05 novembro 2015

MANUSCRITOS DO NOVO TESTAMENTO - É BOM SABER


Introdução
Num período de quase 1500 anos o Novo Testamento foi copiado à mão em papiro e pergaminho. Temos notícia de uns 5500 manuscritos espalhados em museus e bibliotecas pelo mundo afora. Os documentos vão desde fragmentos de papiro até Bíblias inteiras em grego, produzidas a partir da invenção da imprensa.
É notório que nem todos os manuscritos concordam. Essas pequenas variações requerem uma avaliação cuidadosa para determinar o que ao autor realmente escreveu. Não existe mais nenhum manuscrito original, vamos depender tão somente de cópias dos textos-fontes de autores apostólicos. Por isso precisamos da crítica textual.
Acreditamos que a Bíblia é plena e verbalmente inspirada no seu original. A nossa intenção é procurar dar maior segurança possível ao leitor quanto à fidedignidade da fonte grega de todas versões que temos hoje.
 Os problemas
O apóstolo Paulo diz em sua carta aos gálatas: “Vede com que letras grande vos escrevi de meu próprio punho” (6.11). Agora, imaginemos como seria impressionante poder ver a epístola no original ou ver como apóstolo assinava seus textos. Mas, infelizmente, todos os originais já desaparecem e o confronto da cópia de um manuscrito com o original ou com outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para escolha do texto exato é impossível.
É importante percebermos que uma das razões para o fim prematuro dos autógrafos do Novo Testamento foi a pouca durabilidade do papiro, que não durava muito mais que o papel atual. É bem possível que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se desfizeram por completo. Mas antes que os textos desaparecessem, eles foram copiados. E aí estamos com um outro problema: os erros introduzidos nos textos mediante as cópias feitas manualmente.
Até a invenção da imprensa, muitos erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade dos copistas. E obviamente, à medida, que aumentavam as cópias, mais cresciam as divergências entre elas. Afinal cada copista acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo anterior. O objetivo da Crítica Textual tem sido de avaliar as fontes e reconstruir o texto com a maior probabilidade de ser o original.
 Dificuldades de trabalho
O primeiro desafio da Edição Crítica do Novo Testamento está na distância entre as cópias mais completas e os originais. O texto sagrado estava completo por volta do ano 100, sendo que a grande maioria dos livros que o compõem já exista há pelo menos 20 anos antes dessa data, alguns até 50 anos antes, e de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes são do século IV. Ou seja, a distância entre os autógrafos chega perto de três séculos. Isso faz com que o Novo Testamento seja a obra mais bem documentada da Antigüidade.
Só para ilustrar a afirmação acima podemos dizer que os Clássicos (gregos e latinos), que poucas pessoas questionam a autenticidade, possuem um espaço muito maior entre os autógrafos e as cópias. Por exemplo, a cópia mais antiga que se conhece de Platão foi escrita 1300 anos depois de sua morte. Um único dos clássicos que se aproxima do Novo Testamento é Virgílio, falecido no ano 8 a.C., que encontramos um manuscrito completo de suas obras no século IV d.C.
Nesse aspecto, a situação do Novo Testamento é bem diferente. Temos manuscritos do século IV, em pergaminho, e um número considerável de fragmentos em papiro de praticamente todos os livros que compõem o Novo Testamento, que nos levam até o século III, e alguns até o século II.
Há um segundo obstáculo: o grande número de documentos disponíveis. Conforme foi dito no início do trabalho, existem cerca de 5500 manuscritos gregos (língua que o Novo Testamento foi escrito) completos ou fragmentos, fora aproximadamente 1300 manuscritos das versões e milhares de citações dos Pais da Igreja. Ou seja, o problema não está na falta de evidências textuais, mas no excesso. Assim, temos mais um problema que resulta em vantagem, afinal temos uma multiplicação de manuscritos que oferecem ensejo para os mais variados erros e muito mais elementos de comparação. Isso faz com que o texto tenha muito mais apoio crítico do que qualquer outro livro da antiguidade.
O terceiro desafio é o número assustador de variantes existentes. Num processo natural de multiplicação de manuscritos por um período de mais ou menos 1400 anos, foram surgindo inúmeras variações textuais. Notemos que as variações são de pouca importância doutrinária. Por exemplo, são variações na ordem de palavras, no uso de diferentes preposições e outras, o que na prática não tem como ser representado na língua portuguesa.
 A preparação do texto
Conforme dissemos acima, até o século XV, os textos eram transmitidos a partir de cópias manuais, usando material muito rústico.
 Papiro
O papiro foi utilizado nas primeiras cópias do Novo Testamento, já que era o principal material de escrita da Antigüidade.
O papiro era um tipo de junco, com caule triangular, com a grossura de um braço, com altura que variava entre 2 e 4 metros, que crescia nas margens do Lago Huleh, na Fenícia, no vale do Jordão e junto Nilo (onde foram encontrados os mais antigos fragmentos de papiro conhecidos, que constam de 2850 a.C.). A folha era feita com a medula do caule cortada em tiras estreitas e postas em duas camadas transversais sobre uma superfície plana. Depois eram batidas com um objeto de madeira, e se colocavam por causa da substância liberada da medula. Em seguida era seca ao sol e alisada, e estava pronta para a escrita.
O tamanho médio de uma folha era de 18 x 25cm, que podia variar de acordo com a finalidade. Várias podiam ser coladas pela borda para formar um rolo, que geralmente não tinha mais do que 10 metros de comprimento. O texto normalmente aparecia em colunas de 7 cm de altura, com intervalo de 1,5 cm ou 2 cm, com um pequeno espaço para correções e anotações. As margens superiores e inferiores eram maiores. A margem do começo do rolo era ainda maior. Nos rolos utilizados com maior freqüência, usa-se um bastão roliço, cujas pontas sobressaiam acima e abaixo.
Como regra só se escrevia sobre um lado, exceto em caso de escassez que se utilizava o verso. A tinta era feita com fuligem, goma e água, e a escrita era feita com uma cana de 15 a 40 cm de comprimento, de uma planta vinda também do Egito.
O papiro foi utilizado como material para escrita até a conquista do Egito pelos árabes, em 641, quando ficou impossível importar o material. Sendo utilizado principalmente na literatura secular a partir do século IV.
A primeira descoberta moderna de papiros ocorreu em 1778 numa província do Egito, chamada Fauim, dessa data em diante, milhares têm sido descobertos, principalmente no Egito, graças ao clima seco que favorece em muito a sua preservação.
 O pergaminho
Outro material utilizado era o pergaminho, que era mais durável que o papiro. Ele era feito em peles de carneiro ou ovelha submetido a um banho de cal e em seguida raspada e polida com pedra-pomes. Depois eram lavada, novamente raspadas e colocadas para secar em molduras de madeira a fim de evitar pregas ou rugas. No final do processo recebiam uma ou mais demãos de alvaidade. A etimologia vem da cidade de Pérgamo, onde processo foi desenvolvido por volta do século II a.C.
É interessante perceber que o seu uso já era conhecido desde o século XVIII a.C., só que bem menos utilizado do que o papiro. O pergaminho só conseguiu superar o papiro somente no século IV d.C, por causa do seu custo elevado, até o final da Idade Média, quando foi substituído pelo papel, que foi inventado na China começo do século I, e no século XII, foi introduzido na Europa por comerciantes árabes.
Os pergaminhos eram escritos com penas de bronze ou cobre. Os remígios de ganso acabaram substituindo as peças metálicas. A tinta era feita a partir de substâncias vegetais ou minerais. A cor mais comum era preta ou a vermelha, todavia eram produzidas tintas douradas e prateadas. As linhas eram marcadas por um estilete, podendo ser horizontais ou verticais.
Há um tipo de pergaminho conhecido como palimpsesto, que era aquele cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o material era caríssimo. Tal prática foi condenada para o uso de pergaminhos bíblicos para outros propósitos no ano de 692, pelo Concílio de Trullo. Usam-se vários métodos para que se possa restaurar o texto original: reagentes químicos (que acabavam estragando o pergaminho); fotografia de palimpsesto (iluminação do pergaminho com raios ultravioleta afim de enxergar a escrita).
 Códice
Adotou-se o preguear dos manuscritos nas suas bordas e juntar uma série, formando uma espécie de caderno. Em obras maiores, faziam-se cadernos com um número menor de folhas, mas dobradas, como nos livros modernos. Os cadernos variavam de oito, dez ou doze folhas, todavia já foram encontrados até com cem. Surgem os chamados códices.
Os estudiosos têm afirmado que os códices surgiram primeiramente em Roma, no início do Cristianismo. Os cristãos, por questões de praticidade, foram os responsáveis pela popularização do tipo: permitindo que os textos bíblicos estivessem num único livro, a maior rapidez na localização de passagens, mais baratos (escritos dos dois lados da folha).
Em segundo lugar, os gentios convertidos ao cristianismo, parece que optaram pelo códice para diferenciar dos livros usados pelos judeus e pelos pagãos.
 Escrita
A escrita mais comum nos manuscritos mais antigos do Novo Testamento, assim como de muitos textos literários era a uncial ou maiúscula. No texto sagrado ela era caracterizada por ser mais arredondada do que nos documentos literários, sem espaço entre palavras, sem pontuação e com abreviações bem definidas.
A outra forma de escrita era com letras menores ligadas, chamadas de cursivas. Usada, principalmente, com cartas familiares, recibos, testamentos etc. Normalmente os termos “cursivo” e “minúsculo” são empregados sem distinção. Alguns atribuem o primeiro à escrita informal e de documentos não-literários e o segundo para os literários desenvolvidos a partir da cursiva.
No século IX, ocorreu uma reforma na escrita, passou a usar letras pequenas, chamadas de minúsculas na produção de livros. Mais fluidas e rápidas, demandavam menos tempo e reduziam o preço dos manuscritos, apesar da difícil leitura.
A mudança foi gradual. Fixa-se o século XI, como o período no qual somente as minúsculas eram utilizadas. Muitos manuscritos no período intermediário, foram produzidos numa forma de combinação de uncial com minúscula.
 Abreviações
O uso de abreviações já aparece nas cópias mais antigas do Novo Testamento, provavelmente com objetivo de poupar espaço. Elas eram do tipo contração, suspensão, ligaturas ou símbolos. É importante salientar que as contrações, diferentemente, das outras abreviações, são utilizadas como forma de reverencia ao nome Deus, principalmente no texto hebraico. É notório que essa prática é limitada ao texto bíblico e outras fontes cristãs, mas quando essas palavras estão sendo utilizadas em outro sentido, elas não são contraídas.
 Formato
Os manuscritos eram variados em relação ao formato ou tamanho. Os menos eram de uso privado, os maiores na liturgia. O menor conhecido é o do Apocalipse, do século IV, de apenas uma página, que mede 7,7 x 9,3 cm e o maior é chamado Códice Gigante, do século XIII, com 49 x 89,5 cm.
O texto não seguia nenhuma forma muito rígida na página. Os papiros possuíam dezenas de colunas, os códices eram limitados ao tamanho das páginas.
 Orientações para o leitor
Mesmo nos manuscritos mais antigos, encontramos freqüentemente o uso de informações auxiliares. Por exemplo:
Prólogos:
exceto o Apocalipse, todos os textos do Novo Testamento trazem notas introdutórias, tratando do autor do conteúdo e a origem do texto. Os prólogos foram preparados durante períodos de controvérsias em a Igreja de Roma e Marcião, defensor cânon com o evangelho de Lucas e dez epistolas de Paulo, no século II.
Capítulos
Eusébio preparou uma divisão em seções para fins sinópticos, mas na maioria dos manuscritos encontramos outro tipo de divisão, ordenando os textos em relação ao conteúdo. Cada seção é identificada como um capítulo, levando uma inscrição. A divisão em capítulos, utilizada nas edições modernas, foi criada bem no início do século XIII, pelo arcebispo de Cantuária, Estevão Langton. Já a divisão em versículos surgiu com o editor parisiense Roberto Estáfano: o NT em 1551 e o AT em 1555.

Fonte:"Como a bíblia chegou até nós"

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