28 maio 2015

LIÇÃO 09 - 31/05/15 - "AS LIMITAÇÕES DOS DISCÍPULOS"

Texto Áureo:
  “E roguei aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam.” (Lc 9.40)

Verdade Prática:
Ao longo de seu ministério, Jesus foi seguido por homens simples, imperfeitos e limitados, mas jamais os descartou por isso.



LEITURA BÍBLICA: Lucas 9.38-42,46-50


INTRODUÇÃO
Nesta Aula trataremos das limitações que os discípulos de Jesus apresentavam. Conquanto privilegiados eram em ter o maior Mestre da história da humanidade ao lado deles de forma tão intima e imediata, eles não eram perfeitos. Percebemos isso quando lemos as quatro narrativas do Evangelho de Jesus Cristo, o qual mostra que eles eram homens rodeados de imperfeições e limitações. Aprenderam, sim, com o Mestre dos mestres e nunca mais foram as mesmas pessoas, mas não deixaram de ser humanos com todas as suas limitações.
Às vezes se imagina que a fé cristã para ser genuinamente bíblica deve anular todas as fragilidades humanas, eliminar todos as suas limitações. Mas não é assim que a coisa acontece, nem tampouco é isso o que ensinam as Escrituras Sagradas. É verdade que Deus trabalha com homens, porém, homens imperfeitos, limitados e que constantemente estão dependendo dEle. Em nossa caminhada espiritual não dá para fingirmos superioridades espirituais ou coisas semelhantes. Somos humanos, isto é, somos limitados em nossas ações. Por isso, a partir da realidade da vida de alguns discípulos e da maneira como Jesus tratou com eles, algumas lições podem ser aprendidas por nós.
I. LIDANDO COM A DÚVIDA
1. A oração e a fé. No dia seguinte (Lc 9:37) à experiência gloriosa do cume do monte da transfiguração, Jesus se deparou com uma situação característica daqueles que querem fazer a obra de Deus de qualquer maneira: improficuidade. Lucas 9:37-43 mostra a incapacidade angustiante dos discípulos de tratar de um caso de possessão demoníaca. O contraste é marcante. De um lado, temos aqueles que se regozijavam na luz de Deus no cume da montanha, e, do outro lado, aqueles que estavam sendo derrotados pelos poderes das trevas na planície. Aqueles discípulos que há pouco tempo tinham recebido poder sobre os demônios (Lc 9:1), agora estão derrotados diante deles (Lc 9:40). Será que houve algum fracasso na vida espiritual deles?
O certo é que agora os discípulos de Jesus estavam no vale cara a cara com o diabo, sem capacidade espiritual, colhendo um grande fracasso. Diante da incapacidade espiritual dos discípulos, o pai do menino possesso, clamou a Jesus em alta voz, explicando sua necessidade. Aquele menino, filho único, de tempos em tempos era possesso por um demônio. E agora o pai completa o seu sofrimento dizendo que rogara aos discípulos que lidassem com o demônio, mas que, infelizmente, eles não puderam. Há algumas lições importantes que podemos extrair desse episódio: (1)
a) no vale há gente sofrendo o cativeiro do diabo sem encontrar na igreja solução para o seu problema (Lc 9:39).
Aqui está um pai desesperado (Mt 17:15,16). O diabo invadiu a sua casa e está arrebentando com a sua família. Está destruindo seu único filho. Aquele jovem estava possuído por uma casta de demônios, que tornavam a sua vida um verdadeiro inferno. No auge do seu desespero o pai do jovem correu para os discípulos de Jesus em busca de ajuda, mas eles estavam sem poder.
A Igreja tem oferecido resposta para uma sociedade desesperançada e aflita? Temos confrontado o poder do mal?  A Igreja hoje está cheia de conhecimento, mas conhecimento apenas não basta, é preciso revestimento de poder. O reino de Deus não consiste de palavras, mas de poder.
b) no vale há gente desesperada precisando de ajuda, mas os discípulos estão perdendo tempo, envolvidos numa discussão infrutífera (Mc 9:14-18).
Os discípulos estavam envolvidos numa interminável discussão com os escribas, enquanto o diabo estava agindo livremente sem ser confrontado. Eles estavam perdendo tempo com os inimigos da obra de Deus em vez de fazer a obra.
A discussão, muitas vezes é saudável e necessária. Contudo, passar o tempo todo discutindo é uma estratégia do diabo para nos manter fora da linha de combate. Há crentes que passam a vida inteira participando de retiros e congressos, mas nunca entram em campo para agir. Sabem muito e fazem pouco. Discutem muito e trabalham pouco.
Os discípulos estavam discutindo com os opositores da obra de Deus (Mc 9:14). Discussão sem ação é paralisia espiritual. O inferno vibra quando a igreja se fecha dentro de quatro paredes, em torno dos seus empolgantes assuntos. O mundo perece enquanto a igreja está discutindo. Há muita discussão, mas pouco poder. Há multidões sedentas, mas pouca ação da igreja.
c) no vale os discípulos estão sem poder para confrontar os poderes das trevas (Lc 9:40; Mc 9:18; Mt 17:16). Por que os discípulos estão sem poder?
- Os discípulos não oraram (Mc 9:28,29). Não há poder espiritual sem oração. O poder não vem de dentro, mas do alto. Pouca oração, pouco poder. Nenhuma oração, nenhum poder.
- Os discípulos não jejuaram (Mc 9:28,29). O jejum nos esvazia de nós mesmos e nos reveste com o poder do alto. Quando jejuamos, estamos dizendo que dependemos totalmente dos recursos de Deus.
- Os discípulos tinham uma fé tímida (Mt 17:19,20). A fé não olha para a adversidade, mas para as infinitas possibilidades de Deus. Jesus disse para o pai do jovem: "Se tu podes crer; Tudo é possível ao que crê" (Mc 9:23). O poder de Jesus opera, muitas vezes, mediante a nossa fé.
2. A Palavra de Deus e a fé. “Se a falta de oração traz incredulidade, por outro lado, a falta de conhecimento da Palavra de Deus produz efeito semelhante. É isso o que mostra a história dos discípulos de Emaús” (Lc 24:13-35). Um desses discípulos chamava-se Cléopas, mas o outro ninguém sabe o seu nome. O Senhor Jesus, no mesmo dia que ressuscitou apareceu a esses dois discípulos quando se dirigiam para a aldeia de Emaús. Depois de dialogar com eles, Jesus percebeu o quanto eram incrédulos. Jesus passa a indicar que a raiz do problema é que eles não tinham absorvido aquilo que se ensina nas profecias bíblicas. Os profetas tinham falado com clareza suficiente, mas as mentes de Cléopas e do seu companheiro não tinham sido suficientemente alertas para captar aquilo que queriam dizer. Jesus reprovou a incredulidade dos dois discípulos e os chamou de néscios, isto é, desprovidos de conhecimento ou discernimento (Lc 24:25).
Jesus, então, dá a aqueles dois discípulos um estudo bíblico sistemático. Moisés e todos os profetas formaram o ponto de partida, mas Ele também passou para as coisas que se referiam a Ele em todas as Escrituras. Lucas não dá indicação alguma de quais passagens o Senhor escolheu, mas torna claro que a totalidade do Antigo Testamento era envolvida. Aqueles dois discípulos tinham ideias erradas daquilo que o Antigo Testamento ensinava, e, portanto, tinham ideias erradas acerca da cruz.
As ideias erradas daquilo que o Antigo Testamento ensinava, também, estavam impregnadas na mente dos onze apóstolos. A dúvida é um mal terrível que impregna a mente das pessoas, causando-lhes incredulidade, quando lhes falta o conhecimento da Palavra de Deus. Os apóstolos fugiram quando Jesus foi preso no Getsêmani (Mc 14:50); estiveram ausentes no Calvário (exceto João); não compareceram diante de Pilatos para reivindicar o seu corpo para o sepultamento; estiveram ausentes no seu sepultamento; não acreditaram na mensagem da sua ressurreição (Mc 16:11-14). Marcos nos informa que eles não deram credito ao testemunho de Maria Madalena (Mc 16:9-11) e não creram no testemunho dos dois discípulos que estavam de caminho para o campo (Mc 16:12,13). Jesus, então, aparece a eles quando estavam à mesa e censura-lhes a incredulidade e dureza de coração (Mc 16:14).
Muitos hoje estão como esses discípulos, não acreditam na ressurreição; não acreditam que Jesus virá outra vez; muitos, não acreditam mais em Deus, não acreditam que as Escrituras é a Palavra de Deus. Infelizmente, muitos têm se apostatado da fé. Isso é lamentável!

II. LIDANDO COM A PRIMAZIA E O EXCLUSIVISMO

1. Evitando a Primazia. Certa feita, enquanto Jesus se preparava para enfrentar o calvário, os discípulos estavam preocupados em saber quem era o maior (Lc 9:46-48). Isso revelava a ideia errada que eles tinham de Jesus. Para eles Jesus era um Messias-Rei dominador, um libertador de Israel, e eles, de algum modo, iriam participar de um poder dominante. E, na luta pelo poder, veio a competição pela supremacia. Quem manda mais? Certamente os discípulos foram tentados pelo orgulho espiritual. Certamente eles foram tentados a usufruir o poder que Jesus tinha lhes dado. Diante disso, Jesus entendeu que eles precisavam de um tratamento de choque.
Jesus lhes apresentou uma parábola viva. E usou para essa lição um elemento inesperado para eles. Jesus tomou uma criança e, certamente, a colocou no colo e lhes ensinou: “Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me recebe não recebe a mim, mas ao que me enviou; porque aquele que entre vós todos for o menor, esse mesmo é grande” (Lc 9:48). A criança, além de ser o símbolo da despretensão, da fraqueza e da dependência, era o símbolo da pureza de fé, da humildade e principalmente da falta de hipocrisia, isto é, da sinceridade e da transparência. Naqueles dias, a criança não tinha qualquer valor na sociedade, assim como os escravos. E a lição ensinada acabava com qualquer pretensão: o menor é o maior. Quem acolhe os pequenos, humildes e sinceros acolhe Jesus e a Deus Pai que o enviou!
A ambição humana não vê outro sinal de grandeza senão coroas, status, riquezas e elevada posição na sociedade. Porém, o Filho de Deus declara que o caminho para a grandeza e o reconhecimento divino é devotar-se ao cuidado dos mais tenros e fracos da família de Deus.
2. Evitando o exclusivismo. Novamente Jesus corrige os seus discípulos, agora acerca da intolerância e do exclusivismo estreito (Lc 9:49,50; Mc 9:38-41). João proíbe um homem que expulsava demônios em nome de Cristo, pelo simples fato de não fazer parte do grupo apostólico, de não estar lutando alinhado com eles. Na teologia de João, somente o grupo deles estava com a verdade; os outros eram excluídos e desprezados. João pensava que apenas os discípulos tinham o monopólio do poder de Jesus. O homem estava fazendo uma coisa boa, expulsando demônios; da maneira certa, em nome de Jesus; com resultado positivo, socorrendo uma pessoa necessitada. Contudo, mesmo assim, João o proíbe.
De igual modo, hoje, muitos segmentos religiosos tem a pretensão de serem os únicos que servem a Deus. Pensam e chegam ao disparate de pregarem com altivez como se fossem os únicos seguidores fiéis de Jesus e batem no peito com arrogância, como se fossem os únicos salvos. Muitos, tolamente, creem que Deus é um patrimônio exclusivo da sua denominação. Agem com soberba e desprezam todos quantos não aderem à sua corrente sectária. Muitos chegam até mesmo a perseguir uns aos outros, e se engalfinham em vergonhosas brigas e contendas, como acontecia na igreja em Corintos (1Co 6:7). Esse espírito intolerante e exclusivista está em desacordo com o ensino de Jesus, o Senhor da Igreja. Na verdade, muitas pessoas que não faziam parte dos doze demonstraram, algumas vezes, uma fé mais robusta em Jesus do que eles (cf. Mc 7:28,29; 15:42-46; Mt 8:10).
Jesus, então, repreende os discípulos e acentua que quem não é contra Ele, é por Ele (Lc 9:50). A lição que Jesus ensina é clara: não podemos ter a pretensão de julgar os outros nem de considerar-nos os únicos seguidores de Cristo, pelo fato de essas pessoas não estarem em nossa companhia, em nossa denominação.
Obviamente, Jesus não está dizendo que os hereges, os heterodoxos e aqueles que acrescentam ou retiram parte das Escrituras devam ser considerados os seus legítimos seguidores. Jesus não está ensinando aqui o inclusivismo religioso nem dando um voto de aprovação a todas as religiões. Jesus não comunga com o erro doutrinário; antes, o reprovou severamente. Jesus não aprova o universalismo nem o ecumenismo. Não há unidade espiritual fora da verdade. Contudo, Jesus não aceita a intolerância religiosa. Não podemos proibir nem rejeitar os outros pelo simples fato de eles não pertencerem ao nosso grupo.
Certa vez, no Antigo Testamento, Josué pediu a Moisés para proibir Eldade e Medade que estavam profetizando no campo. Ele exclama: “Moisés, meu senhor, proíbe-lhos”. Mas Moisés lhe responde: ”Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito” (Nm 11:26-29). Moisés ensina aqui que devemos evitar o exclusivismo.
III. LIDANDO COM A AVAREZA (Lc 12:13-21)
Segundo o dicionário Aurélio, avareza é o “excessivo e sórdido apego ao dinheiro; esganação”. A avareza é um pecado perigoso, pois facilmente conduz a outros pecados, como a mentira e a desonestidade. Jesus disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15). O valor de uma pessoa não consiste no valor de seus bens. Esse ensinamento pode ser ridicularizado por alguns que amam o dinheiro. E infelizmente essa foi a reação de alguns líderes religiosos diante das Palavras de Jesus (Lc 16:14). Curiosamente, hoje, os “pregadores da riqueza” fazem o mesmo. Igualmente zombam dos verdadeiros servos de Deus, que combatem a exagerada “teologia da prosperidade” e pregam a verdade revelada na Palavra de Deus.
Certa feita, Jesus ainda estava no meio da multidão, ensinando o povo a ter cuidado com os religiosos, quando alguém levantou uma questão: alguém pediu que Jesus fosse o juiz num caso de divisão de herança - “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Essa solicitação estava na contramão dos ensinos de Cristo e por isso recebeu a censura dEle: “Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lc 12:14). Enquanto Jesus ensinava a se evitar uma atitude legalista e materialista, esse homem age de forma diametralmente oposta àquilo que fora ensinado. Ele estava preocupado com a herança.  Segundo a Bíblia de Estudo Nova Versão Internacional, esse pedido feito a Jesus não era algo estranho:
A lei, em Dt 21:17 promulgou a regra genérica de que um filho mais velho receberia o dobro da porção de um filho mais jovem. As disputas sobre tais questões eram em geral dirimidas pelos rabinos. Esse pedido que o homem fez a Jesus era egoísta e materialista…Jesus então lhe responde com uma Parábola a respeito das consequências da ganância”.

Como bem sabemos, a divisão de uma herança é sempre um problema, pois nesse momento aparecem a usura e a avareza. Com certeza, muita gente pensa: “Ah! Tudo estaria resolvido se aparecesse agora alguma herança”. Será que esse não é o desejo de alguns de nós nesse momento? Mas aí é que está o engano. É um erro pensar assim, pois a partir desse momento é que começam os conflitos e as dificuldades entre os herdeiros. Jesus foi muito claro quando disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12:15).
Jesus, então, contou a seguinte parábola: “a herdade de um homem rico tinha produzido com abundância. E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: derribarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? ” (Lc 12:16-20).
Irmãos, a vida não nos pertence! Os bens não nos pertencem! Nem a vida nem os bens são nossas propriedades; são apenas um empréstimo! Desta feita, de que adiantam os bens acumulados? As riquezas não podem atender as maiores necessidades da vida e nem mesmo nos libertar da ansiedade. Elas não são garantia de vida, porque a vida é um presente de Deus, do qual temos que prestar conta a qualquer momento.
Observe que Jesus chama o homem da parábola de louco. Ele foi chamado de louco não porque estivesse cometendo algum crime, escândalo, roubo ou adultério, mas porque era avarento, voltado somente para sua riqueza. Ele pensava que a alma se alimenta de cereal. Ele foi considerado um pecador tão perigoso quanto aquele que mata, rouba e adultera. Em outras palavras, esse homem era materialista ou ateu, como tantos que existem hoje em nossa sociedade, vivendo como se Deus não existisse.
Portanto, devemos entender que o dinheiro ou os bens não oferecem qualquer segurança, porque de um momento para o outro seu possuidor pode ser surpreendido com o chamado de Deus. Onde você tem depositado sua confiança? Nas suas posses? Nos seus bens? Desejo que sua segurança esteja totalmente depositada em Jesus Cristo!
Ao aceitarmos Jesus, podemos não nos tornar milionários, mas aqueles que aceitam tomar a cruz e segui-lo, certamente encontrarão a verdadeira riqueza, a riqueza espiritual, as quais Deus nos dará na eternidade: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (1Co 2.9).
IV. LIDANDO COM O RESSENTIMETNO (Lc 17:3,4)
“Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe; e, se pecar contra ti sete vezes no dia e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me, perdoa-lhe”.
1. A necessidade de perdão. Na vida cristã não há somente o perigo de ofender outros. Há também o perigo de nutrir rancores, de se recusar a perdoar quando alguém que nos ofendeu pede perdão. É isso que o Senhor trata aqui em Lucas 17:3,4.
O perdão é uma necessidade vital para nossa alma, para nosso bem-estar. Mas o perdão não é fácil. É fácil pregar um sermão sobre o perdão até se deparar com alguém para perdoar. Mas Jesus Cristo nos informa e nos ensina que se eu não perdoar não posso orar; se eu não perdoar não posso adorar; se eu não perdoar não posso ofertar; se eu não posso perdoar eu não posso ser perdoado; se eu não perdoar, eu adoeço fisicamente, emocionalmente, espiritualmente; se eu não perdoar a minha alma, a minha vida será entregue aos verdugos da consciência e eu ficarei cativo e prisioneiro sem paz.
O perdão é uma terapia para a alma, um tônico para o coração, uma condição indispensável para a saúde emocional e física. Muitas enfermidades deixariam de existir se aprendêssemos a terapia do perdão. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente. O perdão é o remédio necessário que tonifica o coração para caminharmos pela vida sem amargura. Sem perdão a vida torna-se um fardo insuportável e a alma fica prisioneira do ódio e da vingança. Sem perdão somos destruídos pelos nossos sentimentos.
Aliás, o perdão não é simplesmente uma questão de ação, mas de reação. Jesus ilustra isso no sermão do monte (Mt 5:39-41). Ele diz que quando uma pessoa nos ferir a face direita, devemos voltar-lhe a outra face. Quando a pessoa nos forçar a andar uma milha, devemos ir com ela duas milhas. Quando uma pessoa procurar nos tirar a capa, devemos dar-lhe também a túnica. O que, na verdade, Jesus estava ensinando? Ele não estava falando de ação, mas de reação.
O que representa essas três figuras alistadas por Jesus?  Primeiro, quando uma pessoa nos fere no rosto, ela agride a nossa honra. Segundo, quando uma pessoa nos força a fazer o que não desejamos, ela agride a nossa vontade. Terceiro, quando uma pessoa nos toma as vestes pessoais, ela agride o nosso bem mais íntimo e sagrado. Jesus, então, realça que mesmo que os pontos mais vitais da vida sejam atingidos - como a honra, a vontade e os bens inalienáveis -, devemos reagir transcendentalmente, ou seja, com perdão.
O perdão é a transcendência do amor, é vencer o mal com o bem. Perdoar é tratar o outro não como ele merece, mas segundo a misericórdia exige. O perdão não é a execução da justiça, mas o braço estendido da misericórdia. Perdoar é abrir mão dos seus direitos. Perdoar é colocar o outro na frente do eu. Perdoar é não se ressentir do mal, mas vencer o mal com o bem, abençoando o próprio malfeitor.
2. Perdão, uma vida de mão dupla. “... Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6:37). Aqui, Jesus mostra que o perdão é uma via de mão dupla.
Você já percebeu que na palavra perdoar tem a palavra doar? Quem perdoa está doando alguma coisa. De certa forma misteriosa, o perdão de Deus depende de nosso perdão. O que Jesus ensinou na oração do Pai Nosso? Duas vezes ele fala sobre o perdão. Em Mateus 6:12 Ele diz assim: “perdoa as nossas dividas, assim como nós perdoamos”. Depois no versículo 15 ele diz: “se, porém, não perdoardes aos homens vosso pai celestial também não vos perdoará”. Portanto, se eu não perdoar, eu também não recebo perdão de Deus. É uma via de não dupla.
Quer consubstanciar este texto? Então leia Mateus 18:23-35, que fala sobre “a parábola do credor incompassivo”. Sabe qual é a conclusão desta parábola? Se vós não perdoardes as ofensas dos vossos irmãos, vosso pai celestial também não vos perdoará - “Assim vos fará também meu pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (Mt 18:35). Então, de certa forma o perdão de Deus depende do nosso perdão. Se você quer perdão de Deus, aprenda a liberar perdão para aquele que tem apedrejado você.
Quanto eu perdoo eu me pareço com Deus. Em Mateus capitulo 5, a partir do versículo 44, você vai entender. Jesus disse: “eu, porém, vos digo: amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do pai que está nos céus...”. Aqui eu tenho a real compreensão que quando eu perdoo eu me pareço com Deus. Todo filho recebe uma herança genética do pai. Você não se parece com Deus quando você ora. Mas, quando você perdoa você se parece com Deus. Portanto, para que você seja filho do vosso Pai que está no Céu, tem que saber perdoar.
CONCLUSÃO
“Ao estudarmos as limitações dos discípulos, alguns fatos ficam em evidência. Observamos que a incapacidade para enfrentar Satanás em Lucas 9:40 é justificada em Mateus 17:20 pela falta de fé; a incredulidade dos discípulos no caminho de Emaús (Lc 24:13-35) é justificada pela falta de conhecimento das Escrituras (Lc 24:25-27); o desejo por grandeza e primazia (Lc 9:46-48) é uma consequência de terem se amoldado à cultura do mundo, e; a falta de perdão existe por não se reconhecer a natureza perdoadora do Pai celestial” (LBM. CPAD. p. 69).
 SUBSÍDIO PARA O PROFESSOR
Tropa de Elite

Por ocasião da morte de Osama Bin Laden em 2011, o mais temido terrorista do mundo islâmico, a revista Época trouxe urna extensa matéria sobre o assunto. Foi dado amplo destaque ao comando militar norte-americano denominado de SEALs como sendo o responsável por essa proeza. De acordo com o jornal inglês The Telegraph, a eliminação do terrorista número “foi uma intervenção cirúrgica, levada a cabo por um pequeno grupo treinado para evitar efeitos colaterais”.

O grupo, denominado de SEAL TEAM 6 da Marinha americana, é formado a partir de uma rigorosa seleção e é considerado como o mais bem treinado do mundo. Os seus componentes buscam a perfeição em seus treinamentos a fim de evitar cometerem erros quando são enviados em alguma missão.
De acordo com a revista Epoca:

Os SEALs são super-soldados, treinados por dois anos além do normal para fuzileiros navais e mantidos pelo governo com um orçamento de US$ 1 bilhão por ano. No treinamento, disparam 3 mil tiros por semana, mais do que os colegas de Forças Armadas disparam em um ano inteiro. O nome é uma corruptela dos atributos especiais da tropa: São capazes de realizar operações no mar (“sea”, em inglês), no ar (“air”) e na terra (“land”). Estima-se que existam hoje 2,5 mil soldados SEAL em atividade.

O SEAL Team 6 é um grupo dentro dos SEALs escolhido pela Marinha para realizar as missões mais difíceis, normalmente em parceria com a CIA, a agência de inteligência do governo americano. Oficialmente, o grupo sequer existe, Um dos antigos membros do Team 6, o atirador de elite Howard Wasdin, escreveu um livro sobre seus tempos de combatente, a ser lançado na semana que vem.

A primeira frase do livro explica em poucas palavras a importância da tropa: “Quando a Marinha americana precisa de seus melhores homens, envia os SEALs. Quando os SEALs precisam de seus melhores homens, enviam o SEAL Team 6”, escreveu Wasdin.

HELL WEEK - nos últimos cinco dias de treinamento, conhecidos como “Semana Infernal”, os postulantes a SEAL passam por uma simulação de guerra, com exercícios físicos extenuantes, tiros e explosões. O treinamento dessa equipe é semelhante à formação das principais tropas de elite no mundo. O exemplo brasileiro mais próximo é o do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio, o Bope, consagrado no filme Tropa de Elite.

A diferença é que o regime imposto aos soldados SEAL é muito mais longo e extenuante, Segundo o site da revista americana Newsweek, os últimos cinco dias de treinamento são conhecidos como “Hell Week” (“Semana Infernal”, em tradução livre), com simulação de um ambiente de guerra.

Os soldados são submetidos a rigorosos testes físicos em meio a tiros e explosões. Assim como acontece no treinamento do Bope, no Rio, quem não resiste à provação pode tocar uma sineta e desistir. Ainda segundo a Newsweek, dois em cada três soldados “pedem para sair”.

Quando o presidente Barak Obama anunciou a morte de Bin Laden, a mídia imediatamente posicionou suas lentes rumo a esse super comando. Seus soldados foram ovacionados como heróis nacionais, tornaram-se motivo de orgulho da nação e admiração no mundo inteiro. Que exército não gostaria de ter em suas fileiras homens desse nível?

A Lógica do Reino de Deus

É bastante conhecida a filosofia que afirma que somente os mais aptos sobrevivem; que o mercado é seletivo, escolhendo os melhores e excluindo os piores. Essa é a lógica! Como seres racionais estamos habituados com os princípios governados pela lógica formal. Todavia, no reino de Deus as coisas nem sempre são assim.

Muitas vezes essa “lógica” do reino se apresenta totalmente invertida. Por exemplo, quem não está disposto a perder também não ganha (Fp 3.7-8); quem não dá também não recebe (At 20.35); quem não perdoa também não é perdoado (Mt 6.13); quem não se humilha também não é exaltado (Lc 14.1); quem busca primeiramente as coisas secundárias não receberá as primárias (Mt 6.33); quem quiser ser o maior então deverá se tornar pequeno (Lc 22.26).

Isso pode ser visto com toda clareza no processo de “seleção” feito por Deus. Quem Ele escolhe?

“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Porque vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes.

E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Co 1.22-31).

Aqui aparece uma lógica que parece não ter lógica alguma! Paulo fala que Deus escolheu não os melhores, mas escolheu as coisas loucas, fracas, humildes, desprezíveis e que não são! Deus foi até ao lixão da humanidade e dali escolheu as suas escórias. (Por outro lado, a sabedoria de Deus transforma em tolo aquele que parecia sábio (vv.19-22); transforma em fraco quem achava que era forte (vv. 22-25) e deu realeza a quem não possuía nenhuma vv. 26-29).

O expositor bíblico William Barclay destacou esse fato. Tanto os gregos, conhecidos pela sua cultura, como os judeus piedosos, tinham em conta os cristãos como néscios. Paulo faz uma citação livre do Profeta Isaias (Is 29.14 e 33.18) para mostrar que a sabedoria humana havia fracassado. isso porque o mundo com toda a sua sabedoria não havia chegado ao conhecimento de Deus e continua buscando e tentando a1 cancã-la. Essa busca, sem sucesso, foi permitida por Deus para mostrar sua própria incapacidade e preparar o caminho para Jesus, a verdadeira sabedoria.

A mensagem pregada pelos primitivos cristãos (At 2.14-39; 3.12-26; 4.8-12 e 10.36-43), que provocou escândalo entre os judeus e tornou-se loucura para os gregos, pode ser resumida como segue:

1. Consistia no anúncio da chegada do reino de Deus;
2. Era fundamentada no anúncio da morte e ressurreição de Jesus;
3. Demonstrava que o que eles pregavam era cumprimento das profecias;
4. Era de natureza escatológica, isto é, mostra que Jesus voltará outra vez;
5. Chamava as pessoas ao arrependimento, mostrando que dessa forma era recebido o dom do Espírito Santo.

Barclay observa que os judeus se escandalizaram com essa mensagem por várias razões, Primeiramente os judeus não podiam aceitar que alguém que fora morto em uma cruz, instrumento de maldição para eles (Dt 21.23), fosse escolhido por Deus para ser o Messias. Ao contrário de tudo isso, os judeus estavam na expectativa de um Messias político, guerreiro que enfrentaria o Império Romano com a força das armas.

Os gregos, por outro lado, não viam qualquer sentido na mensagem dos apóstolos por outras razões, Os gregos achavam uma falta de bom senso a ideia de um Deus que se fez homem, tornando-se vulnerável como os mortais, sentindo fome e dores. Deus, na concepção deles, era incapaz de possuir os sentimentos tão comuns aos mortais. Era o que eles denominavam de aphateia. Para um dos seus principais filósofos, Plutarco, era um insulto a Deus envolvê-lo em assuntos humanos, Portanto, a ideia de Deus se fazendo homem, conhecida na teologia cristã como encarnação, era totalmente repulsiva para os gregos. Não é de admirar que quando o apóstolo Paulo pregou Jesus e a ressurreição em Atenas, os gregos o ridiculizaram, Eles achavam que a “ressurreição”, que em grego é uma palavra feminina, seria a esposa de Jesus (At 17.32),

Homens, não deuses!

Na cultura contemporânea traços dessa mentalidade judaica e grega ainda persistem e contaminaram setores do cristianismo institucional. Mas não são esses os princípios que apreendemos do cristianismo primitivo. Na escolha dos discípulos de Jesus não vemos o mérito sendo usado como critério de seleção. Pelo contrário, vemos a graça de Deus lidando com as imperfeições. Esses homens até mesmo falharam quando esperávamos que acertassem.

Por serem discípulos de Jesus, começamos a imaginar que esses homens eram os melhores em suas áreas. Gostaríamos que os discípulos de Jesus fossem uma espécie de SEAL TEAM 6. E mais, por terem aprendido aos pés do maior Mestre da história da humanidade, pensamos que os mesmos chegaram à perfeição.

Mas não é isso que descobrimos quando lemos os Evangelhos. As narrativas bíblicas em vez de apresentarem heróis, mostram homens rodeados de imperfeições e limitações. Aprenderam sim com o Mestre e nunca mais foram as mesmas pessoas, mas não deixaram de ser humanos.

Às vezes se tem a ideia de que a fé cristã para ser genuinamente bíblica deve anular todas as fragilidades humanas, eliminar todos as suas limitações. Mas não é assim que a coisa acontece, nem tampouco é isso o que ensinam os Evangelhos. Deus trabalha sim com homens, mas homens imperfeitos, limitados e que constantemente estão dependendo dEle. Esse princípio é valido para todas as áreas da vida cristã. Estão presente na vida do leigo e também do clérigo. São esses princípios que nos tornam humanos ou que revelam a nossa humanidade e consequentemente a nossa carência de Deus.

Decepcionados ao Pé do Monte

Deus é soberano, age, intervém, mas atua respeitando nossas limitações. E o mesmo princípio que encontramos na vida dos discípulos de Jesus.

“E aconteceu, no dia seguinte, que, descendo eles do monte, lhes saiu ao encontro uma grande multidão. E eis que um homem da multidão clamou, dizendo, Mestre, peço-te que olhes para meu filho, porque é o único que eu tenho. Eis que um espírito o toma, e de repente clama, e o despedaça até espumar; e só o larga depois de o ter quebrantado. E roguei aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam. E Jesus, respondendo, disse: O geração incrédula e perversa! Até quando estarei ainda convosco e vos sofrerei? Traze-me cá o teu filho. E, quando vinha chegando, o demônio o derribou e convulsionou; porém Jesus repreendeu o espírito imundo, e curou o menino, e o entregou a seu pai” (Lc 9.37-43).

A meu ver esse é um dos textos mais contundentes sobre as limitações dos discípulos de Jesus. É um texto que mostra claramente que os discípulos não eram homens perfeitos nem ilimitados. Eles foram derrotados diante de um possesso de demônio. Um desesperado pai exclama: “Roguei a teus discípulos que o expulsassem, e não puderam!” Não é que eles não tentaram! Tentaram, mas não puderam. E por que não puderam? As razões podem ser muitas. Jesus os censurou denominando-os de “geração incrédula” (Lc 9.41).

Eles não apenas faziam parte de uma cultura incrédula, como também assimilaram seus valores. Foram contaminados pela cultura ao seu redor! Essa “contaminação cultural” sempre foi um perigo iminente para o povo de Deus.

Na passagem paralela do Evangelho de Marcos encontramos o texto: “Quando eles se aproximaram dos discípulos, viram numerosa multidão ao redor e que os escribas discutiam com eles” (Mc 9,14). Em vez de expelir o demônio, entraram em divagações teológicas com os escribas. Perderam o foco! Quando se perde o foco, os debates teológicos se tornam mais importantes do que a missão de libertar vidas.
Por outro lado, os discípulos aprenderam a viver à sombra do seu Mestre. Acostumaram apenas a assistir Jesus expulsar os demônios e agora que tinha chegado o momento deles mesmos fazerem isso, não fizeram. Jesus também os alertou sobre a necessidade da oração em casos como esse (Mc 9. 29).

Em outras palavras, não basta recorrer ao uso de técnicas e fórmulas na solução de coisas espirituais. Antes, é preciso cultivar um relacionamento com Deus, Os discípulos parecem ter esquecido que o ministério de libertação dependia do Espírito Santo, O Evangelho de Mateus associa o Espírito Santo com a expulsão de demônios durante o ministério público de Jesus: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deu sobre vós” (Mt 12.28). Esse mesmo texto na teologia carismática de Lucas recebe a seguinte redação: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20).

Não creio que os discípulos tivessem que passar por esse vexame. Como vimos em outro lugar desse livro, o Senhor deu-lhes autoridade sobre as forças do mal (Lc 10.17-19; Cl 2.14,15; Ef 1.20; 2.6).

Essa autoridade, portanto, não acontece fora do senhorio de Jesus nem tampouco vem de forma automática. É fruto de um relacionamento com Deus e do poder do Espírito Santo. Se os princípios do evangelho do reino são seguidos, então não tem como dar errado.

Lembro que no final dos anos 80 e início dos anos 90 eu e mais dois companheiros estávamos fazendo um trabalho evangelístico em um dos bairros da nossa cidade. Quando chegamos à determinada residência, vimos um aglomerado de pessoas naquela casa. Após pedirmos permissão, adentramos no recinto e encontramos uma jovem deitada sobre uma cama, aparentemente sem nenhum sinal de vida.

Foi nos informado pelo dono da casa que ela era a rainha de um culto afro-brasileiro e que havia tomado dezessete comprimidos de uma vez na intenção de cometer suicídio. Após recebermos autorização para fazermos uma oração por aquela jovem, desloquei-me em sua direção e impondo minhas mãos sobre ela percebi que forças malignas eram responsáveis por aquela situação.

Ao confrontar as forças do mal no poderoso nome de Jesus, vi aquela moça levantar-se com grande fúria e ficar frente a frente comigo. Falando em voz cavernosa e masculina disse que ia matá-la. Eu retruquei que isso não iria acontecer mais porque eles iriam ter que sair no nome de Jesus. Dito isso a jovem caiu no chão para logo em seguida se levantar, Confessou o Senhor Jesus como Senhor e Salvador e continua servindo a Ele com a sua família até hoje.
Primazia e Exclusivismo

“Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, sabendo o que se lhes passava no coração, tomou uma criança, colocou-a junto a si e lhes disse: Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande” (Lc 9.46-48).

Bispo de Alexandria

O escritor egípcio Michael Youssef ilustrou como esse desejo por primazia se torna uma poderosa ferramenta nas mãos do Diabo. Youssef conta que no século V, um famoso homem santo costumava passar muito tempo orando no deserto, tal como fez Jesus, Assim como Cristo, esse homem santo sofria tentações.
Tão santo era ele, que o Diabo enviou um pelotão inteiro de demônios com o intuito específico de fazê-lo tropeçar e pecar — em suma, fazer o que fosse necessário para que o homem de Deus caísse. Eles utilizaram todos os métodos usuais. Pensamentos lascivos para arrastar seu espírito para baixo. Fadiga, para impedi-lo de orar. Fome, para fazê-lo abandonar seus jejuns. Mas não importava o que eles tentassem, ou quão arduamente trabalhassem, seus esforços sempre eram inúteis, No fim, Satanás estava tão irritado com a incompetência de seus lacaios, que os afastou do projeto e assumiu ele mesmo a operação.

“O motivo do fracasso”, ensinava ele a seus seguidores, “é que vocês usaram métodos muitos toscos com aquele homem. Ele não sucumbirá a um ataque direto. Vocês precisam ser sutis e atacá-lo de surpresa. Agora, observem o mestre em ação!”

O Diabo, então, aproximou-se do homem santo de Deus e, muito suavemente, sussurrou estas palavras em seus ouvidos: “Seu irmão foi ordenado Bispo de Alexandria”,

Imediatamente, o maxilar do homem de Deus se enrijeceu. Seus olhos se apertaram. Suas narinas se dilataram, O Bispo de Alexandria! Seu irmão! Que ultraje!

Continuando, diz Yosseff, “Bem, isso é urna lenda, não urna história. Mas ela mostra um ponto importante. Observe que os demônios que tentaram o homem santo não chegaram a lugar nenhum usando os grandes pecados morais. Ele podia vê-los chegando a um quilômetro de distância, e conseguia defender-se, Então, o que fez Satanás? Usou um pecado socialmente aceitável.

Ele até mesmo o adequou à fraqueza particular daquele homem. Ele sabia que o homem estava vigilante contra a tentação da carne, e que era inútil tentar emboscá-lo daquela maneira. Assim, entrou de forma sutil usando a inveja e orgulho espiritual, e o fez pensar: ‘Ei, eu sou o santo da família. Por que o meu irmão está sendo ordenado Bispo de Alexandria e não eu?”

Querer ser o primeiro, o maior, o chefe ainda continua sendo cima poderosa tentação para muitos cristãos. Quando acontece no meio da liderança então, os seus efeitos são muito mais catastróficos. Hoje estamos vivenciando uma verdadeira fragmentação da igreja evangélica no Brasil e a causa principal é a disputa pela liderança. Ninguém quer mais ser índio, todos querem virar cacique.

Um Alerta contra o Consumismo

“A seguir, dirigiu-se Jesus a seus discípulos, dizendo: Por isso, eu vos advirto: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes” (Lc 12.22,23).

Na passagem paralela de Mateus os discípulos são advertidos pelo Senhor a não assumirem o comportamento dos gentios. Os gentios aqui representam uma mentalidade mundana e consumista.

“Por isso, vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que a vestimenta? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, porque andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? (Porque todas essas coisas os gentios procuram.) Decerto, vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas; Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas, Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6.25.34).

A preocupação demasiada com as coisas desta vida demonstrou a imaturidade dos discípulos que ainda não tinham conseguido adquirir uma mentalidade diferente daquela da cultura à sua volta. Jesus deixou bem claro que os “gentios procuram todas essas coisas” (Mt 6,32). Que coisas?

1. Os gentios valorizavam mais o corpo do que a alma, mais a estética do que a ética (Mt 6.25). Os gentios, especialmente os gregos, não apenas cuidavam do corpo mas o cultuavam. Havia um verdadeiro culto somático na Grécia antiga. Evidentemente que esse cuidado tinha reflexos na escala de valores onde o estético se sobrepunha ao ético. Não é errado cuidar do corpo nem tampouco zelar pela sua aparência, mas isso não constitui essência da existência humana. Hoje há uma preocupação demasiada com a imagem, com o que é visto e tocado. Todavia não há esse mesmo interesse naquilo que parece abstrato, como os valores da alma.

2. Os gentios entesouravam na terra, mas não possuíam reservas no céu (Mt 6.26). Jesus incentivou o investimento em valores espirituais e não a simples aquisição de coisas materiais. Mais importante do que construir grandes impérios terrenos é a aquisição de tesouros eternos.

3. Os gentios buscavam as coisas grandes esquecendo-se das pequenas (Mt 6.28-30). A busca pelas coisas grandes acaba por ofuscar a forma como se vê as pequenas. Qual o valor de um passarinho ou uma plantinha? Que lições elas podem nos ensinar? Deus está preocupado com coisas tão pequenas? A ideia que se tem é que Deus tem coisas mais importante para fazer. Todavia, nos ensinos de Cristo, as pequenas coisas são revestidas de um grande valor diante de Deus. Ele se preocupa com elas. Nós, como criaturas feitas pela sua própria mão, somos muito mais importantes.

4. Os gentios priorizavam a obrigação, mas esqueciam a devoção (Mt 6.33).
A lógica prioriza a obrigação, o trabalho, a empresa, os negócios. Não há nada errado em se trabalhar, cumprir horários e buscar o resultado na produção. Isso faz parte da vida. Todavia, na vida cristã, a obrigação e a devoção são como os dois lados da mesma moeda. Na verdade, à luz do Novo Testamento, não existe um dualismo que separa o trabalho da adoração. O nosso culto deve ser racional e, portanto, envolve todas as dimensões do nosso ser. Todavia, quando o reino é sacrificado por conta de uma inversão de valores, colocando-se Deus em segundo plano, então alguma coisa está errada, O reino deve vir em primeiro lugar.

5. Os gentios preocupavam-se muito com o futuro, mas esqueciam o presente (Mt 6.35). Como será o dia de amanhã? Ninguém sabe, senão Deus! Então porque se preocupar tanto com o amanhã? Os gentios não apenas se preocupam com o dia de amanhã ou fazem projetos para isso, mas querem controlá-lo. Somente Deus conhece o futuro e tem o poder de controlá-lo.
Tudo o que escrevi tem a ver com uma cultura de consumo. O consumismo parece ser uma prática humana bem antiga, pois Jesus já advertia seus discípulos para não andarem preocupados com o dia de amanhã. O cuidado com a aparência e o estômago tem sido uma das principais preocupações da sociedade pós-moderna. Zygmunt Bauman observou acertadamente que “em uma sociedade de consumidores é muito difícil ser sujeito (gente) sem primeiro virar mercadoria”. E verdade! O desejo pelo bem-estar e a busca desenfreada pelo prazer é uma das principais marcas dessa geração.
Faça desta, uma excelente oportunidade para aprender ensinando.
Viva vencendo as fraquezas, alimentando-se com a Palavra!!!
Seu irmão menor.
Abraços.

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