18 março 2016

PROSTITUIÇÃO: JULGAMENTO DIVINO A CAMINHO - PARTE 1


Prostituição
Sempre que alguém discorre sobre a prostituição, remonta às origens dela recordando a prostituição hospitaleira dos caldeus, ou a sagrada da Babilônia. Ora, a prostituição nunca foi “sagrada nem hospitaleira”, porque tem sido sempre infame, como o mercantilismo que a tornou possível.

A prostituição na pré-história
Lá atrás, no período da pré-história, a mulher era associada à Grande Deusa, criadora da força da vida, e estava no centro das atividades sociais, explica Nickie Roberts, no livro As Prostitutas na História. Com tal poder, ela controlava sua sexualidade. Nessas sociedades pré-históricas, cultura, religião e sexualidade estavam interligadas, tendo como fonte a Grande Deusa, conhecida inicialmente como Inanna e mais tarde como Ishtar.

A prática dos antigos povos do Oriente, seguida ainda hoje por muitas tribos selvagens de oferecer as mulheres e as filhas aos hospedes e forasteiros, nada tem com a prostituição. É o segmento da tradição poligâmica da comunidade primitiva das mulheres. O caráter religioso, isto é, mágico, que sempre andou ligado às revelações sexuais, entre esses povos, levou-os a consagrarem templos aos deuses e deusas da fecundação.

O contributo que as mulheres da Babilônia eram chamadas a dar ao culto de Milita, oferecendo-se, pelo menos uma vez por ano, aos que visitavam o templo, não significa também que houvesse prostituição. Dado que a poliandria e a promiscuidade eram a tradição, o restabelecimento dessa prática com fins religiosos mediante um donativo para o culto, de maneira nenhuma se deve aproximar da prostituição, exercida permanentemente como profissão, com um objetivo mercantil.

Por volta de 3.000 a.C., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante. Novas formas de casamento foram introduzidas. “Foi nesse momento da história humana, em torno do segundo milênio a.C., Que a instituição da prostituição sagrada tornou-se visível e foi registrada pela primeira vez na escrita”, explica Nickie.

Um vestígio dessa tradição existe ainda hoje nas chamadas “festas de caridade”, em que damas da alta roda ou atrizes em evidência, põem em leilão um beijo a favor de obras beneficentes. Esse costume: a retribuição monetária de uma prazer embora com objetivos altruístas – não é por ninguém considerado um ato de prostituição, nem prostitutas, apenas por isso, aquelas que o praticam.

As primeiras prostitutas da história
As grandes cidades da Mesopotâmia e do Egito continuaram centralizadas nos templos da Grande Deusa. As sacerdotisas dos templos, que participavam de rituais sexuais religiosos, ao mesmo tempo mulheres sagradas e meretrizes, foram as primeiras prostitutas da História, conta Nickie Roberts.

O status dessas mulheres era elevado. Os reis precisavam buscar a benção da deusa, por meio do sexo ritual com as sacerdotisas, para legitimar seu poder. “Nessa época, as prostitutas do mais alto escalão do templo eram, por direito nato, agentes poderosas e prestigiadas; não eram as meras vítimas oprimidas dos homens, tão protegidas pelas feministas modernas”, escreve Nickie Roberts.

A Suméria criou a segregação feminina ao colocar em lados opostos a esposa obediente e a prostituta má. Júlio Gralha, professor do NEA/UERJ, lembra que a visão sobre as prostitutas da época é pouco documentada de forma escrita, mas pode ser inferida pelas imagens das iconografias. “Pela análise da iconografia, a prostituta existia no Egito e atuava de forma remunerada.

Há contos iconográficos, cômicos, em que a prostituta é vista como poderosa, o homem não aguenta. Como aparecem o colar e outros símbolos ligados à deusa, elas são vistas como protegidas. A prostituição não era algo repulsivo ou condenado pela religião”, diz Gralha.

Prostituição na Grécia – Negócio organizado
A prostituição é a cristalização da promiscuidade com fins mercantilistas. À tradição e aos costumes não repugnava – nuca repugnou – a poligenia e poliandria, isto é, as relações sexuais de um homem com muitas mulheres e destas com muitos homens.

O mercantilismo aproveitou-se dessa disposição natural, para fins comerciais, rodeando a prostituição de leis, de privilégios, de repressões de tabus, que visavam e visam a proteger o negócio.

Vejamos como as coisa se passaram, na Grécia, o território tipo da civilização antiga, em que cada cidade era uma autarquia. Parece não haver dúvidas de que no tempo de Cekrops, o fundador de Atenas (1.600 a.C.) reinava a comunidade das mulheres.

A Grécia antiga foi uma típica sociedade patriarcal. As mulheres não podiam participar da vida política e social. No entanto, como aconteceu a todas as sociedades antigas, os primeiros habitantes da Grécia foram povos adoradores da deusa, afirma Nickie.

Os deuses masculinos só vieram mais tarde, por volta de 2.000 a.C., com os invasores indo-europeus. As duas culturas fundiram-se e produziram o híbrido que chegou até nós. Basta lembrar que Zeus, divindade suprema indo-europeia, casou-se com Hera, poderosa deusa sobrevivente do culto anterior.

Com o consolidar da civilização, o princípio da propriedade individual tomou vulto, o mercantilismo apareceu, gerando um e outro, por um lado a acumulação de riquezas e por outro o pauperismo. Daí, surgiu a prostituição que é a sua consequência imediata.

Sólon, que governou Atenas na virada do século VI a. C., tendo institucionalizado os papéis das mulheres na sociedade grega, e percebendo os lucros obtidos pelas prostitutas – tanto as comerciais quanto as sagradas - organizou o negócio, criando bordéis oficiais, administrados pelo Estado. E assim “satisfazer as necessidades do povo “, sendo por isso muito louvado por seus aduladores.

Neles, havia grande exploração das mulheres. Junto com os bordéis oficiais, muitas meretrizes independentes exerciam o seu comércio, apesar da legislação de Sólon. “Pela primeira vez na História, as mulheres estavam sendo cafetinadas – oficialmente. (…) Assim, de mãos dadas, nasceram a cafetinagem estatal e privada”, afirma Nickie.

Maria Regina Cândido, historiadora da UERJ, lembra que foi a pressão sobre a terra, com o grande aumento da população grega, que levou Sólon a criar os primeiros bordéis. Isso porque ele trouxe para a região estrangeiros ceramistas, com o intuito de ensinar à população excedente uma nova atividade, já que a agricultura não absorvia mais a todos.

“Para que os estrangeiros não molestassem as esposas e filhas de cidadãos gregos, ele criou um espaço de prostituição oficial na periferia da cidade, os bordéis”, explica a coordenadora do NEA.

Segundo Maria Regina, as prostitutas ficavam em frente ao cemitério, na região do cerâmico, onde estavam instaladas as oficinas dos ceramistas, e também na região do Porto do Pireu, onde eram chamadas de porné, daí vem a palavra pornografia.

As prostitutas vulgares eram escravas e tinham o nome de porné; a casa onde exerciam o seu comércio era o porneion; e os industriais que exploravam o negócio eram os pornoboskoi. Essas mulheres pagavam um tributo pornokontelas e dependiam da autoridade dos magistrados agoranomos, que vigiavam a sua maneira de proceder. Viviam em Atenas num bairro reservado que tinha o nome de Cerâmico.

A prostituição sagrada também sobreviveu, embora timidamente, durante o período da Grécia clássica. Havia templos em toda a Grécia, especialmente em Corinto – dedicado à deusa Afrodite. As prostitutas do templo não mais eram vistas como sacerdotisas, eram tecnicamente escravas. Mas, por serem consideradas criadas da deusa, mantinham a aura de sacralidade e eram homenageadas pelos clientes. “Demóstenes pagava caro por essas prostitutas. Ele ia de Atenas até Corinto só para ter relações sexuais com elas”, diz Maria Regina.

Outra classe de prostitutas superiores a esta era a das que exerciam as profissões de dançarinas, cantoras, tangedoras de instrumentos musicais.

Eram as bacantes, também chamadas etéreas aulétridas e dictéredas. Tomavam parte nas festas e banquetes e na retribuição pelos serviços da sua arte estava envolvida a da sua condescendência com seu anfitrião e seus convidados. Em regra, mulheres livres, entre elas se recrutavam as sacerdotisas de Diónisos e de Vênus Cotito.

As prostitutas do templo de Afrodite deixaram de ser vistas como sacerdotisas e viraram escravas. Muitas prostitutas eram cultas e instruídas, e cumpriam o papel de entreter os líderes daquela sociedade. Cobravam alto preço por sua companhia e podiam ou não ceder aos desejos sexuais do cliente.

A classe das hetairas, que se tem pretendido colocar como a de mais alto grau das prostitutas da Grécia, era constituída por mulheres livres, cultas e famosas, que recebiam em suas casas os políticos, os generais, os filósofos e os poetas, raras vezes, mantendo relações sexuais, simultâneas, com mais de um. A significação de hetaira é: companheira, amiga, amante. Eram lícitas e regulares as relações íntimas com elas.

Na época brilhante da civilização grega, no templo de Sócrates, de Platão, de Demóstenes, as leis e os costumes permitiam aos cidadãos possuir três mulheres: a hetaira, especialmente para os prazeres do espírito; a palaca, para a direção dos serviços domésticos; e a esposa, para a procriação dos filhos legítimos.

As leis de Drácon sancionavam essas uniões a três, declarando livres os filhos delas, punindo as palacas e esposas que praticavam o adultério.

À poligamia dos homens correspondia a poliandria das hetairas, ou melhor, uma “monogamia periódica sucessiva”.

Havia duas classes de hetairas em Atenas e Corinto:

·   A primeira compunha-se de mulheres letradas;
·  A segunda compreendia as mulheres que, pela sua beleza, sua graça ou o seus espírito, se tornavam as favoritas dos grandes, dos príncipes e dos reis.

As primeiras não se vendiam às riquezas, o único desejo de se instruírem impelia-as a colocarem-se acima da opinião e a preferirem a vida livre à vida obscura da casa. Escolhiam o homem que lhes convinha e viviam maritalmente com ele.

As segundas, menos instruídas, mas não menos amáveis, procuravam a fortuna e tornavam-se as favoritas – as mulheres pela cabeça e pelo coração, - de homens ricos e poderosos.

Um exemplo das primeiras a sábia Aspásia, mulher de Péricles e sua inspiradora: das segundas a famosa Laís, a quem em vida foi erguido um monumento com esta inscrição: “À benfeitora Laís o povo de Corinto agradecido”.

Prostitutas livres no Império Romano
Roma foi diferente da Grécia. Até o início da República, a prostituição não era tão disseminada no território romano. “Roma ainda era muito provinciana, fechada”, explica Ronald Wilson Marques Rosa, historiador e pesquisador do NEA/UERJ. A prostituição apenas se difundiu com a expansão militar do império romano e a conquista de escravos.

Antes desta expansão, há indícios de que entre os primeiros romanos, que eram povos agrícolas, existia a antiga religião da deusa, diz Nickie Roberts. Ela também afirma que, em tempos posteriores, a prostituição religiosa estava ligada à adoração da deusa Vênus, que era considerada protetora das prostitutas.

Após a expansão militar e territorial, “os escravos eram os prostitutos, tanto homens quanto mulheres. E não havia estigmatização, não era algo mal-visto. Era normal o uso comercial do escravo para a prostituição. E, muitas vezes, eles usavam esse dinheiro para conseguir a liberdade”, diz Ronald Rosa.

De acordo com Nickie, Roma foi uma sociedade sexualmente muito permissiva. Eles escarneciam de qualquer noção de convenção moral ou sexual e desviavam-se de toda norma que houvesse sido inventada até então”, afirma.

A grande expansão urbana favoreceu o crescimento da prostituição. A vida era barata, e o sexo, mais barato ainda, diz a autora. Prostituição, adultério e incesto permearam a vida de muitos imperadores romanos. “Falando de modo geral, a prostituição na antiga Roma era uma profissão natural, aceita, sem nenhuma vergonha associada a essas mulheres trabalhadoras”, comenta Nickie.

A vida permissiva levava mulheres a rejeitar o casamento, a ponto de o imperador Augusto estabelecer multas para as moças solteiras da aristocracia em idade casadoira. Muitas se registraram como prostitutas para escapar da obrigação. O sucessor de Augusto, Tibério, proibiu as mulheres da classe dominante de trabalhar como prostitutas.

Diferente da Grécia, os romanos não possuíam e nem operavam bordéis estatais, mas foram os primeiros a criar um sistema de registro estatal das prostitutas de classe baixa. Isso resultou na divisão das prostitutas em duas classes, explica Nickie: as meretrices, registradas, e as prostibulae (fonte da palavra prostituta), não registradas. A maior parte não se registrava, preferia correr o risco de ser pega pela fiscalização, que era escassa.

Vocabulário da prostituição na Roma Antiga
Aedile - O funcionário, cujo dever era o de registrar prostitutas e prender aquelas que praticavam o ofício sem licença, uma vez que ele e seus comandados normalmente podiam ser subornados com dinheiro ou favores, ele é o protótipo do cafetão, tão comum em nossos dias.

Aelicariae - Prostitutas que trabalhavam no pátio dos templos, elas vendiam favores sexuais e pequenos bolos feitos na forma da genitália masculina ou feminina para o sacrifício a Vênus ou Príapo.

Amasiae - Mulheres que se prostituíam em tempo parcial, como uma forma de adoração à Vênus.

Ambubiae - Cantoras profissionais, a maioria dos quais se prostituía, pelo menos a tempo parcial.

Amica - Prostituta que também atendia a clientes do sexo feminino.

Ancillae ornatrices - Servas que ajudavam as prostitutas ou cortesãs a limpar-se, pentear o cabelo, entre outros afazeres.

Aquarii - Funcionários em bordéis que serviam vinho e outras bebidas, além de levar água para a higiene das profissionais do estabelecimento.

Blitidae - Prostitutas que trabalhavam em tabernas, cujo nome provém do vinho barato (blitum) vendido nesses estabelecimentos.

Bustuariae - Carpideiras que se prostituíam em cemitérios, nas cerimônias de funeral. Eles costumavam entreter seus clientes sentadas em lápides ou deitadas em criptas.

Citharistriae - Harpistas profissionais, a maioria das quais se prostituía, pelo menos a tempo parcial.

Delicatae - Prostitutas de luxo, algumas das quais também eram atrizes.

Diobolares - Prostitutas de rua muito baratas, cujos préstimos custavam apenas dois óbolos.

Diversorium - A pensão que alugava quartos para prostitutas.

Famosae - Cortesãs das classes superiores, que sem qualquer necessidade material, se prostituíam por prazer.

Fellatrix - Prostitutas especializadas em felação, a maioria delas trabalhava em casas de banho.

Forariae - Aquelas que praticavam seu comércio em estradas rurais perto de Roma, cujos principais clientes eram viajantes.

Fornicatrices - Aquelas que exerciam a profissão debaixo dos arcos de pontes e edifícios.

Fórnices - Os arcos debaixo dos grandes edifícios romanos, em cujos recessos sombrios muitas prostitutas entretiam seus clientes. Nossa palavra "fornicação", é derivada dessa prática.

Leno - Um bordel. A gerente ou a dona do lugar era uma lena.

Lupae - Prostitutas que atraíam os clientes, uivando como lobos.

Lupanar - Bordel. Sob a lei romana, bordéis só eram autorizados a operar a partir de 15:00 horas até a madrugada.

Noctilucae – Prostitutas que trabalhavam somente à noite.

Nonariae - Baixa classe de meretrices, cujas licenças limitadas lhes permitiam trabalhar somente a partir de 21:00 até a madrugada.

Quadrantariae - Prostitutas escravas.

Scortum - Um termo geral para qualquer prostituta da classe baixa.

Stabula - Um bordel composto por uma grande sala onde o sexo ocorria à vista dos outros clientes e prostitutas.

Tabernae - Padarias. A maioria dos padeiros alugava pequenos quartos em seus porões para prostitutas, mas, uma vez que estas instalações eram frequentemente invadida por Aediles, que procuravam prostitutas não licenciadas, quem frequentava esses lugares tinha que entrar e sair o mais rápido possível. Os padeiros, é claro, também forneciam bolos à aelicariae.

Tugurium - Uma cabana alugada por um preço extremamente baixo para prostitutas cujos clientes queriam maior privacidade.

Turturillae - ("casas de pombo") grandes gaiolas em que algumas prostitutas entretiam os clientes, método geralmente usado por prostitutos travestis.

Venerii - Prostitutas-sacerdotisas de Vênus, que ensinavam técnicas sexuais para cortesãs, de acordo com alguns historiadores, elas praticavam uma disciplina espiritual semelhante ao tantrismo.

Villicus - Espécie de recepcionista e caixa em um bordel, que conhecia as habilidades e atributos de todas as moças da casa e respondia às perguntas dos clientes.

Viva vencendo esse pecado que cega, amordaça, destroi famílias e mata literalmente, por fim, seus praticantes!!!

Continuaremos amanhã...

Deus o abençoe.



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