sua doutrina nem um pouco, mas foi bem aberto em dizer, por exemplo, que o assassino mata os inocentes por um decreto de Deus:
“Imaginemos, por exemplo, um mercador que, havendo entrado em uma zona de mata com um grupo de homens de confiança, imprudentemente se desgarre dos companheiros, em seu próprio divagar seja levado a um covil de salteadores, caia nas mãos dos ladrões, tenha o pescoço cortado. Sua morte fora não meramente antevista pelo olho de Deus, mas, além disso, é estabelecida por seu decreto”[8]

Ou então que Deus deseja os roubos, os adultérios e os homicídios:
“Mas, replicarão, a não ser que ele quisesse os roubos, os adultérios e os homicídios, não o haveríamos de fazer. Concordo. Entretanto, porventura fazemos as coisas más com este propósito, ou, seja, que lhe prestemos obediência? Com efeito, de maneira alguma Deus não no-las ordena; antes, pelo contrário, a elas nos arremetemos, nem mesmo cogitando se ele o queira, mas de nosso desejo incontido, a fremir tão desenfreadamente, que de intento deliberado lutamos contra ele”[9]

Ou então que o único motivo pelo qual os crimes acontecem é pela administração de Deus, e que os próprios homicidas e malfeitores são meros instrumentos nas mãos de Deus para praticar tais atos horrendos:
“Os crimes não são cometidos senão pela administração de Deus. E eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos”[10]

Ou então que Deus lança os infantes a uma morte eterna por causa de um decreto horrível, porque assim lhe pareceu bem:
“De novo, pergunto: donde vem que tanta gente, juntamente com seus filhos infantes, a queda de Adão lançasse, sem remédio, à morte eterna, a não ser porque a Deus assim pareceu bem? Aqui importa que suas línguas emudeçam, de outro modo tão loquazes. Certamente confesso ser esse um decretum horribile. Entretanto, ninguém poderá negar que Deus já sabia qual fim o homem haveria de ter, antes que o criasse, e que ele sabia de antemão porque assim ordenara por seu decreto”[11]

Ou então que Deus não só permite, mas incita os ímpios às maldades contra nós:
“A suma vem a ser isto: que, feridos injustamente pelos homens, posta de parte sua iniquidade, que nada faria senão exasperar-nos a dor e acicatar-nos o ânimo à vingança, nos lembremos de elevar-nos a Deus e aprendamos a ter por certo que foi, por sua justa administração, não só permitido, mas até inculcado, tudo quanto o inimigo impiamente intentou contra nós”[12]

Ou então que o pecado dos ímpios provém de Deus:
“Que os maus pequem, isso eles fazem por natureza; porém que ao pecarem, ou façam isto ou aquilo, isso provém do poder de Deus, que divide as trevas conforme lhe apraz”[13]

Ou então que a própria Queda de Adão foi preordenada por Deus:
“A Queda de Adão foi preordenada por Deus, e daí a perdição dos réprobos e de sua linhagem”[14]

Ou então que essa Queda e a condição depravada do ser humano ocorreram pela vontade de Deus:
“Quando perecem em sua corrupção, outra coisa não estão pagando senão as penas de sua miséria, na qual, por sua predestinação, Adão caiu e arrastou com ele toda sua progênie. Deus, pois, não será injusto, que tão cruelmente escarnece de suas criaturas? Sem dúvida confesso que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão nesta miserável condição em que ora se acham enrodilhados”[15]

Ou então que o homem caiu (no pecado) porque Deus assim achou conveniente:
“Além disso, sua perdição de tal maneira pende da predestinação divina, que ao mesmo tempo há de haver neles a causa e a matéria dela. O primeiro homem, pois, caiu porque o Senhor assim julgara ser conveniente. Por que ele assim o julgou nos é oculto”[16]

Se você não concorda com esses ensinos absolutamente repudiáveis, você pode ser qualquer coisa, menos um calvinista – ainda que pense que é um[17].


Fontes:

[1] Institutas, 3.23.7.
[2] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 142.
[3] David Hunt. Que amor é este? A falsa representação de Deus no calvinismo. Parte 1/2. Disponível em:
[4] Um “espantalho” é quando se pretende refutar uma tese contrária pervertendo aquilo que é realmente ensinado pela oposição. Por exemplo: o arminianismo crê na soberania de Deus, mas um calvinista afirma que os arminianos não creem na soberania divina e, em seguida, passa a provar biblicamente que Deus é soberano. Ele não está refutando a verdadeira teologia arminiana, mas está batendo em um espantalho montado por ele mesmo, já que os arminianos creem na soberania divina, e, portanto, argumentar em favor dela não refuta nada da verdadeira teologia arminiana.
[5] Iremos abordar estes conceitos com mais profundidade no capítulo seguinte do livro.
[6] Jerry L. Walls. Jerry Walls on Reformation, Free-will and Philosophy. Disponível em: . Acesso em: 09/01/2014.
[7] Pr. Welerson Alves Duarte. Se a predestinação calvinista não é correta, como entender Romanos 9? Disponível em: . Acesso em: 09/01/2014.
[8] Institutas, 1.16.9.
[9] Institutas, 1.17.5.
[10] Institutas, 1.17.5.
[11] Institutas, 3.23.7.
[12] Institutas, 1.17.8.
[13] Institutas, 2.4.4.
[14] Institutas, 3.23.7.
[15] Institutas, 3.23.4.
[16] Institutas, 3.23.8.
[17] Essas são apenas algumas citações de um todo muito maior que iremos passar ao longo de todo este livro. Elas nos mostram que Calvino não tinha qualquer receio em dizer abertamente aquelas coisas que seus seguidores calvinistas de nossos dias dizem que são “espantalhos”, porque, em muitos casos, eles mesmos se escandalizam com a teologia do verdadeiro Calvino, pois sabem que é absurda se levada a sério.

Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão?”, cedido pela comunidade de arminianos do Facebook

COMENTÁRIO DE WÁLDSON:

Neste debate entre Calvinismo e Arminianismo, quem está correto? É interessante notar que na diversidade do Corpo de Cristo, há toda a sorte de mistura de Calvinismo e Arminianismo. Há quem apóie cinco pontos do Calvinismo e cinco pontos do Arminianismo, e ao mesmo tempo, há quem apóie apenas três pontos do Calvinismo e dois pontos do Arminianismo. Muitos crentes chegam a um tipo de mistura das duas visões.

No final, é nossa visão que os dois sistemas falham por tentar explicar o inexplicável. Os seres humanos são incapazes de compreender totalmente um conceito como este. Sim, Deus é absolutamente soberano e de tudo sabe. Sim, os seres humanos são chamados a fazer uma decisão genuína a colocar sua fé em Cristo para a salvação. 

Estes dois fatos parecem contraditórios para nós, mas na mente de Deus, fazem completo sentido.

Meu abraço sincero.

Viva vencendo, com as Escrituras!!!

Seu irmão menor.

Um comentário:

  1. Nunca li tanta asneira em minha vida. Fico chocado com a disputa que gira em torno de Calvinistas e Arminianos, sendo que a Bíblia não é nem preta e nem branca neste assunto, e sim cinza. O fato é, que isso é apensa uma doutrina secundária, que não afeta nada primário em nossa fé. Espero que um dia essa disputa possa ser minimizada e muito mais que isso, o reino esteja em primeiro lugar!

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