21 março 2016

VALE TUDO PARA 'PREGAR' O EVANGELHO?


No dia 15 de setembro de 2009 li uma matéria do “The New York Times” referindo-se ao avanço numérico da igreja evangélica no Brasil. O título da matéria era “Noites de luta e reggae enchem igrejas evangélicas no Brasil”. Gostaria de ter ficado surpreso com esse tipo de notícia, entretanto, ela serviu para confirmar aquilo que venho falando sobre a decadência da igreja e seu processo pragmático de crescimento. Num dos trechos da matéria, o ambiente “evangélico” daquela igreja é descrito da seguinte forma:
“Na noite do Extreme Fight, dezenas de jovens pairavam em volta da igreja. Na sala da frente, barracas vendiam cachorro-quente e pizza e jovens se alinhavam em um canto para fazer tatuagens com temas religiosos, como ‘Eu pertenço a Jesus’. Na sala principal, havia videogames, um DJ tocando uma mistura de hip-hop e funk, e uma tela de projeção mostrando um DVD do Harlem Globetrotters”.

Certamente muitos pastores lerão essa matéria e concordarão com ela, argumentando que se trata de “uma grande ferramenta para expandir o reino de Deus” ou que “Deus usa diversas formas para uma pessoa se converter”. Causa-me tristeza pensar que a igreja tem usado de meios reprováveis para atingir um fim tão nobre como a proclamação do evangelho.

Precisamos ressaltar alguns pontos no que diz respeito a essa atitude O primeiro deles é que a igreja brasileira tem tentado se mostrar uma “igreja legal e divertida”. Parece que um dos grandes propósitos da igreja é provar as pessoas que somos felizes e, para isso, é necessário que se façam muitos shows, eventos, lutas, etc. Os evangélicos pragmáticos têm se esforçado para comunicar que, se você “tomar uma decisão”, não precisará mudar muita coisa em sua vida. Antes, o incrédulo frequentava a balada, agora ele vai a igreja dançar na “cristoteca”. O barzinho é trocado pela “lanchonete gospel”, onde você pode continuar fazendo suas piadinhas e buscando alguém para ficar. Isso e muito mais é feito, pois os líderes dessas igrejas precisam provar aos incrédulos que a igreja é um lugar “gostoso”.

Outro ponto que deve ser frisado é que essas igrejas precisam colher resultados rápidos e, para isso, cometem todos os tipos de abominações. Os líderes dessas igrejas acreditam que um bando de “brutamontes” entortanto barras de ferro ou um grupo de skatistas fazendo manobras radicais “alcançarão os jovens para Cristo”. Isso porque no final das suas performances, eles dão um testemunho de como era suas vidas e como se encontram agora. Eventualmente citam um versículo bíblico, sendo motivo de grande crédito por parte das igrejas, visto que parece ser relevante à igreja fazer esse tipo de programa. 

John MacArthur cita um pequeno trecho de certo artigo publicado na “Los Angeles Times Magazine” retratando uma grande igreja dos Estados Unidos no domingo pela manhã: “Os membros ouvem os sermões cujos temas incluem ‘A Pick-up Ford do Pastor e Sexo Cristão’ (classificado com R que significa ‘relevância, respeito e relacionamento’, disse o pastor, ‘e mais engraçado do que parece’). Após o culto, os membros dançam com músicas de uma banda chamada ‘Os Anjos do Cabaré’ (e o que mais poderia ser?). A freqüência à igreja está aumentando rapidamente...”

Essas situações ilustram muito bem o ditado antibíblico que “os fins justificam os meios”. Para essas igrejas, o resultado é o que mais importa. Portanto, se fazer Vale Tudo na igreja ou torná-la uma pista de dança atrai um grande número de pessoas, é isso que será feito. Minha pergunta é: até onde podemos chegar com uma filosofia tão mundana e irreverente? Parece difícil prever o que acontecerá nos próximos anos, visto que muitas dessas práticas eram inimagináveis a algumas décadas e, com essa filosofia de “vale tudo pelo evangelho”, temo que presenciaremos situações ainda mais tenebrosas.

A igreja foi edificada por Cristo e seu papel não é buscar popularidade, mas pregar a Palavra de Deus. A igreja do Senhor não é um barzinho adaptado ou um clube que está fazendo campanha para conquistar novos sócios. O povo de Deus pertence a “igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15).

A igreja que Cristo “amou” e “comprou com o Seu próprio sangue”(Ef 5.25; At 20.28), está no mundo como um povo diferente daquele que “jaz no maligno” (1Jo 5.19). Como disse Charles Spurgeon: “prover entretenimento está em direto antagonismo ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos. Qual era a atitude da igreja em relação ao mundo? Vós sois o sal, não o docinho, algo que o mundo desprezará”.

O Senhor Jesus alertou Seus discípulos afirmando que não veio “trazer paz, mas espada”, trazendo divisões dentro do próprio lar. Cristo ainda afirma que o amor a Ele deve estar acima de todas as coisas, incluindo, pai mãe e filhos. Amar outras coisas ou pessoas mais do que a Cristo mostra que a pessoa não está disposta a servir ao Senhor (Mt 10.33-38). O evangelho pragmático passa longe desse padrão, pois é fato que a estratégia do pragmatismo é fazer tudo que as pessoas gostem, evitando confrontá-la para não deixá-la desconfortável. Os convertidos ao evangelho pragmático dificilmente confrontarão seus familiares com o evangelho. Isso porque eles farão um convite amigável para ir a igreja assistir algum show circense ou ouvir uma celebridade do mundo da música.

O evangelho pragmático se rebela contra o Evangelho de Cristo, pois o Senhor afirmou que o mundo sentiria de ódio por aqueles que pregam a Palavra de Deus. Em João 15.18-19 Jesus afirma: “Se o mundo vos odeia, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia”. Tentar ser simpático ao mundo com estratégias humanistas vai contra o que o Senhor Jesus declarou e, portanto, justificar essas práticas baseando-se nos resultados é omitir o caráter confrontador  e divisor do evangelho.

O crescimento da igreja pragmática(O pragmatismo é uma filosofia que toma “por critério da verdade o valor prático e se opõe ao intelectualismo”é baseado na capacidade humana, visto que sua expansão está baseada em técnicas de abordagem, bem como estudo do perfil dos moradores da região para descobrir sua escolaridade, situação financeira, preferências musicais, etc. Isso tem tudo a ver com a teologia arminiana praticada por essas igrejas, pois esta teologia prega que o fator decisivo para a salvação é a vontade humana e não o Deus Soberano.
Essas igrejas negligenciam o que Paulo falou a igreja de Corinto, que convivia em uma sociedade de cultura grega, arrogante em sua sabedoria filosófica. A palavra “filosofia” significa “amor à sabedoria” e era exatamente assim que os Coríntios agiam. A sabedoria era cultuada, inclusive por alguns crentes da igreja, sendo necessário o apóstolo Paulo escrever uma repreensão aos irmãos. Paulo afirma a sabedoria humana está fadada à destruição (1Co 1.19), é “louca” (1Co 1.20) e fraca (1Co 1.25).

Além disso, quando o apóstolo Paulo expõe a maneira como ele anunciava a Palavra de Deus, a sabedoria humana não estava na sua “lista”. Pelo contrário, ele se despojou de toda sabedoria humana para anunciar a Palavra de Deus (1Co 2.1). Seu intuito era pregar o Cristo crucificado, aquele que por Sua morte trouxe vida ao Seu povo (1Co 2.2). Paulo se despojou de sua sabedoria para pregar aos Coríntios “em fraqueza, temor e grande tremor” (1Co 2.3). Ele não estava buscando convencê-los com argumentos humanos, mas estava dependente da atuação poderosa do Espírito Santo de Deus (1Co 2.4). Seu intuito era que a fé dos coríntios não fosse baseada em argumentos falaciosos da sabedoria humana, mas “no poder de Deus” (1Co 2.5).

As igrejas pragmáticas estão convencidas que as estratégias humanas são suficientes para proporcionar crescimento a igreja. A pressão por crescimento tem se tornado tão forte que muitas igrejas antes defensoras da suficiência das Escrituras hoje sucumbem a proposta de crescimento rápido por meio da “mundanização” da igreja. Para crescer vale tudo, até deixar de pregar a Palavra de Deus para investir em entretenimento e conforto.

A igreja do Senhor Jesus está sedenta pelo evangelho e não por uma filosofia mundana que a faz relembrar àquela época de miséria e desgraça em que os eleitos já viveram (Ef 2.1-3). A filosofia pragmática é interessante apenas a pessoas mundanas que são religiosas mas irreverentes para com o Criador. A igreja não precisa divertir bodes ou encher de joio os seus celeiros, visto que naturalmente eles já se infiltrarão (Mt 7.21-23; 2Co 11.26; Gl 2.4). A igreja necessita de temor ao Senhor, reverência aos Seus preceitos e a confiança de que o Deus Soberano, e somente Ele é quem pode proporcionar o verdadeiro crescimento à Sua igreja (At 2.47; 1Co 3.6).

Vale tudo pelo evangelho? Sendo bem direto, não! Devemos pregar o evangelho “quer seja oportuno, quer não...” (2Tm 4.2), bem como nos despojar da sabedoria humana e depender do poder de Deus que atua na vida dos que foram chamados (1Co 1.24). Os verdadeiros crentes ao invés de buscarem estratégias humanas de crescimento devem batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Soli Deo Gloria.



Atigo “Noites de luta e reggae enchem igrejas evangélicas no Brasil”, por Alexei Barrionuevo: The New York Times. Tradução: Marcelle Ribeiro. Acessado em www.uol.com.br em 15/09/2009.
Retirado do artigo “Como Devemos Cultuar a Deus?” de John MacArthur. Disponível em www.espacodabiblia.com.
Retirado do artigo “Alimentando as Ovelhas ou Divertindo os Bodes” de Charles Haddon Spurgeon. 

Adriano Ribeiro dos Santos

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