08 dezembro 2014

FILME CONTA HISTÓRIA DO PADRE PEDÓFILO ACOBERTADO POR JOÃO PAULO II


Padre Marcial Maciel é abençoado pelo papa João Paulo 2

Lançado no México, o filme “Obediência Perfeita” tem como base a história do padre mexicano Marcial Maciel (1920- 2008), que se notabilizou por ser o fundador da ordem Legionários de Cristo e pedófilo, mulherengo e cocainômano. Teve vários filhos — dois deles sofreram abuso do próprio padre.


Em diferentes momentos, houve denúncias contra Maciel, mas ele nunca foi punido pela Igreja. 

O padre, que mandava anualmente substanciosa contribuição para o Vaticano, tinha a simpatia do papa João Paulo 2, que chegou a citá-lo como exemplo a ser seguido por sacerdotes. 

O diretor de "Obediência Perfeita" é Luis Urquiza. O padre Ángel de la Cruz (Juan Manuel Bernal) representa Maciel e o personagem Sebastián Aguirre, interpretado por Sacramento, é o garoto por quem o sacerdote se apaixona.

No filme, não há cenas explícitas de pedofilia, só muitas insinuações. Há uma cópia em espanhol do filme no Youtube (ver abaixo). 

A intenção de Urquiza foi abordar uma história já conhecida no México — e ao mesmo tempo denunciar o problema da pedofilia dentro da Igreja Católica — sem recorrer a cenas chocantes. Por isso, no México, alguns críticos afirmaram que o filme “pegou leve”.

A filmagem foi feita secretamente e com a presença de psicólogos e dos pais de Sacramento, para evitar algum abalo emocional no garoto.

O nome do filme se inspirou na “Carta de Obediência”, de Inácio de Loyola, para quem, entre outras coisas, a obediência dignifica o homem porque ela implica numa submissão da parte inferior em relação a vontade superior. “Aquele considera este como representante de Deus nesta terra e submete sua vontade alegremente, disposto a superar todos os sacrifícios que lhe são exigidos, ainda que experimente uma involuntária repugnância, nascida de sua natureza, em relação à ordem recebida.” Era o que Maciel exigia de seus meninos violentados.

João Paulo 2 só afastou Maciel de suas atividades sacerdotais e sexuais quando o padre já estava velho e doente, Maciel se recolheu para orações sem sofrer qualquer punição mais drástica do Vaticano. Logo depois ele morreu.


Até recentemente, uma filha do padre com uma espanhola reclamava uma herança milionária. A Legionários de Cristo abafou o caso por intermédio de um acordo com Norma Hilda Rivas Baños, a filha.

                         Diretor e atores falam sobre o filme


                                          Íntegra do filme


Pervertido se passou por santo com as bençãos do Vaticano


O escândalo dos Legionários de Cristo é o maior já registrado na Igreja desde, digamos, a época da venda das indulgências. Ele combina quase tudo o que há de mais grave: subornos passivos até no Colégio dos Cardeais, plágio, omissão, abusos sexuais, abusos de confiança, deturpação da confissão, busca obscena e obstinada do dinheiro e da influência. Tudo assentado sobre uma piedade ostentatória

Em Roma, a combinação fatal da teoria da conspiração, da cultura do segredo, de um anticomunismo de guerra fria, e da obsessão produtivista das vocações permitiu a um pervertido, Marcial Maciel, de se fazer passar por um santo e de enganar Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Agora, o Vaticano resume a carreira do homem que foi um fantástico sargento de recrutamento da seguinte forma: ‘Uma vida sem escrúpulos e sem autêntico sentimento religioso’.

Os sacerdotes e os fiéis que fazem parte dos Legionários de Cristo ou do seu ramo leigo, a Regnum Christi, são as primeiras vítimas. Tirando um punhado de cúmplices e lacaios, o seu compromisso sincero e generoso não pode ser posto em questão. 

As medidas cautelares podem parecer justas para salvar o que pode ser uma rede da maior envergadura, em que muitas coisas boas foram feitas. E parece que é  nesse sentido que os esforços devem ser vistos.
Mas não se pode pretender ‘refundar’ uma casa que tem, sob belas paredes, fundações tão ruins.

Concordo aqui com o norte-americano George Weigel, um católico conservador, durante muito tempo próximo desta congregação e biógrafo autorizado de João Paulo II. Como ele, também penso que deveríamos dissolver os Legionários de Cristo e propor àqueles que o desejarem entrar no clero diocesano ou em outras ordens religiosas. Em seguida, um pequeno grupo, talvez, poderia criar algo diferente, sobre outras bases que não aquelas do sigilo, do poder e do dinheiro.

Por que eu sou tão radical? Em parte por causa do contexto. O catolicismo atravessa uma crise de credibilidade. O processo feito sistematicamente contra a Igreja tem algo de irritante, e eu já escrevi sobre isso. Mas nossa época rebelde à moral é puritana à sua maneira. Ela é menos tolerante à contradição entre um discurso virtuoso e uma prática ineficiente viciada ou viciosa. Isto, ela está exigindo um preço bem alto.

Mas Bento XVI assumiu um papel ingrato e corajoso ao tentar cortar o abscesso dos escândalos de pedofilia ou, mais recentemente, ao criar uma comissão da verdade sobre as “aparições” de Medjugorje.

A impressionante pesquisa de Jean Mercier, na La Vie, mostra como o ainda cardeal Ratzinger quis fazer a limpeza entre os Legionários, mas foi impedido por conta do apoio que o seu fundador havia granjeado nas fileiras de um João Paulo II envelhecido. Ratzinger deve agora ir até o final.

E tem mais. Todas as grandes ordens religiosas estão assentadas sobre o carisma de um santo ao qual é preciso continuamente voltar para se refontalizar. Mas, aqui, o santo é um impostor, cuja adoração derivou em idolatria. Os Legionários não se desviaram, mas trabalharam desde os primeiros anos sobre uma mentira, uma cultura da dissimulação dessa mentira e sobre o culto do gênio de um mentiroso.

De uma perversão tão diabólica não pode surgir nada que seja evangélico. Não se pode ‘desmacielisar’ [de Maciel] os Legionários de Cristo como não se pode ‘desestalinizar’ [de Stalin] ou ‘desleninisar’ [de Lênin] o comunismo. Não podemos fundar um futuro sobre uma pintura retocada ou sobre um buraco.


Com tradução do Cepat para o IHU Online

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