16 abril 2016

'EVANGELHO' PARA CONSUMIDORES - 02


Certamente, os pastores deveriam saber melhor. Contudo, em muitos casos em que o consumismo tem infectado as suas igrejas, eles têm agido no sentido de implementá-lo. Os pastores a quem me refiro aqui, e estou bem a par deste assunto, são os que se consideram bíblicos e desejam sinceramente ver almas sendo salvas, desejando também cumprir a sua vocação ao ministério, de modo a agradar a Deus. Como poderia tal pastor de ovelhas se engajar no cristianismo consumista?

O processo se desenvolve sempre de maneira sutil. Digamos que um pastor ame os membros de sua igreja e deseje vê-los felizes. Ele também deseja que eles cresçam espiritualmente e está buscando maneiras de acrescentar novas ovelhas ao seu rebanho. Quando surgem conflitos e as esperanças de crescimento não são atingidas, sempre são buscadas soluções para o problema em outras igrejas que, aparentemente, tenham tido sucesso em tais assuntos.  Os remédios recomendados quase sempre envolvem alguma forma de acomodação.

Por exemplo, um conflito muito comum, hoje em dia, dentro da igreja é a diferença de gostos na música, o qual geralmente é resolvido, quando os cultos são separados – um com hinos tradicionais e outro com cânticos contemporâneos. Como essa alteração parece satisfazer a maioria dos membros, muitos pastores são encorajados a acrescentar mais almas à sua igreja, combinando a atração pela música contemporânea dos buscadores sensíveis com mensagens (apelativas, mas não ameaçadoras), as quais são apresentadas em cultos convenientes e casuais, de sábado à noite. Programas inovadores são, então, formulados, a fim de irem ao encontro dos desejos dos que poderiam vir a se converter, motivando os raramente ativos na igreja, com ênfase especial sobre atividades de entretenimento, no sentido de atrair a juventude e conservá-la indo à igreja.

Alguns pastores têm-me dito que eles, relutantemente, observam as idéias do mundo, a fim de competirem com o mundo e poderem alcançar os perdidos, livrando-os do mundo. Eles estão cônscios da ironia dessa aproximação, porém argumentam ser essa a única maneira de evitar que se preguem para bancos vazios. A pregação, por sua vez, é sempre abreviada e suplementada por vídeos, peças e produções musicais.

Essa é uma trilha que, aparentemente inofensiva a princípio, no entanto conduz à estrada larga do cristianismo consumista. Embora simpatizemos com os pastores que se sentem compelidos (alguns até coagidos pela política da igreja) a resvalar por essa trilha bilateral, ela é pavimentada com comprometimentos bíblicos, os quais conduzem a um mortífero final espiritual.

Esse empreendimento de crescimento da igreja não é tão novo no cristianismo. É uma crônica de se fazerem as cosias à maneira do homem, desprezando o modo de Deus. No século 4, o Imperador Constantino agiu de igual modo em estratégias de sucesso no “crescimento a igreja”. Ele professou ter-se tornado cristão e induziu metade do Império Romano a agir de igual modo. Essa era de compromissos feitos pelo Imperador (que se autonomeou “Vigário de Cristo” e “Bispo dos Bispos”, a fim de conseguir novos convertidos, pode ser caracterizada por  Will Durant em sua “História do Cristianismo” (1). Outro historiador escreve: “Longe se ser uma fonte de melhoramento (sobre a perseguição que os cristãos sofriam antes), essa aliança [política] foi uma fonte de ‘maior perigo e tentação’ … Indiscriminadamente incluindo as igrejas [de pagãos]… simplesmente jogou bem longe os marcos claros e morais que separavam a ‘igreja’ do ‘mundo’” (2).

Um milênio mais tarde, Martinho “Lutero viu e sentiu uma Roma (religiosa) absolutamente entregue ao dinheiro, à luxúria e a outros males semelhantes” escreve Edwin Booth. “Ele ficou perplexo e incapaz de compreender isso” (3). Mesmo assim, ele e outros [reformadores] fizeram alguma coisa nesse sentido. A clara vocação da Reforma foi a “Solla Scriptura” e embora “somente a Escritura” não tenha sido inteiramente seguida, a Palavra de Deus e os seus caminhos foram restaurados como autoridade e regra de vida para os milhões, até então enganados pela devastadora acomodação à qual  se havia entregado a Igreja Católica Romana.

O cristianismo consumista jamais foi um caminho de mão única. Ele age como um “toma-lá-dá-cá”. Tetzel, o monge dominicano do século 16, foi um mestre manipulador na venda de indulgências. Por isso, o seu trabalho se tornou muito mais fácil ao “condescender” com as naturezas auto-servientes dos seus clientes católicos, [pois] tanto os ricos como os pobres se dispunham a pagar qualquer quantia, a fim de se livrarem das chamas do inferno e do purgatório.

O protestantismo teve a sua própria cota, tanto de artistas espirituais defraudadores como de ingênuos dispostos a serem defraudados. Se Tetzel foi um instrumento para a construção da Catedral de São Pedro em Roma, os evangelistas da “saúde e prosperidade” mais ainda o foram, no século 20 (continuando a crescer muito, na atualidade), tendo ajudado na construção da Trinity Broadcasting Network, dentro da mais ampla rede de TV religiosa do mundo. Distorcendo e aderindo à doutrina bíblica da fé em um poder, qualquer pessoa  pode usar esses falsos homens e mulheres para conseguir saúde e cura, os quais têm amealhado individualmente verdadeiras fortunas às expensas dos biblicamente fracos e iletrados, bem como daqueles “cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:19).

Durante os últimos 50 anos, os mais susceptíveis aos esquemas dos charlatães foram os cristãos professos, que tinham mais afinidade com as experiências espirituais místicas do que com a sã doutrina. Essas pessoas foram geralmente encontradas entre os pentecostais e os carismáticos. Muitos cristãos inteligentes e cônscios da doutrina se mostraram imunes aos avanços desse tipo de “fé sem efeito” pregada por Oral Roberts,  ou ainda às exposições blasfemas do poder do Espírito Santo de um Benny Hinn, dois líderes entre uma hoste de outros promotores de “sinais e maravilhas”.

Contudo, a ambição encontrou terreno fértil – ou melhor, um pântano mais profundo – entre os que tradicionalmente têm incrementado o discernimento bíblico. Embora as metodologias sedutoras sejam levemente diferentes, a base de um efetivo engodo espiritual é o mesmo: nenhum cristão, quer seja evangélico ou outro, pode estar garantido, “porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1 João 2:16). Além disso, a única salvaguarda contra esse tipo de engodo, que é a leitura e obediência à Palavra de Deus, no poder do Espírito Santo, está sendo sistematicamente diluída na igreja evangélica moderna.
A história da igreja tem demonstrado  a necessidade do cristão se apegar à Palavra de Deus e quando isso é seguido, logo acontecem a santificação e a frutificação. Quando o cristianismo bíblico é adulterado (com a adição de métodos humanos) ou abandonado de vez, logo prevalecem as distorções humanas, conduzindo a igreja professa à anemia e à cegueira espiritual. “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbio 14:12). Também há uma correlação entre a profundidade da confiança de uma igreja nas Escrituras e a sua aceitação de crenças e práticas heréticas. Quando a igreja tem apenas um conhecimento superficial em relação ao discernimento bíblico, a capacidade dos seus membros de discernir entre o legítimo e o falso ensino é praticamente nula.

O efeito letal do cristianismo consumista é o modo como ele faz  a apresentação do evangelho da salvação, que é a única esperança de reconciliação do homem com Deus. Este é sempre um sutil apelo de venda, apresentando todas as coisas maravilhosas que Deus tem à disposição do homem: “Ele ama a todos e quer que todos passem a eternidade junto dEle e todos têm para Ele uma significação de valor infinito”. Isso passa a ser o motivo do sacrifício de Cristo na cruz [em vez dos pecados do homem corrupto]. Essa miscelânea de distorções da verdade com auto-indulgência é seguida por uma breve “oração do pecador”, a qual é repetida  pelos que se deixaram persuadir a entregar uma tentadora oferta. Esse método tem-se tornado tão comum, que até mesmo alguns cristãos inteligentes dificilmente reconhecem qualquer problema, deixando de perceber quão mal orientados foram com relação ao fato de como uma pessoa é realmente salva.
Como assim? Comecemos com  alguém que é realmente salvo, e aja de modo errado. Toda pessoa nascida de novo pelo Espírito  Santo possui um novo coração, repleto do amor de Deus por Ele e pelo próximo, bem como pelos Seus ensinos. Ele ou ela é nova criatura, embora ainda não perfeita nessas coisas, embora residindo em seu coração o desejo de agradar mais a Deus do que a si mesma.

Um exemplo disso é encontrado em Lucas 7:36-50 envolvendo a mulher de reputação pecaminosa, a qual entrou em casa de Simão, o fariseu, à qual Jesus fora convidado para a ceia. Ela lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos, beijando-os repetidamente. Jesus declarou que ela amava muito por ter sido muito perdoada.

Essas passagens ensinam como é essencial a convicção de pecado, quando se vai a Cristo. O fariseu com justiça própria e auto-serviente pouca ou nenhuma convicção tinha do pecado e, portanto, não recebeu perdão (Lucas 18:9-14). Por sua vez, a mulher não pensou em si mesma, nem no desdém com que era observada pelos convidados à ceia. Sua gratidão por Jesus querer perdoá-la dos seus pecados compeliu-a a morrer para si mesma e viver para Ele.

Por sua vez, o evangelho, segundo o cristianismo consumista, sempre faz um apelo ao ego, enfatizando coisas (tanto verdadeiras como distorcidas) que vão ao encontro das necessidades sentidas pelos perdidos. Isso fica reduzido a um simples lampejo das doutrinas bíblicas que podem conduzir a uma convicção de pecado. Qual é o problema? Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, não os consumistas!

Continuaremos amanhã...

Viva vencendo esse 'evangelho' que é uma afronta ao Verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo!!!

Abraços.

Seu irmão menor.

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