09 junho 2016

LIÇÃO 11 - 12/06/2016 - "A TOLERÂNCIA CRISTÃ"

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TEXTO ÁUREO

 “Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17)

VERDADE PRÁTICA

Os crentes mais maduros não devem agir egoisticamente, mas precisam atuar como modelo para os mais fracos.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE


Romanos 14.1-6

INTRODUÇÃO

Estudaremos nesta Aula os capítulos 14 e 15 da Epístola aos romanos. Em Romanos 12, o apóstolo Paulo abordou nosso relacionamento com Deus (Rm 12:1,2), com nós mesmos (Rm 12:3-8), com nossos irmãos (Rm 12:9-16) e com nossos inimigos (Rm 12:17-21); no capítulo 13, ele trata do relacionamento com as autoridades constituídas (Rm 13:1-7) e com a lei (Rm 13:8-10); nos capítulos 14 e 15, Paulo trata do intrincado problema do relacionamento entre irmãos na fé que pensam de forma diferente em algumas questões espirituais. Paulo classifica esses irmãos em dois grupos distintos: os fortes e os fracos na fé. Ambos eram crentes em Cristo e ambos eram salvos por Cristo. Embora esses dois grupos pertencessem à família de Deus e participassem da mesma igreja, não estavam de acordo acerca de alguns pontos da vida cristã como comida, bebida e dias sagrados. Segundo John Stott, os fracos seriam, em sua maioria, cristãos judeus, cuja “fraqueza” consistia no fato de permanecerem, de sã consciência, comprometidos com as regras judaicas concernentes a dieta e dias religiosos. Ou seja, eles continuavam observando as normas alimentares do Antigo Testamento, comendo apenas coisas previstas na Torá (Rm 14:14,20). Quanto aos dias especiais, observavam tanto o sábado como os festivais judaicos. A atitude conciliatória de Paulo com relação aos “fracos” (não permitindo que os ”fortes” os desprezem, intimidem, condenem ou prejudiquem) manifesta-se também no fato de ter respeitado o decreto do Concílio de Jerusalém, que fora designado justamente para controlar os “fortes” e salvaguardar a consciência dos “fracos”. Paulo buscava um ponto de equilíbrio a fim de que a obra de Cristo não sofresse nenhum dano.

I. UMA IGREJA HETEROGÊNEA (Rm 14:1-12)

1. A natureza da Igreja. O grande triunfo da igreja é ser chamada de Corpo de Cristo, ser alicerçada na sua ressurreição e, principalmente, fazer parte de uma unidade homogênea. Embora constituída por pessoas de grupos diferentes, ela una e indivisível, ela forma um só corpo, o Corpo de Cristo (1Co 12:27a); ela é chamada de “a universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Hb 12:23a). Portanto, não há judeus e nem gentios, mas a Igreja de Jesus Cristo. Desta feita, os crentes judeus e gentios em Roma deveriam se conscientizar de que problemas de natureza local não poderiam sobrepor-se à universalidade da Igreja. Essa exortação é atemporal.
Ao iniciar o capítulo 14, Paulo dá-nos conta de que, na igreja do Senhor, existem os “enfermos na fé”, os “fracos”, ou seja, as pessoas se diferenciam na igreja não só pela função que tenham, mas, também, pelo seu nível de espiritualidade. Há pessoas que estão mais elevadas do que outras no seu relacionamento com Deus.
A vida espiritual exige o crescimento, o progresso do indivíduo e, como nem todos crescem de igual modo e na mesma velocidade na vida material, o mesmo se dá em relação ao relacionamento com Deus. Há, portanto, aqueles que crescem mais do que os outros espiritualmente, crescimento este que, ao contrário do crescimento na vida física, não está relacionado com o tempo, vez que se trata de um relacionamento com Deus, que está fora da dimensão temporal.

Paulo admite a existência destes diferentes níveis de espiritualidade, que são diferenças que nada têm que ver com a salvação, pois, lembremos, o crescimento é um fato que ocorre após o nascimento, ou seja, só cabe falar sobre diferentes níveis de crescimento depois que a pessoa nasceu, ou seja, o apóstolo está a falar de pessoas salvas, justificadas pela fé em Cristo. Tanto assim é que, em Romanos 14, em mais de uma oportunidade na sua argumentação, Paulo mostra claramente que tanto os “fracos” quanto os “fortes” são salvos e servem a Deus.
Portanto, a primeira nota do relacionamento entre os cristãos é a inclusão, ou seja, um comportamento que busca trazer a pessoa para o grupo, que procura integrar a pessoa, fazê-la se sentir participante e integrante da igreja local, ainda que ela apresente uma espiritualidade débil, fraca, ainda que seja um “menino em Cristo” ou alguém que “mesmo devendo já ser mestre pelo tempo, ainda necessite de que se torne a ensiná-lo quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus”. Lamentavelmente, o que se verifica, nos nossos dias, é que raramente se tem este comportamento inclusivista.

2. Os fracos na fé. Quem eram os crentes fracos? É consenso geral que os crentes chamados fracos eram oriundos das fileiras do judaísmo, os quais, embora tivessem depositado sua fé em Cristo, ainda viviam comprometidos com as regras judaicas concernentes à dieta (Rm 14:6,14,20) e aos dias religiosos (Rm 14:5). Não tinham plena compreensão de que esses ritos dietéticos e focados em calendários religiosos eram meras sombras do evangelho de Cristo, aos quais pela obra expiatória do Filho de Deus estavam desobrigados de cumprir. A deficiência de conhecimento os tornou crentes julgadores, carregados de muitos escrúpulos. Além de observar os ritos relacionados ao culto judaico, eles queriam que os gentios convertidos fizessem o mesmo. Situações semelhantes ocorreram com os crentes de Corinto (1Co 8:1-13), da região da Galácia e Colossos. Aos dois grupos de crentes de Roma – judeus e gentios -, Paulo recomendou que agissem com amor e respeito mútuo. Na recomendação de Paulo podemos ver três princípios fundamentais.

- O primeiro princípio é da tolerância. O que é tolerância? É qualidade de quem é tolerante. Mas o que é ser tolerante? É aquela pessoa que sabe respeitar as opiniões contrárias à sua; é aquela pessoa que sabe desculpar as falhas, ou fraquezas de seus semelhantes. Para nós tolerância tem o sentido de suportar, ter paciência, tolerar as falhas daqueles irmãos que, por diversas razões, ainda não chegaram a uma compreensão do que é a vida cristã e como ela deve ser vivida. Em sendo assim, e assim é, podemos resumir em uma única palavra a condição para que um crente seja tolerante: ser cheio do Espírito Santo.

Os cristãos podem ter comunhão mesmo sem concordar sobre questões não essenciais. É o que Paulo recomenda em Rm 14:1: “Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas”. O irmão que desfruta plenamente a liberdade cristã crê, com base nos ensinamentos do Novo Testamento, que todos os alimentos são puros, pois são santificados pela Palavra de Deus e pela oração (1Tm 4:4,5). O irmão com consciência fraca pode ter receio de comer carne de porco ou qualquer outra carne. Pode ser vegetariano. É o que o apóstolo Paulo diz em Romanos 14:3: “Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes”.

- O segundo princípio é o da aceitação mútua. O cristão maduro não deve desprezar seu irmão mais fraco. O irmão mais fraco não deve considerar pecado quem come presunto, camarão, lagosta ou carne e porco. Deus o acolheu; portanto, ele é membro legítimo da família de Deus. É o que Paulo diz em Romanos 14:3: “O que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu”. Aqui, Paulo mostra o ponto de equilíbrio – o respeito pelas convicções de cada um. Paulo não entra em juízo de valor, decidindo por um dos lados. Mas procura mostrar que acima de tudo a lei do amor fraternal deve imperar nesses casos. O que comia carne não deveria desprezar o que não comia e o que não comia carne também não deveria desprezar o que comia.

- O terceiro princípio é do acolhimento dos irmãos e não de julgamento – “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar”(Rm 14:4). De acordo com este princípio todo cristão nascido de novo é servo do Senhor, e não temos direito de julgá-lo como se fôssemos seus senhores. O crente precisa discernir o certo do errado; precisa distinguir entre os falsos profetas e aqueles que trazem o fiel ensino do Senhor. Contudo, Paulo condena a atitude de julgar um irmão, um servo de Cristo, por este ter uma opinião diferente acerca de assuntos secundários como dieta e calendário religioso. Nosso papel na igreja não é nos assentarmos na cadeira de juiz para julgar os irmãos, mas acolhê-los em amor.

Paulo mostra que o objetivo do acolhimento dos mais fracos é o fortalecimento na fé - “... porque poderoso é Deus para o firmar”. O problema é que uma acolhida sem a instrução trará como resultado final o mesmo que a rejeição: a destruição espiritual da pessoa, pois o povo de Deus é destruído quando lhe falta conhecimento (Oséias 4:6). Infelizmente, muitas igrejas locais, hoje em dia, até superam o obstáculo da rejeição, acolhendo afetuosamente os fracos na fé que chegam a elas, mas não completam o comportamento inclusivista, deixando de dar a devida instrução ao fraco, para que ele se fortaleça, e o resultado disto é a presença cada vez maior de crentes que, apesar do “tempo de casa”, não conseguem se desprender dos rudimentos doutrinários, precisamente o estado espiritual denunciado e reprovado pelo escritor aos hebreus (Hb 5:12-14).

3. Os fortes na fé. Quem eram os crentes fortes? Eram aqueles crentes, judeus ou gentios que, convertidos a Cristo, haviam compreendido com mais clareza a liberdade cristã, desvencilhando-se dessa forma dos escrúpulos dos rituais judaicos com respeito à dieta e ao calendário religioso. Os crentes fortes eram a maioria da igreja de Roma, e Paulo com eles se identificava (Rm 15:1). Embora Paulo deixe claro que acredita que a posição dos fortes está certa (Rm 14:14,20), estes não tinham o direito de desprezar os crentes fracos, mas deviam acolhê-los.

II. UMA IGREJA TOLERANTE (Rm 14:13-23)

1. A lei da liberdade. O crente não deve ser pedra de tropeço no caminho do irmão em Cristo. Devemos amá-lo como ele é. Não se deve fazer julgamento precipitado, fazendo juízo de valor sobre ele, acusando-o de estar em pecado, tomando como base nossas crenças e convicções. Deve-se respeitar a lei da liberdade em Cristo Jesus. Paulo diz “... que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14:12). Em vez de julgarmos nossos irmãos em Cristo quanto a questões moralmente indiferentes, deveríamos tomar o propósito de jamais fazer algo que atrapalhe um irmão em seu progresso espiritual. Paulo é bem explícito sobre isso em Romanos 14:13: “Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes, seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão”. Aqui, Paulo mostra que em vez de ser um tropeço no caminho uns dos outros, gerando problemas na igreja e escândalos fora dela, os cristãos deveriam cuidar e amar uns aos outros.

Paulo sabia, como nós também sabemos, que não há mais alimentos cerimonialmente impuros como havia para os judeus que viviam debaixo da lei. Disse ele: “Eu sei e estou certo, no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda” (Rm 4:14). O alimento que ingerimos é santificado pela palavra de Deus e pela oração (1Tm 4:5). É santificado pela oração quando pedimos que Deus o abençoe para sua glória e o fortalecimento de nosso corpo a seu serviço. Se, porém, um irmão fraco na fé acredita que é errado consumir carne de porco, por exemplo, então é errado. Se ele comer carne de porco, estará agindo contrariamente à consciência que Deus lhe deu.

Observe, porém, com atenção o argumento: “... nenhuma coisa é de si mesma imunda...”. Devemos entender, aqui, que Paulo está se referindo apenas a essas questões indiferentes. Muitas coisas na vida são impuras, como revistas, sites e filmes pornográficos, piadas sujas e toda espécie de imoralidade. A Graça de Deus nos justificou, abolindo o domínio do pecado e fazendo-nos livres em Cristo. Mas, não devemos confundir liberdade em Cristo com libertinagem (antinomismo). A liberdade em Cristo deve ser tratada com responsabilidade. Foi o que o apóstolo Paulo disse aos em Gálatas: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne...” (Gl 5:13). Portanto, a declaração de Paulo deve ser entendida dentro do seu contexto. Os cristãos não se contaminam cerimonialmente ao ingerir alimentos declarados impuros pela lei de Moisés.

2. A lei do amor. Veja a expressão de Paulo em Romanos 14:15: “Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu”. Aqui, Paulo está dizendo para os crentes que o amor fraternal, e não suas convicções dietéticas, deve ser o vetor de suas ações.

Quando um crente forte na fé faz uma refeição com um irmão mais fraco na fé, deve insistir em seu direito legítimo de comer carne de porco ou lagosta, mesmo sabendo que ele considera errado consumir esses alimentos? Se esse crente o fizer, não estará agindo segundo o amor, pois o amor pensa nos outros, e não em si mesmo. O amor abre mão do direito legítimo em benefício de um irmão. Um prato de comida não é tão importante quanto o bem-estar espiritual de alguém “por quem Cristo morreu”. Se, no entanto, o crente considera forte agir de forma egoísta, ele pode causar danos irreparáveis à vida do irmão considerado fraco na fé. Quando lembramos que a alma do nosso irmão foi comprada por um preço tão alto, isto é, o sangue precioso do Cordeiro de Deus, vemos que não vale a pena impor nossos direitos. Falando sobre a atitude do crente considerado forte em relação ao fraco, John Stott escreve:
“Se Cristo o amou a ponto de morrer por ele, por que não podemos amá-lo o suficiente para controlar-nos, evitando magoar a sua consciência? Se Cristo se sacrificou por seu bem-estar, que direito temos nós de prejudicá-lo? Se Cristo morreu para salvá-lo, não nos importa se vamos destruí-lo?”.

Entretanto, é bom ressaltar que, quando o crente, considerado fraco na fé, supervaloriza a dieta alimentar pensando que abster-se de certos alimentos o torna mais aceitável a Deus, comete um grande equívoco, uma vez que “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17). No reino de Deus, o que importa, de fato, não são as leis alimentares, mas as realidades espirituais. Viver um cristianismo legalista é inverter as prioridades, é colocar as coisas de ponta-cabeça, é deixar de buscar as primeiras coisas primeiro.

3. A lei da espiritualidade. Paulo conclui seu argumento mostrando o modelo de espiritualidade que deve conduzir tanto os crentes considerados fortes como os fracos na fé. Diz ele: “Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:22,23).
Aqui, Paulo distingue entre o crer e o agir, entre convicção pessoal e a conduta em público. O crente precisa ser consistente para não falar uma coisa e fazer outra, não manter uma convicção e agir na contramão dessa convicção. Hernandes Dias Lopes argumenta que se um crente fraco, prisioneiro de seus escrúpulos, come carne contra suas convicções para agradar os crentes fortes, nisso está pecando, porque essa conduta não procede de fé.

Para o irmão mais fraco, é errado comer o que sua consciência não aprova. No caso dele, o consumo desse alimento não provém da fé, sendo, portanto, contrário à sua consciência. Todo ato que viola a consciência é pecado. Como diz Paulo: “e tudo o que não é de fé é pecado”. Isto significa que tudo o que não é feito com convicção de que está de acordo com a vontade de Deus é pecaminoso, embora possa ser em si mesmo certo. Este ensino aplica-se não apenas a alimentos, mas a tudo. Se alguém estiver convencido de que algo é contrário à lei de Deus, e apesar disso a praticar, é culpado diante de Deus, embora a coisa em si seja lícita.

É bom desfrutar plenamente a liberdade cristã e viver sem escrúpulos infundados. Mas é melhor abrir mão de direitos legítimos que ter de condenar a si mesmo por escandalizar outros. Bem-aventurado é aquele que evita ser tropeço para outros (Rm 14:22).

III. UMA IGREJA ACOLHEDORA (Rm 15:1-13)

Neste tópico estudaremos o capítulo 15. Aqui, Paulo continua a discussão do capítulo 14 sobre como os crentes devem se relacionar entre si, especialmente quando existem desacordos sobre assuntos formadores de opinião. Não há dúvida de que a variedade de opiniões sobre muitos assuntos estará bem representada em qualquer igreja local, e a igreja em Roma não era uma exceção. Paulo usa os termos “forte” e “fraco” para descrever os crentes. Os crentes “fortes” são aqueles que entendiam sua liberdade em Cristo e são sensíveis às preocupações dos outros. Eles entendem que a verdadeira obediência vem do coração e da consciência de cada indivíduo. Os crentes “fracos” são aqueles cuja fé ainda não amadureceu a ponto de se livrarem de certos rituais e tradições. Os crentes “fortes” podem operar numa variedade de situações e exercer uma boa influência para o bem, enquanto os “fracos” percebem que devem se manter afastados de certas situações a fim de manterem a consciência limpa. Mas ambos ainda são crentes e ambos estão procurando servir a Deus (Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal).

1. O exemplo dos cristãos maduros (Rm 15:1,2). Cristãos maduros são aqueles que são convictos de sua fé; nada o abala; nada o tira do Caminho; é resiliente (Rm 8:35,36). São exemplos daqueles considerados fracos na fé, ou seja, daqueles que não saíram ainda dos rudimentos da fé (Hb 6:1,2).
O crente maduro deve agradar aos irmãos na fé, e não a si mesmo (Rm 15:1,2) - “Mas nós que somos fortes devemos suportar as fraquezas dos fracos e não agradar a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação”.
O cristão maduro, isto é, o cristão forte, por possuir uma fé mais substancial, deve servir de exemplo para aqueles que ainda não alcançaram esse nível de maturidade. Nunca deve ser egoísta, mas deve estar preocupado com o bem-estar da pessoa mais fraca que está ao seu lado na igreja. A atitude de agradar aos outros deve ser tomada com um objetivo em mente: encorajar e edificar o outro crente na fé.

Existe uma linha muito tênue em nosso caminho, e o mais forte não deve forçar o mais fraco a mudar de posição antes que este esteja pronto, nem deve servir de instrumento aos escrúpulos dos mais fracos permitindo que estes se tornem regulamentos da igreja. Ao invés disto, os crentes mais fortes devem ajudar os mais fracos na sua fé, e isso irá beneficiar a igreja como um todo. Como bem disse o pr. José Gonçalves, “o crente forte é responsável também pelo crescimento e amadurecimento do fraco, mostrando-lhe com amor o que significa ser livre em Cristo”.

2. O exemplo de Cristo (Rm 15:3). Paulo argumenta que se o próprio Cristo não agradou a si mesmo, então por que os crentes que se consideravam mais maduros na fé não poderiam agir da mesma forma? Cristo foi o ser “mais forte” que já viveu, mas Ele não agradou a si mesmo - “Porque também Cristo não agradou a si mesmo, mas, como está escrito: Sobre mim caíram as injúrias dos que te injuriavam”. Despojou-se de seus direitos e prerrogativas e veio para servir. Esvaziou-se e tornou-se servo. Submeteu-se à vontade do Pai e suportou toda sorte de sofrimento para salvar tanto os crentes fortes como os crentes fracos. Nenhum sacrifício que fazemos pode equiparar-se ao do Calvário. Portanto, nós que fomos chamados pelo seu nome, também devemos escolher agradar mais a Deus do que a nós mesmos.

3. O exemplo das Escrituras (Rm 15:4) – “Porque tudo que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”
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Paulo adverte que as Escrituras Sagradas é o principal instrumento aferidor da nossa espiritualidade. Ele exorta os crentes, tantos os fortes como os fracos, dizendo que o ensino das Escrituras deve ter um efeito prático em nossa vida. As Escrituras registram histórias daqueles que agradaram e dos que não agradaram a Deus. Aqueles que erraram aprenderam com seus erros. Devemos suportar, como Cristo suportou, e ser encorajados com os exemplos de outros crentes. As biografias dos santos que venceram grandes obstáculos servem de exemplo daquilo que pode ser feito com a ajuda de Deus (cf Hb cap. 11). Isso nos dá esperança enquanto esperamos pacientemente pelas promessas de Deus. O conhecimento das Escrituras afeta nossas atitudes em relação ao presente e ao futuro. Quanto mais sabemos sobre o que Deus fez no passado, maior será a nossa confiança no que Ele fará nos dias futuros. Devemos ler diligentemente as Escrituras Sagradas para aumentarmos a nossa confiança naquilo que Deus considera ser o melhor para nós. Jesus foi contundente ao dizer: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5:39).

CONCLUSÃO
Na Igreja, naquela chamada por Jesus de “a minha Igreja”, o espírito de intolerância precisa ser banido. Sabemos, pela Bíblia, que o Senhor nosso Deus, nesta dispensação da Graça, colocou à disposição de seus filhos as condições necessárias para o viver a vida cristã. Assim, podemos afirmar, com segurança, que o segredo para o crente que deseja ser tolerante é o encher-se do Espírito Santo. Ninguém será tolerante, principalmente, sem o amor, sem a humildade, sem a paz, sem a mansidão, sem a longanimidade, para citar apenas alguns aspectos do Fruto do Espírito descrito em Gl 5:22. Enfim, o objetivo maior de todo crente deve ser o crescimento do Reino de Deus e a edificação da Igreja, por isso questões indiferentes e irrelevantes em matéria de salvação devem ser toleradas na igreja local e os “fortes” devem agir em relação aos “fracos” não com menosprezo ou orgulho, mas com “calorosa recepção”, entendendo que é necessário receber o “fraco” e instruí-lo para que ele, também, cresça e se torne um “forte” no futuro.

SUBSIDIO PARA O PROFESSOR

INTRODUÇÃO
Exortação especial de aceitação mútua no conflito na igreja
Sem mais, teria sido possível inserir uma ou duas frases sobre a aceitação mútua nas exortações havidas até aqui, como em Rm 12.9-16. Mas Paulo encerrou formalmente a parácleseem Rm 13.11-14, abrindo agora separadamente um trecho detalhado sobre este tema (36 versículos!). Faz isso consistentemente na forma da interpelação direta. A razão desse bloco especial terá de ser procurada numa dificuldade premente da igreja de Roma. Em vista da boa “infra-estrutura” do primeiro cristianismo (qi2c), Paulo não desconhecia que nas igrejas domiciliares de Roma havia dois grupos em disputa, os “fortes” (expressão que ocorre só em Rm 15.1) e os “débeis/fracos” (Rm 14.1,2; 15.1, recorrente em 1Co 8,9).

O objeto do conflito em Roma.Do trecho pode-se depreender três preocupações religiosas dos “fracos”: todo consumo de carne deve ser evitado (Rm 14.2), há determinadas datas para serem observadas (Rm 14.5) e deve-se renunciar ao consumo de vinho (Rm 14.17,21). A forma sintética com que Paulo trata desses três pontos depõe a favor do fato de que era o mesmo grupo que se preocupava com isto. Nele, a predileção por dias e a renúncia ao vinho ficam visivelmente ao fundo, enquanto a questão da alimentação permanece em primeiro plano.
A Antigüidade conhecia diversas colorações de tendências religiosas que cultivavam o ideal da frugalidade e do vegetarianismo, tanto entre gentios quanto entre judeus. Os exegetas, porém, estão amplamente de acordo que nesse grupo de Roma deve-se pressupor pelo menos uma influência judaísta. Depõe a favor dessa tese que Paulo, ao contrário da passagem muito similar de 1Co 8, não está mencionando o culto gentílico a ídolos com nenhuma sílaba sequer. Em lugar disso, ele usa o posicionamento de Jesus diante da prática judaica de pureza para argumentar em Rm 14.14, fazendo o trecho todo desembocar, a partir de Rm 15.7, no tema “judeus e gentios”. Portanto, os grupos em Roma seguramente dividiam-se entre judeus e gentios.

Atualidade.Para igreja de hoje, o cardápio dificilmente será assunto para a doutrina da fé. Nossos focos de tensão estão em outras áreas. Hoje o conflito gira em torno de questões de ética sexual, do divórcio, do trato da política e cultura, da posição frente ao iluminismo moderno e suas conseqüências para a compreensão da Escritura, dos serviços da mulher, da organização do culto, das formas de vida carismática, da prática evangélica etc. Se apesar disso nos tornamos leitores cheios de expectativa dos textos de Paulo, é por causa do extraordinário esmero com que ele aborda as questões prementes de então. Esse jeito é paradigmático para todos os tempos.

Em caso de conflito, não violar o senhorio de Cristo na igreja!, 14.1-12.

Nesses primeiros doze versículos Paulo já consegue romper aspectos superficiais e circunstanciais e destacar com profundidade surpreendente aspectos fundamentais. No fundo tudo o que é essencial já está sendo dito. Sua solução é: como cada um dos oponentes se encontra no vínculo de fé com Cristo, todos são abarcados pelo seu senhorio (nove vezes “Senhor” nos doze versículos!). Não aceitar-se um ao outro significaria atacar o direito de soberania de Cristo.
A primeira linha constitui o título do bloco todo. Em interpelação direta aos que são fortes na fé, afirma-se: Acolhei ao que é débil (“fraco” [NVI, VFL, BLH, BV]) na fé. Jamais os citados teriam visto a si próprios como fracos. Contudo, Paulo sustenta essa designação. A palavra grega para “ser fraco” pode expressar falta de força dos mais variados tipos. Como no NT também é usado cerca de quarenta vezes para fisicamente doentes, é viável pensarmos aqui metaforicamente numa fé “enferma”. Uma infecção a atingiu. Por isso está debilitada, sua verdadeira essência não se pôde realizar.
No entanto, diante desses fiéis vigora o princípio: aceitar! Na verdade a igreja poderia livrar-se rapidamente de muitas tensões se ela se livrasse de determinados irmãos, mas o que Deus uniu, não cabe ao ser humano separar.
A possível tradução “admitir” poderia levar a pensar numa admissão legal na igreja. Contudo, este seria um entendimento demasiado estreito. Aqui está em jogo a concretização da comunhão como uma tarefa que nunca acaba (Rm 13.8), que não pode ser executada com um gesto único.

 Esse “acolhei!”, diferente de Rm 15.7, é complementado por uma repulsa pronunciada de modo excitado: não, porém, permitam que se chegue a discutir opiniões! Uma frase fragmentada como essa deixa os exegetas em apuros e leva a diversas paráfrases. O primeiro dos dois termos-chave pertence a um grupo semântico que perpassa todo o capítulo e que parte do conceito básico: proferir uma sentença.

Paulo solicita decididamente aos fortes: desistam de apreciações sobre aquelas opiniões adoentadas e questionáveis dos fracos, i. é, não busquem realizar negociações públicas com esse intuito! Uma parte dos tradutores (p. ex., Lutero) circunscreve a frase de advertência com: “Não briguem…!” Porém, isso não atinge a intenção da frase.

O apóstolo não está combatendo a excrescência, não apenas as cenas desagradáveis, mas já o ponto de partida. Com preocupação ele olha para a situação da igreja. Os blocos cristãos judaico e gentílico estão a ponto de se afastar um do outro (cf já em Rm 11.17-20). Está em perigo a comunhão elementar. Nessa prova de coesão, infindáveis debates objetivos seriam um equívoco.

Asperamente Paulo os repele. O irmão não deve ser aceito apenas com base numa harmonização das teologias, não só depois de aceitar um determinado bloco de valores e verdades, depois de aprovado num curso bíblico, depois que sua fé convalesceu e se fortaleceu, mas “pois Deus o aceitou” (v. 3 [BLH]) e “como também Cristo nos acolheu” (Rm 15.7). Isso, porém, aconteceu, conforme Rm 5.6, sobre o seguinte fundamento: “quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios” (NVI) (“Cristo morreu por nós” [VFL]).

Nossa condição de cristãos deve-se ao fato de que esse amor é verdadeiro, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5.5). Nessa verdade, pois, reside também a base de nossa comunhão. Nos versículos seguintes o objetivo de Paulo é que essa base, o Cristo, permaneça uma realidade eficaz e vigorosa e não se dissipe para uma retórica desbotada.

Fiel à própria exortação do v. 1b, Paulo agora não aborda as “opiniões”, mas apenas caracteriza as respectivas práticas. Um crê que de tudo pode comer, mas o débil (o fraco) come (apenas) legumes. Vindo do v. 1, não se poderá reduzir o “crer”, nessas duas ocorrências, a mero “achar”. A configuração do cardápio realmente está sendo afixada num ponto elevado. Em todo o bloco está em jogo a vivência da fé na salvação.

Começamos a perceber: o que ameaçava trazer separação às igrejas domiciliares daquele tempo em Roma não fica devendo em nada ao perigo que trazem as diferenças de opinião de hoje. Calava fundo se a comunhão de mesa era concedida ou negada. Quando alguém saía de uma mesa e se assentava numa mesa à parte com menu próprio, os que ficaram assentados na refeição anterior poderiam sentir: para que ainda somos uma igreja, se sequer podemos comer juntos!

Segue-se uma instrução apostólica de duas partes, que é retomada mais uma vez nessa forma no v. 10.
Primeiramente ao “forte”, que de boa consciência se dá o direito de comer carne: quem come (também carne) não despreze o que não come. O que está em vantagem, como os fortes de Roma evidentemente estavam, geralmente se preocupa pouco com seu adversário. Passa correndo por ele com um olhar de desdém. Contudo os v. 10,13,15,21 mostrarão essa pessoa como “irmão” precioso.

De modo diferente, o apóstolo considera aquele que não consegue admitir a liberação de consumo de carne: e o que não come (carne) não julgue o que come. Quem experimenta desprezo, precisa tanto mais da auto-estima e a encontra. No presente caso, talvez a encontre assim: como cristão sou mais sério, mais fiel à Escritura, mais consciencioso, mais obediente que eles! Condena, pois, o irmão que segundo sua opinião está entregue ao mundo. Porém essa pessoa é lembrada da palavra poderosa de Deus: Deus o acolheu!
Aquele que já se fez de juiz sobre seu irmão, subitamente se encontra diante de Deus e do seu próprio comportamento inadmissível. Quem és tu que julgas o servo alheio? O proprietário de escravos, em vista do contato pessoal, tinha um relacionamento mais próximo com o servo da casa que com os servos da lavoura. No sentido figurado: quando condenas teu irmão, estás interferindo num relacionamento especial, do qual não fazes parte. Negas o direito senhorial de Cristo e posas pessoalmente como senhor. Ousas fazer incursões que passam decididamente dos limites, porque desrespeitam o Senhor. Nesse ponto Paulo também manifesta sua confiança em favor do irmão. Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster (no acerto de contas final). Apesar de tudo que nele é questionável, ele se encontra em boas mãos, experimenta poderes reguladores e com certeza será aperfeiçoado um dia com todos os fiéis. A realidade da culpa não deixa de ser vista, mas também é visto o poder da graça.

Em seguida encontramos uma das mais belas descrições da realidade da igreja. Um faz diferença entre dia e (outro) dia; outro julga iguais todos os dias. Surge, apenas à margem, um segundo ponto de controvérsia. A frase seguinte estende sua proteção sobretudo sobre os fracos: Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Sem concordar com eles na questão (v. 14,20), Paulo concede-lhes o direito terem convicções próprias, uma vez que não se trata de verdades últimas do evangelho.
Sim, Paulo considera uma injustiça precipitá-lo em dúvidas (v. 15,20,21). Unidade no Espírito é algo diferente que igualar todas as opiniões (v. 1). Quem distingue entre dia e dia para o (em submissão ao) Senhor o faz; e quem come (carne) para o (em submissão ao) Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o (em submissão ao) Senhor não come e dagraças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si.
Porque, se vivemos, para o (em submissão ao) Senhor vivemos; se morremos, para o (em submissão ao) Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos (propriedade) do Senhor. É maravilhosamente consoladora a maneira como o apóstolo é capaz de perceber nessa igreja polarizada a relação de todos os membros com o Senhor.
Oito vezes ele destaca nesses versículos: para o Senhor! O irmão, afinal, não vive nem morre para ti nem para mim. Também o fraco na fé permanece território soberano de Jesus, o qual abrange até os seus escrúpulos. Eles constituem uma conseqüência equivocada, mas digna de consideração séria, de sua submissão ao Senhor. Afinal, por meio deles já obteve experiências espirituais. Sobre o parco prato de vegetais, em si desnecessário, eleva-se sua oração de gratidão (cf o exposto sobre Rm 1.21), e o céu a escuta.
Não devem condensar-se num chavão as oito repetições do senhorio de Jesus. É por isso que jorra, agora, em forma de uma frase de confissão da primeira igreja cristã, o conteúdo pleno do evangelho. A frase exerce um papel semelhante a um comprovante da Escritura e deve ser abordada como ápice do trecho todo. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Esse atual senhorio de Cristo foi gerado pelo morrer de Jesus por todos e pela sua coroação com vida indestrutível para todos na manhã da Páscoa. Todos os que crêem estão abrigados no seu poder salvador e protetor.

A confissão da glória oculta da igreja deve ser entendida corretamente. Paulo não está enfeitando nada, ele não justifica tudo o que se formou na igreja como uma riqueza que deve ser bem-vinda. Igualmente deve valer aqui 1Co 10.23: “nem todas (as coisas) edificam”. Por isso as opiniões dos fracos seguramente eram difíceis de escutar para ele. As “debilidades dos fracos” eram um peso e simplesmente deviam ser “suportadas” (Rm 15.1). Contudo, ele preserva uma verdade: os fracos são fracos “na fé” (v. 1,2), e o que conta é esse vínculo de fé com o Senhor. Sempre que ele existe, a comunhão essencial por princípio é possível para Paulo. Naturalmente, a fé também tem de manifestar-se como tal. Com uma filiação nominal à igreja ou com sinceridade subjetiva não se chega a nada. A fé de natureza certa leva a sinais perceptíveis na vida.

A pessoa que crê é ouvinte da palavra, ora, agradece, testemunha, obedece, exerce o amor e participa na troca geral de dar e receber.

Depois da intercalação dos v. 4-9, Paulo pode esperar por concordância, motivo pelo qual tem condições de repetir as exortações do v. 3. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Porém, fundamento motivador de nossa atitude não é somente a soberania atual de Cristo, mas também a futura: Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito (Is 49.18; 45.23): Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará (com reverência) louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. De acordo com essas afirmações, o acerto final se dará perante Deus, mas seu executor em tudo é Cristo. Para comparar, veja a interpretação de Rm 2.16. Encontraremos Deus na face do Senhor Jesus Cristo. Foi a ele que Deus entregou não somente nosso passado e presente, mas também nosso futuro.

Cabe aos fortes corresponder à sua função protetora dos fracos, 14.13-23.

Na igreja de Roma havia sido criado um tribunal invisível. Ameaçava-a uma atmosfera que tornava gélido o louvor conjunto e unânime a Deus nos termos de Rm 15.6,9,11. Por isso Paulo exigiu logo na primeira frase (Rm 14.1) que fosse suspensa toda essa maneira estranha ao ser igreja. Novamente não abre mão dessa reivindicação (v. 13a,b,15,16,20). Enquanto havia feito brilhar, para esse fim, o senhorio de Cristo, ele agora traz à presença especialmente o irmão resgatado por alto valor.

 O posicionamento sobre o conflito de fortes e fracos em Rm foi nitidamente moldado conforme 1Co 8–10 (redigido no máximo um ano antes!). Apesar de todos os aspectos paralelos, porém, os dois trechos possuem pontos de partida diferentes. Em relação aos coríntios Paulo parte da liberdade da consciência e da sua legitimidade, mas em relação aos cristãos romanos ele inicia com aspectos mais elementares, a saber na fé em Cristo como o Senhor (cf o exposto sobre o v. 2). Leitores de hoje naturalmente se ligam de imediato ao termo moderno “liberdade”. Porém, para não obstruir a percepção dos pensamentos de Paulo no trecho de Rm, eles não deveriam trazer para cá aquele termo, tornando-o idéia condutora da exegese.

De forma um tanto incisiva Paulo solicita aos fortes que dirijam seu potencial crítico a um alvo completamente diferente: Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão. Na Bíblia, os conceitos “tropeço” e “escândalo” possuem um alcance terrivelmente profundo. Paulo não está pedindo, p. ex.: não irriteis vosso irmão, não provoqueis seu desgosto!, mas conforme o v. 15: não sejais para ele motivo de perdição (“destruição [NVI])! Também Lutero ainda conferia a “irritar” o sentido original: levar alguém ao mal, à ira, deixá-lo à mercê dessa força maléfica.

Cabe nesse contexto a censura de Jesus em Mt 23.15: primeiro vocês desenvolvem máximo empenho missionário, a fim de salvar uma única pessoa, depois, porém, vocês se arrogam o direito de tratar a pessoa salva de maneira a torná-la “filho do inferno”.

Para prevenir mal-entendidos, segue-se uma inclusão: não se abre mão de nenhuma verdade bíblica! Onde estiver muito baixo o nível de verdade aferido, ou onde ela é apresentada empacotada em tanto algodão macio que não se sente mais o seu cerne, as declarações de amor se tornam ocas. Por isso, nessa carta pública Paulo esboça sua posição perante os ouvidos dos “fracos” de forma inequívoca. Ele emprega diversas vezes a introdução Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, mas nas demais vezes sem o adendo “Jesus” usado aqui. Evidentemente, ao dizer: nenhuma coisa é de si mesma impura, ele está se reportando ao sentido de uma afirmação do Senhor quando esteve na terra. Há semelhança com Mc 7.19c: “Ao dizer isto, Jesus declarou „puros‟ todos os alimentos”.

A comida faz parte das coisas naturais obtidas da mão de Deus (1Co 10.26). Consumida com ação de graças (v. 6), ela é pura. Contudo, assim está também estabelecida a exceção: salvo para aquele que assim a considera (impura) e que por isso também não agradece, para esse é de fato impura. A expressão grega traduzida aqui por “considerar” proíbe que se encare os escrúpulos dos “fracos” de forma leviana.

 É imenso o poder da tradição, da educação e do costume. Dn 1.8 e, de forma mais chocante, a história arrasadora de 2Macabeus 6.18-21 possibilitam uma percepção dessa atitude de espírito: melhor morrer que comer isso que foi proibido! De fato, Jesus havia dado a seus discípulos programa livre em relação aos alimentos. Mas entre nós seres humanos um programa ainda não significa prática sem mais nem menos. Não se exigia apenas ensinamento intelectual, também uma transformação da alma. At 10,11 evidenciam que até foram necessárias revelações adicionais “do céu” (At 10.11,16; 11.5,9). Mesmo no círculo mais íntimo dos discípulos, a fé no senhorio de Jesus se mesclou com descrença (Gl 2.13).

Sentimentos de medo impeliam de volta ao recinto protegido de antigas e poderosas tradições. Sendo, porém, o ser humano um ente integral, é possível que diante dos “fortes” lhe faltem os argumentos, que ele exteriormente até ceda, mas isso não quer dizer nem de longe que interiormente ele esteja concordando com eles.

Paulo confirma, portanto, a convicção dos “fortes”, mas não sua atitude, como mostra o trecho todo. Por isso ele volta a referir o v. 13, começando a fundamentar: Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece (“prejudicar a fé que seu irmão possui” [VFL]).

A causa desse sofrer é indicada de maneira muito genérica com “por causa de comida”. Por causa da comida dele ou da tua? Investiguemos inicialmente a primeira possibilidade. Pressionado autoritariamente pelos fortes na fé, um fraco deixou-se levar a consumir carne, mas com dúvidas. Imediatamente ele sente falta da alegre aceitação de seu Senhor no seu interior. Desfez-se Sua paz.

Foi privado da sinceridade de sua vida cristã. É flagrante que o ato lhe acarretou um grave dano espiritual. No entanto, é mais plausível supormos a segunda alternativa, visto que Paulo está falando continuamente do comer do forte (especialmente no v. 21). Ou seja, o fraco é perseverante no seu prato de legumes, mas percebe que em meio à maioria forte na fé é como um fora-da-lei (v. 3,10). É precisamente contra isso que Paulo lança a acusação: não andas segundo o amor fraternal, pois o que torna o fraco mais sensível é a falta de aceitação por parte dos irmãos. Talvez a controvérsia entre os grupos seja bastante acalorada, a ponto de as pessoas não o perceberem subjetivamente dessa forma. Mas privar do amor é objetivamente nocivo para nossa existência humana. Falta de amor na igreja entristece o Espírito Santo (Ef 4.30) e a prejudica no seu todo.

Com isso questiona-se simultaneamente a propalada força na fé por parte dos fortes. Quem pratica o que crê, na verdade deveria praticar amor (cf o exposto sobre Rm 12.9), ou ele se encontra numa gritante contradição: não faças perecer aquele a favor de quem Cristo, no qual crês, morreu! Manifesta-se a palavra de advertência de Jesus em Mt 18.6. Quem foi convocado para ser tutor do irmão (Gn 4.9) poderia tornar-se seu destruidor.

A frase seguinte não contém uma interpelação direta a membros da igreja. O estilo impessoal “não seja, pois, vituperado” (“não se torne objeto de maledicência” [NVI]) leva a pensar nas reações de pessoas de fora. Paulo teme um processo que como missionário lhe teria de causar dor. O vosso bem é, aqui como em Rm 8.28 e 10.15, a extraordinária mensagem da salvação confiada aos cristãos, acerca do “senhorio de Deus” (próximo versículo!).

 Agora, porém, o espírito de condenação perturba toda a vida da igreja, o que é percebido irremediavelmente pelo mundo ao redor. Ainda mais que o conflito interno em torno de “comida e bebida” (novamente no próximo versículo!) não deixa de parecer, para cada gentio normal, algo sem fundamento e ridículo. Repete-se Rm 2.24: “O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês” (NVI).

Paulo é enérgico com a igreja. Porque o reino (o senhorio) de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Continua em pauta o aspecto exterior da igreja.
Se seu objetivo for de fato tornar compreensível a grandiosa palavra do reino de Deus em seu redor, então que o faça pelas três citadas formas de diferenciação. Justiça: que a vida da igreja transmita uma amostra de como uma comunidade humana se entende na terra debaixo de Deus (Rm 6.19). Paz: que ela encontre e siga caminhos de paz também nas situações em que normalmente se desiste (Rm 3.17). Alegria: que ela festeje o amor de Deus que alcançou o alvo (Rm 5.8).
Tudo isso, porém, não deve acontecer por mera retórica, mas no Espírito Santo, ou seja, realmente, de coração, boca e mãos (1Co 4.20). Então, a convicção de Paulo é que a igreja não apenas colherá o louvor de Deus, mas também sempre será no mínimo respeitada pelo mundo que a cerca. Aquele que deste modo serve a Cristo (como escravo ao Senhor, cf v. 9!) é agradável a Deus e aprovado pelos homens. “Contavam com a simpatia de todo o povo”, dizia-se em Jerusalém, porque lá os cristãos solucionavam seus problemas comunitários na força do Espírito Santo (cfRm 15.13). Não causa espécie que nessa situação também não deixou de haver crescimento exterior (At 2.47; 6.7).

Resumindo, Paulo solicita mais uma vez à igreja toda para que prossiga em frente, na direção indicada, colocando-se a si próprio do lado dela. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros. O tom de encorajamento intensifica-se no capítulo seguinte (Rm 15.5,13,14,29,32,33).

Porém o apóstolo não consegue separar-se tão rapidamente de sua preocupação pela igreja. Ele repete uma palavra de advertência semelhante à do v. 15: Não destruas a obra de Deus por causa da comida! Com certeza a obra de Deus é, como em 1Co 3.9, a maravilhosa criação da igreja. Há pouco falava-se do vivo processo de edificação (v. 19). Diante dele, a questão dos alimentos aparece com uma insignificância indizível. Isso motiva Paulo a deixar mais uma vez claros os critérios. Todas as coisas (as comidas), na verdade, são limpas – é o que já vimos no v. 14. Mas é (torna-se) mau para o homem o comer com escândalo – era o que cabia explicar sobre o v. 15.

É ameaçador para uma comunhão quando pessoas somente conseguem viver nela com consciência ferida. Segue, porém, agora a contraparte positiva para o mal: É bom (enfim, o seguinte) não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar. Não, nem, nem – de forma alguma! Por mais radical que soe, tanto menos Paulo sente o peso do radicalismo. O senhorio de Cristo (v. 1-12) e a preciosidade do irmão comprado por alto preço (v. 13-23) tornam para ele essa decisão extremamente fácil.

O segundo “nem” parece ser um cheque em branco para a ditadura do fraco, um direito de veto como prerrogativa dele sempre que algo na vida da igreja não lhe convenha. Ele apenas tem de ficar sempre reclamando. Em parte pode ser devido ao discurso entusiasmado (cf também 1Co 8.13) que Paulo é levado a formular sua afirmação de forma extremada. Pois de maneira alguma ele exige que a idéia e a vontade do fraco sejam, para todos os demais, uma ordem. Na vida eclesial, pelo contrário, os seguintes dois pontos exercem uma função superior: a soberania de Cristo (Rm 14.1-12) e nossa função protetora frente ao irmão (Rm 14.13-23). O terceiro bloco (Rm 15.1-6) trará o auge que apresenta uma síntese.

O versículo subseqüente parece proteger o forte: A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. É verdade que a fé tem um lado voltado às pessoas (sobre isso, cf a explicação do v. 9, no final), mas sua essência é viver perante Deus, eximindo-se dessa forma das pessoas. De forma análoga soaram os v. 4,5c, ainda que fossem relacionados mais intensamente com a fé do outro. Esse respeito, que no fundo é respeito diante de Deus enquanto Criador da fé, pode-se tranqüilamente reclamar também para a própria fé. Por isso diz 1Co 7.23: “não vos torneis escravos de homens” Paulo pleiteia pela indisponibilidade da fé.
Para o forte na fé que tem de sofrer sob a condenação do fraco (v. 3b,10a), é acrescentada uma bem-aventurança: Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova (como bom para a prática). Para o que tem dúvidas seguirá no v. 23 uma condenação. Nele acontece a divisão entre fé e ação, sendo que cada um segue o seu caminho. Ele não pratica o que crê, e não crê o que pratica. Isso o destruirá lenta mas seguramente, ainda que pratique o que objetivamente é correto. Aquele que tem dúvidas… se comer desligado o seu vínculo pessoal com Cristo e é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé. Esse comer e beber não é prática da fé, motivo porque tampouco é feito para o Senhor (v. 6). Tudo o que não provém de fé é pecado. 
Aqui ressoa mais uma vez o sinal de alarme para o forte, que está a ponto de atrair, impelir, lançar seu irmão fraco para a “liberdade”. Afinal, estará lançando-o na separação de seu Senhor, isto é, ao pecado.

Embora dessa maneira tenha imposto o Seu princípio, sacrificou a salvação do irmão.

Viva vencendo suportando os débeis na fé!!!

Abraços.

Seu irmão menor.

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