20 abril 2016

ANÁLISE CONCISA DA PRIMEIRA PARTE DA CARTA AOS ROMANOS (CAPS. 1 ao 11) - CONCLUSÃO


A questão, contudo, é: quem são os "eleitos" e como tal "eleição" se processa? 
A resposta não pode advir de elucubrações humanas, pois, como vimos, as perspectivas acerca do texto podem centrar pontos periféricos, o que não é correto hermeneuticamente. É a partir daí que seguimos rumos ao próximo capítulo, talvez o mais controverso de toda a epístola. Após um lamento por causa dos israelitas (9:1-5), os quais francamente rejeitaram a mensagem salvífica de Jesus Cristo, como bem sabemos, além do que, àquela época, ainda perseguiam os apóstolos de Cristo, Paulo volta à questão que julgamos central nesta primeira parte da Carta aos Romanos: que "judeu" ou "israelita" não são os da carne, mas os da promessa, como temos enfatizado em 2:28-29. No capítulo 9, vss. 6 ao 8, Paulo escreve:

"E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, masdevem ser considerados como descendência os filhos da promessa".

Pois bem, logo em seguida, Paulo dá um exemplo que, a princípio, pode parecer-nos que queira ensinar algo como uma "eleição incondicional para a salvação"; mas, repito, isto é uma leitura errônea, que ganha peso na Modernidade, principalmente após o calvinismo. A questão é mostrar que não é por mérito dos judeus - por obras - que os mesmos são salvos, mas "por aquele que chama", i.e., Deus. Está escrito:

"Porque a palavra da promessa é esta: Por esse tempo, virei, e Sara terá um filho. E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" (9:9-13).

Duas coisas precisam ser ditas aqui: a primeira é que "o propósito quanto à eleição" não deve ser entendido para a SALVAÇÃO ESPIRITUAL, mas para o plano de Deus QUANTO ÀS NAÇÕES QUE ESAÚ E JACÓ REPRESENTAVAM. É claro que houve/haverá, entendemos assim, descendentes de Esaú que foram e/ou serão salvos espiritualmente, como descendentes de Jacó que não foram/serão salvos. Isto é claro e está de acordo com o que Paulo destaca acerca do que fora dito à Rebeca: "...O mais velho será servo do mais moço". Isto é algo relativo às nações (israelita e induméia). A segunda diz respeito ao que vem logo a seguir. A frase "Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" NÃO FOI PROFERIDA POR DEUS NO GÊNESIS, como muitos pensam, antes de ambos terem nascido, mas em Malaquias (c. de 440 a.C.), como parte de uma exortação que Deus faz aos israelitas:

"Sentença pronunciada pelo SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias. Eu vos tenho amado, diz o SENHOR; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? -- disse o SENHOR; todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos chacais do deserto. Se Edom diz: Fomos destruídos, porém tornaremos a edificar as ruínas, então, diz o SENHOR dos Exércitos: Eles edificarão, mas eu destruirei; e Edom será chamado Terra-De-Perversidade e Povo-Contra-Quem-O-SENHOR-Está-Irado-Para-Sempre. Os vossos olhos o verão, e vós direis: Grande é o SENHOR também fora dos limites de Israel.
O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? — diz o SENHOR dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome?" (Ml. 1:1-6). 

Como um pai que protege seus filhos, Deus "aborrecera a Esaú", i.e., os indumeus ou edomitas, por causa de sua obsessão pela ruína de Israel, suas atrocidades com os israelitas e toda a crueldade com que trataram os judeus. Como um pai que ama, Deus amou seu "filho", Israel, protegendo-o do irmão, Esaú, que além de idólatra e perverso (falo do povo, não da pessoa), era inimigo de Israel. O uso metonímico (o todo pela parte), ou seja, os edomitas e israelenses sendo retratados por "Esaú" e "Jacó", respectivamente, é um recurso por demais utilizado nas páginas do AT. Mas, apesar de Deus proteger e guardar seu "filho" - a nação de Israel -, esta continuava "ingrata", com os homens desrespeitando preceitos da Lei, desprezando o próprio Deus e mais: sem reconhecerem que continuamente faziam o que era mal. 

Neste ponto, Paulo pergunta: "Que diremos pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!" (9:14). Os judeus, ou quem quer seja, poderiam pensar que estava havendo alguma injustiça da parte de Deus em meio àquele ato arbitrário. Mas, de fato, Deus compadece-se de quem quer, como está escrito (9:15). E é a partir daí que entramos na seção mais obscura de Romanos, a qual, se lida isoladamente, pode produzir um enorme efeito contrário àquele que se nos é produzido quando a lemos levando em consideração o contexto geral da parte 1 (caps. 1-11). Paulo levanta um hipótese em seu discurso escrito. Vejamos:

"Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?" (9:19-24).

Primeiro, os seres humanos não são "objetos". A palavra "plasma", que foi traduzida por "objeto", seria um material de molde, como é o barro. Nenhum objeto pode perguntar ao oleiro "Por que me fizesse assim?", pois, se pudesse, perguntaria! A hipótese precisa ser bem lida: "SE Deus.... querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição...". "Vaso de desonra" é um vaso sanitário por exemplo. Uma parte qualquer do barro precisa ser "vaso sanitário", logo, alguém tem de ser. Mas, a questão aqui é: poderiam os judeus ser também tais vasos? A resposta é um sonoro "Sim", bem como "Sim" também seria a resposta à pergunta "Podem os gentios ser vasos de honra?". Houve, na História, pessoas que foram "preparadas" para fins específicos? Houve, sem dúvida. Faraó, Ciro, Judas, dentre outros. Esses homens foram "vasos de honra" ou "de desonra", conforme suas histórias. Olhemos o exemplo de Faraó, do Êxodo. Este foi um homem que, à certa altura, diz-nos a Bíblia que "Deus endureceu o coração de Faraó". Mas observe que o mesmo aconteceu para um fim específico, isto é, para a não libertação dos judeus, até que as pragas fossem derramadas no Egito. Deus poderia ter simplesmente matado Faraó logo no início, com a primeira praga, mas não é assim que funciona. É por isso que um texto como esse, de Romanos, deve ser visto no contexto da parte 1 da Carta: mais do que uma questão de "separar para a salvação/condenação" está o fato de que, nesta "separação" (que se dá para o fim, isto é, para o propósito a ser cumprido por aquele determinado "vaso"), inclui-se a questão de que os vasos destes propósitos não seguirão linhagens étnicas, sanguíneas, ou serão fruto de observação de preceitos (obras), mas exclusivamente da autoridade "daquele que chama", isto é, de Deus!

Podemos dizer que o rei Manassés foi um "vaso de desonra" por quase todo o tempo em que reinou em Judá. Foi idólatra, assassino, perverso, facínora. Eis o que a Bíblia diz acerca de Manassés:

"Eles, porém, não ouviram; e Manassés de tal modo os fez errar, que fizeram pior do que as nações que o SENHOR tinha destruído de diante dos filhos de Israel. (...) Além disso, Manassés derramou muitíssimo sangue inocente, até encher Jerusalém de um ao outro extremo, afora o seu pecado, com que fez pecar a Judá, praticando o que era mau perante o SENHOR" (2 Rs. 21:9, 16).

Sabemos que Manassés foi, durante boa parte de seu reinado (certamente, a maior parte do tempo), um idólatra assassino. Contudo, a Bíblia nos diz também sobre ele:

"Falou o SENHOR a Manassés e ao seu povo, porém não lhe deram ouvidos. Pelo que o SENHOR trouxe sobre eles os príncipes do exército do rei da Assíria, os quais prenderam Manassés com ganchos, amarraram-no com cadeias e o levaram à Babilônia. Ele, angustiado, suplicou deveras ao SENHOR, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais; fez-lhe oração, e Deus se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica e o fez voltar para Jerusalém, ao seu reino; então, reconheceu Manassés que o SENHOR era Deus. Depois disto, edificou o muro de fora da Cidade de Davi, ao ocidente de Giom, no vale, e à entrada da Porta do Peixe, abrangendo Ofel, e o levantou mui alto; também pôs chefes militares em todas as cidades fortificadas de Judá. Tirou da Casa do SENHOR os deuses estranhos e o ídolo, como também todos os altares que edificara no monte da Casa do SENHOR e em Jerusalém, e os lançou fora da cidade. Restaurou o altar do SENHOR, sacrificou sobre ele ofertas pacíficas e de ações de graças e ordenou a Judá que servisse ao SENHOR, Deus de Israel. Contudo, o povo ainda sacrificava nos altos, mas somente ao SENHOR, seu Deus. Quanto aos mais atos de Manassés, e à sua oração ao seu Deus, e às palavras dos videntes que lhe falaram no nome do SENHOR, Deus de Israel, eis que estão escritos na História dos Reis de Israel. A sua oração e como Deus se tornou favorável para com ele, todo o seu pecado, a sua transgressão e os lugares onde edificou altos e colocou postes-ídolos e imagens de escultura, antes que se humilhasse, eis que tudo está na História dos Videntes" (2 Cr. 33:10-19).

Afinal, Manassés foi um "vaso de honra" ou "de desonra"? E o ladrão da cruz, à direita de Jesus? (Lc. 23:43). E milhões e milhões de casos, de pessoas que honraram a Deus, por exemplo, durante toda a sua vida, mas apostataram em seus leitos de morte, como vice-versa, outros que foram grandes blasfemadores diante de Deus, mas se converteram em seus leitos de morte? A simples resposta de que são vasos de honra ou de desonra mediante sua condição ante a salvação é insuficiente perante o texto de Romanos 9, em questão! Pois os "vasos" sobre os quais Paulo fala, são aqueles "cujos usos" manifestaram para o que eram aqueles vasos: se para a honra, ou para a desonra. Concluímos, portanto, que quanto àquilo que Paulo fala acerca de vasos de honra ou desonra, refere-se a nações, povos ou mesmo grupos, ou ainda pessoas com fins (ações) específicas, diante das quais está Deus, que orquestra um plano infinitamente grandioso, mas que não é arbitrário em absoluto, pois não somos coisas. Voltemos ao exemplo do rei Manassés: para um judeu que teve um de seus filhos ou filhas mortos pelo sanguinário Manassés, que era devoto de Moloch, divindade cujo culto consistia em oferecer crianças recém-nascidas para serem queimadas vivas, Manassés (mesmo tendo se arrependido durante o fim de sua vida) fora "um vaso de honra", afinal? Ninguém em são juízo dirá que Manassés fora um "vaso de honra", desde sempre, por uma predestinação que não se explica, arbitrária, "inefável", indiscernível. Muito mais condizente com a História da Salvação, aliás, História em que se constrói o alvo principal da primeira parte da Carta aos Romanos, é perceber que Manassés tornou-se um "vaso de honra", pois durante muito tempo fora "vaso de desonra". E é por isso que devemos olhar o texto de Romanos 9 sob a luz do contexto de toda a primeira parte... que ainda não terminou!

O desfecho da primeira parte de Romanos: caps. 10 e 11!

Paulo termina o capítulo 9 da seguinte maneira:

"Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, todavia, a que decorre da fé; e Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço, como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e aquele que nela crê não será confundido" (9:30-33). 

Veja que os gentios alcançaram a justificação.... pela fé. Assim como os judeus não a alcançaram, pois imaginavam que a conseguiriam pelas obras. Ora, os judeus são "vasos de desonra"? Sim, mas não porque Deus assim determinara, pois Deus determinara que seriam quaisquer daqueles que não buscassem a justificação pela fé. Isso já estava explícito no capítulo 3, mas o ápice da argumentação paulina encontra-se no fim desta primeira parte. E é nela que percebemos plenamente o conceito aqui defendido. Assim Paulo começa o capítulo 10:

"Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos. Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento. Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê" (10:1-4). 

Ora, um texto como esse não teria sentido algum se Paulo compreendesse a imutabilidade do estado de "vasos de honra" ou "de desonra". Quero dizer: se um vaso de honra o é desde a eternidade, num ocaso de predestinação irrestrita, quaisquer tentativas de se mudar isso cairiam num solipsismo, o qual nos levaria à loucura. Pensar sobre essa situação, nestes moldes, é quase impossível, a não ser para os que se consideram confortavelmente "vasos de honra", pois nas suas mentes estão salvos mesmo... mas, de fato estão? Bem, a lógica da evangelização e da conversão é justamente essa: fazer com que pessoas, normalmente fadadas à morte, à condenação, sejam transformadas. Vejamos o que diz o Apóstolo dos gentios:

"Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela. Mas a justiça decorrente da fé assim diz: Não perguntes em teu coração: Quem subirá ao céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo?, isto é, para levantar Cristo dentre os mortos. Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (10:5-15). 

Paulo cita Deuteronômio 30. Em seguida, reproduziremos o texto de Dt. 30:10-18:

"Se deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, guardando os seus mandamentos e os seus estatutos, escritos neste Livro da Lei, se te converteres ao SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma. Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires. Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal; se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás".

É muito peculiar que Paulo cite exatamente este texto, cujo contexto é de escolhas, de decisão. Alguns comentaristas afirmam que Paulo fora "voluntarista" até aí, ou seja, especificamente entre os capítulos 9 e 10 de Romanos. A arbitrariedade do voluntarismo, contudo, não permite que pensemos assim, haja vista que, dessa forma, faríamos de Deus o autor do Mal, o que é um absurdo. Mesmo os partidários calvinistas que defendem a idéia de uma "plano maior", "mais ético", cujos desdobramentos nós não sabemos, esquecem-se de explicar o seguinte ponto: como Deus pode ter decretado tudo - inclusive o Mal -, se este é imediatamente contrário à sua natureza, mesmo que seja necessário ante um plano inefável e superior? É claro que, com isso, não queremos dizer que o Homem está apto a compreender todas as nuances da natureza e propósitos divinos, mas também não queremos dizer que ele só está apto a nada conhecerSe o reflexo da Justiça de Deus está em nossas consciências - como o Ap. Paulo afirmou que estava, no cap. 2 -, então este reflexo deve ser completo em sua limitação. Claro que não é todo, mas é completo na porção que é. E essa porção inclui a ideia de justiça, arbitrariedade, voluntarismo, parcialidade, etc. De modo algum, a criatura pode ser mais justa do que o Criador, e não falo isso apenas pela dificuldade de se entender os trechos acima, de Romanos 9, mas principalmente pelo nítido e claro paradoxo que a posição da predestinação irrestrita e incondicional teria com o claro ensino do oferecimento da expiação ilimitada:

"Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade(1 Tm. 2:4). 

Como sabemos que não se resolve um problema, criando-se outro, reafirmamos que Paulo faz uso de umahipótese, no texto do cap. 9, com o intuito de chegar ao capítulo 10. Observe a sequência que Paulo faz, das ações humanas (relativas à Igreja), essenciais no processo de levar a mensagem de salvação aos homens: "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (Rm. 10:14-15). Observe que a sequência enviar - pregar - ouvir - crer é decorrente da Igreja, ou seja, a ação humana em decorrência da obediência à Comissão divina e a aceitação dos que ouvem a mensagem e a recebem em seus corações. Ora, se todo o plano divino incluísse operações contingentes (temporais) provenientes de uma mera sucessão de causalidades já predestinadas, programadas, irrevogáveis, não haveria qualquer necessidade dessas perguntas, pois elas não me parecem mera formalidade retórica (perguntas retóricas apenas), mas uma sucessão correta de deduções que atestam a importância de os cristãos (talvez, àquela época, ainda majoritariamente judeus) irem aos gentios. 

Este pensamento, o da sucessão lógica de ações da Igreja e dos gentios (enviar - pregar - ouvir - crer) é reforçado pelo texto em Romanos que vem a seguir: 

"Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Pergunto mais: Porventura, não terá chegado isso ao conhecimento de Israel? Moisés já dizia: Eu vos porei em ciúmes com um povo que não é nação, com gente insensata eu vos provocarei à ira. E Isaías a mais se atreve e diz: Fui achado pelos que não me procuravam, revelei-me aos que não perguntavam por mim. Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde e contradizente" (Rm. 10:16-21).

Paulo lamenta por ter pregado a quem não ouviu. Ele cita Isaías (53) e essa ideia reforça sua oração por seus compatriotas, como ele dizia fazer (10:1). No que se refere à predestinação, não fica estranho Deus "estender as mãos todos os dias a um povo rebelde e contradizente"? Claro que sim. E isso reforça ainda mais a ideia de quenão há paradoxo algum, isto é, não há duas ideias distintas sobrepondo-se uma à outra, mas uma única expressão da revelação de Deus que, suportada por exemplo atrás de exemplo, não cabe a ideia de uma eleição incondicional. Alguém, contudo, poderá replicar: "Mas, é necessário pregarmos, porque não sabemos quem foi eleito". E quando o caso é o próprio Deus? Sabe ele ou não quem ele mesmo supostamente elegeu incondicionalmente para a salvação ou para a perdição? O texto acima, de Romanos, destrói aquela réplica, assim como o seguinte:

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mt. 23:37).

No capítulo 11, último da primeira parte de Romanos, como aconteceu nos caps. 9 e 10, Paulo parece confirmar a eleição condicional:

"Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje. E diz Davi: Torne-se-lhes a mesa em laço e armadilha, em tropeço e punição; escureçam-se-lhes os olhos, para que não vejam, e fiquem para sempre encurvadas as suas costas" (11:1-10).

 Se há alguma dúvida sobre que tipo de "eleição" ao qual Paulo se refere - i.e., se coercitiva, compulsória, incondicional ou, por outro lado, sinérgica, mediante a fé que o indivíduo deve desenvolver -, tal dúvida esvai-se quando olhamos o texto em seguida:

"Pergunto, pois: porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes. Ora, se a transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! Dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles. Porque, se o fato de terem sido eles rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos? E, se forem santas as primícias da massa, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a raiz, também os ramos o serão. Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti. Dirás, pois: Alguns ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. Bem! Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não te poupará. Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado. Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo. Pois, se foste cortado da que, por natureza, era oliveira brava e, contra a natureza, enxertado em boa oliveira, quanto mais não serão enxertados na sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais!" (11:11-24).

E aqui, antes do desfecho desta profunda primeira parte de Romanos, expõe-se novamente a tese de Paulo, de que "judeu é aquele que o é no interior". Este "retorno" ou "recapitulação" se dá pelo exemplo dos ramos e da raiz da oliveira: quem não é natural da oliveira (os gentios, a quem Paulo dirige esta seção de Romanos), é "enxertado" na oliveira, e não deve se esquecer da herança que recebeu, oriunda do povo judeu. Herança que está, inclusive, na própria Escritura vétero-testamentária. Aqui, a ideia de "tornar-se" algo novo vem mais uma vez à tona. Assim como dissemos que o sentido "vasos de honra e desonra", muito mais do que um estabelecimento imutável da eternidade, pareceu-nos a condição de estar diante de Deus, condição que pelo próprio nome implica numa possível mudança (quem era pode deixar de ser, e quem não é pode vir a ser): os ramos da oliveira podem ser "enxertados" ou "cortados", inclusive os que já foram outrora "enxertados" ou "cortados" uma vez. E como fica a "eleição"? Para que tenha sentido pleno, a ideia de "eleição" só pode funcionar, sem paradoxos, se vistacoletivamente. A eleição, sob uma perspectiva histórica, global, étnica, faz mais sentido, pois Deus quer a salvação de todos os homens, conforme nos dizem as Escrituras. Concluímos também que é por esse motivo que Paulo fala "eleição da graça". Não é simplesmente um ato inefável, misterioso, indiscernível e paradoxal de escolher compulsoriamente alguns para a salvação, separando outros também compulsoriamente para a condenação eterna, mas considerar a graça para todos, recebida por aqueles que vierem a "ouvir", afinal "a fé vem pelo(a) ouvir/pregação (gr., "akons") e o ouvir/pregação (d)a Palavra".

Após a explicação de que, a partir da desobediência de Israel, veio a salvação para os gentios (11:25), Paulo explica que após o tempo certo, o momento certo dos gentios, a "plenitude dos gentios" (gr., "πλήρωμα τών έθνών"), Israel será salvo. Vários intérpretes, principalmente antes de 1948, sequer viam uma restauração física para Israel, muito menos espiritual. Este foi o caso, por exemplo, de Louis Berkhoff, que afirmou em sua Teologia Sistemática que "não via quaisquer sinais de Israel voltando a ser uma nação". Contudo, outros intérpretes insistiam que um primeiro sinal da salvação espiritual de Israel seria sua restauração nacional e, desde então, os judeus têm sido alvo do mundo, dadas as tensões com os povos árabes e palestino. Seja como for, parece-nos que restauração de Israel dar-se-ia como a História mostrou, com uma primeira etapa, física, e outra, espiritual. Homens e mulheres judeus, de várias realidades diferentes, são partícipes desta promessa, assim como gentios. Mas, quais judeus equais gentios? Podemos dizer que, em termos de abrangência, a salvação tem que alcance? A última linha argumentativa de Paulo, na primeira parte da Carta aos Romanos, nos responde:

"Συνέκλfισε γιΧρ δ Θεος τοUς πάvτας είς άπείθειαν 'ίνα τού πάντας έλεήστι" ("Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos"), 11:32.
  
Como não poderia deixar de ser, termino este conciso texto acerca da primeira parte da Carta aos Romanos com o último texto da mesma. Faço minhas as palavras do Apóstolo dos gentios:
  
"Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. (11:33-36).

Estudantes da biblia

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