16 junho 2016

Lição 12 - 19/06/2016 - "COSMOVISÃO MISSIONÁRIA"


Texto Áureo
"E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio"(Rm. 15:20)

VERDADE PRÁTICA
Os crentes que foram alcançados pela graça e vivem pela fé, em Jesus Cristo, precisam ter uma visão missionária amorosa e abrangente

Leitura Bíblica em Classe
 Rm. 15:20-29

Introdução

O termo cosmovisão é uma tradução da palavra alemã weltanschauung, que significa ‘modo de olhar o mundo’(welt – mundo, schauen – olhar). É a maneira como a pessoa encara, age e reage em relação aos acontecimentos. Em definição, cosmovisão é um conjunto de suposições e crenças que alguém utiliza para interpretar e formar opiniões acerca da sua humanidade, propósito de vida, deveres no mundo, responsabilidades para com a família, interpretação da verdade, questões sociais, etc.

No capítulo 15 da Epístola aos Romanos, o Apóstolo se concentrou em falar sobre seus planos missionários. No capítulo anterior (14), ele havia tratado de um problema sério que estava ocorrendo na igreja de Roma, ensinando aos cristãos daquela igreja sobre a importância do amor e da comunhão entre os irmãos. Agora, no capítulo 15, pertinentemente ele aproveita para falar sobre seus planos missionários, e convida a igreja de Roma a ajudá-lo nessa empreitada.

I- A Necessidade de Uma Cosmovisão Missionária
No capítulo 15 da Carta aos Romanos, mais precisamente no versículo 14, o Apóstolo Paulo retoma um tema introduzido por ele logo no primeiro capítulo da epístola: seu próprio ministério e seus planos para a expansão da pregação do Evangelho. Em alguns momentos no decorrer dessa carta, mesmo tratando de outros assuntos, Paulo sempre citava esse importante tema. É o que vemos, por exemplo, em dois versículos do capítulo 11:"Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério;Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles".(Rm. 11:13,14).

No versículo 16, Paulo explica como ele via a pregação do Evangelho como o único meio pelo qual os gentios seriam levados a Deus como uma oferta sacrifical de agradecimento. A palavra grega para “ministro” empregada aqui por Paulo é a mesma utilizada para se referir a Cristo na Epístola aos Hebreus ( 8:2). É importante notarmos a expressão “ministro de Cristo Jesus entre aos gentios” para que possamos entender o próximo versículo. Nele, Paulo demonstra que os motivos que tem para gloriar-se não se fundamentam em suas próprias realizações, ao contrário, por ser ministro de Jesus Cristo ele gloriava-se apenas naquilo que Cristo havia feito por intermédio dele. No versículo 18 ele continua o mesmo raciocínio e afirma que não ousaria falar de qualquer outra coisa a não ser do que Cristo havia feito por seu intermédio, que, de maneira direta, era conduzir os gentios à obediência.

Paulo também menciona a ação do poder do Espírito Santo(19) como parte fundamental dessa missão. De forma geral, ao descrever o processo a qual estava enfatizando, Paulo, entre os versículos 17 e 20, expõe o Evangelho em termos trinitarianos. Ele mencionou Deus Pai (vers. 17-18), Deus Filho (vers. 17-20) e Deus Espírito Santo (vers. 19), atribuindo honra e crédito de maneira igual entre Eles. Paulo evidencia que, muitos dos milagres que ocorreram durante a extensão de seu ministério foram resultados imediatos da pregação do Evangelho, pelo poder do Espírito Santo.

No versículo 19 Paulo faz uma retrospectiva, de forma bem resumida, de seu trabalho para o Senhor. Para um melhor entendimento do que Paulo quis dizer com “desde Jerusalém e circunvizinhanças até Ilírico”, basta lermos o livro de Atos dos Apóstolos. As viagens de Paulo haviam se estendido desde o Mediterrâneo oriental até a Macedônia, no Ocidente. Não existe uma referência complementar na Bíblia de uma visita de Paulo em Ilírico, região da Albânia e antiga Iugoslávia. Entretanto, ele pode muito bem ter estado ali, ou então, pode ter alcançado suas fronteiras numa das ocasiões em que esteve na Macedônia. Vale ressaltar também que Paulo estabeleceu vários núcleos nas grandes cidades que serviam como centros missionários, fazendo com que o Evangelho alcançasse os lugares mais longínquos, sem necessariamente ter estado pessoalmente lá. Isso não significa que ele não tenha entrado em Ilírico pessoalmente, significa apenas que tal empreitada não foi descrita no livro de Atos dos Apóstolos. Vale ressaltar que na época de Paulo, as viagens eram muito mais demoradas do que nos dias de hoje, sem muitos recursos e envolvendo muito perigo. Saber que Paulo percorreu desde Jerusalém até Ilírico pregando o Evangelho, enfatiza ainda mais a espantosa extensão da obra missionária do Apóstolo.
No versículo 21 Paulo se referiu a Isaías 52:15, para explicar a expectativa profética que o movia às distâncias cada vez maiores para alcançar os gentios.

II- A Necessidade do Planejamento Missionário (Rm 15:22-29)
Entre os versículos 23 e 29, Paulo vai tratar do seu planejamento para o futuro. Paulo afirmou seu desejo de visitar os irmãos de Roma, e menciona duas razões pelas quais tal visita seria possível. Num primeiro instante notamos que a primeira razão se dá pelo fato de que a etapa em que se encontra a missão de Paulo já havia sido completada, pois ele já não tinha mais campo de atividade. A segunda razão é simplesmente pelo seu amor para com os irmãos de Roma (Rm 1:10,11). Entretanto, o versículo 24 nos mostra que havia algo a mais. Paulo planejava visitar os cristãos romanos quando fosse à Espanha. Isso deixa claro que o principal objetivo do Apóstolo era alcançar a Espanha, harmonizando com o que ele já havia dito no versículo 20, e, só então, a visita à congregação de Roma se tornaria uma consequência, embora isso não desqualifique seu profundo desejo de visitar seus amigos cristãos em Roma.
Aqui, também surge a seguinte pergunta: Paulo chegou ir à Espanha? Biblicamente não podemos dar uma resposta definida, pois não existem relatos no livro de Atos ou em suas epístolas sobre essa viagem. Tudo o que ele falou sobre a Espanha é o que temos na Epístola aos Romanos. Entretanto, alguns textos, principalmente da época dos pais da Igreja, testemunham sobre uma viagem de Paulo à Espanha.
Embora a pregação do Evangelho fosse a tarefa principal na vida de Paulo, nos versículos seguintes (vers. 25-29) ele fala de outra missão importante que ele precisava desempenhar, no caso, socorrer os cristãos pobres de Jerusalém, levando as ofertas que as igrejas haviam levantado para os cristãos de lá. Nesses versos, Paulo mostra uma parte fundamental da obra missionária, pois ele sabe que se a alma precisa de alimento, o corpo também deve ser alimentado. Paulo também via essa tarefa não como um tipo de caridade, mas como um dever. Isto está em total acordo com o entendimento geral de textos como 1Coríntios 9:3-14 e Gálatas 6:6, onde aqueles que receberam as bênçãos espirituais devem compartilhar de suas bênçãos materiais.

III- A Necessidade Espiritual na Obra Missionária (Rm 15:30-33)
Entre os versículos 30 e 33, Paulo faz um apelo para que os irmãos estejam juntamente com ele em oração. A própria construção da frase presente no versículo 30, mostra o reconhecimento que Paulo tinha da necessidade das orações da igreja de Roma em seu favor.
Quanto ao propósito e conteúdo da oração solicitada por Paulo, podemos citar o seguinte:
-Para que ele fosse protegido da hostilidade dos judeus, algo que o acompanhou por todo o seu ministério.
-Para que os cristãos judeus em Jerusalém respondessem favoravelmente à oferta levada pelo Apóstolo e que havia sido recolhida entre os gentios.
-Para que, sendo protegido da hostilidade dos judeus e recebido de bom grado pelos cristãos de Jerusalém, o Apóstolo possa, transbordando de alegria, partir rumo a Roma, encontrar-se com seus queridos irmãos em Cristo.

Sabemos que não foi necessariamente o que aconteceu. O livro de Atos dos Apóstolos, entre os capítulos 21 e 28, descreve como foi essa viagem de Paulo a Jerusalém. Paulo rogou as orações dos santos, expôs o seu desejo, mas sabia que a vontade final seria a do Senhor.

Conclusão

Nesse texto pudemos conhecer um pouco melhor os planos missionários do Apóstolo Paulo, e como seria importante para uma igreja estruturada como a de Roma, servir-lhe de apoio para seu projeto de evangelização. Também vimos como é fundamental o planejamento missionário, e a união dos irmãos nesse propósito, a fim de que o Evangelho de Cristo alcance todas as partes do mundo.

SUBSÍDIO PARA O PROFESSOR

Inicialmente, esclarece-se que aquilo que cada pessoa é, o que defende, o que vive, é resultado da cosmovisão que permeia sua vida. Em nosso caso específico, vivemos de acordo com a Cosmovisão Cristã. Missões, proveniente do latim (missio) Transmissão consciente e planejada das Boas Novas do evangelho de Cristo além das fronteiras nacionais e culturais. 

Suzana Wesley mãe do grande pregador e fundador do metodismo John Wesley, disse “se eu tivesse vinte filhos, regozijar-me-ia em consagrar todos eles a obra missionária, ainda que fosse com a certeza de nunca voltar a vê-los”. Vimos na lição anterior que a discussão a respeito da liberdade e da responsabilidade cristã vem do capítulo 14 e vai até o 15.13. Agora, já finalizando a carta, em vários aspectos, o final é similar à sua abertura (1.8-15), contendo elogia a fé deles (1.8); defesa de seu apostolado com o evangelho para os gentios (1.13,14); afirmação do desejo de visitar os crentes em Roma (1.10,13); salienta seu desejo de que eles o ajudem a prosseguir para regiões ainda não evangelizadas (Espanha, em 1.13). Podemos ver ainda, uma pista da tensão entre crentes judeus e crentes gentios na igreja romana, mencionada ou implícita através de toda a carta, mas especialmente nos capítulos 9 a 11 e do 14.1 ao 15.13. Os planos de viagem de Paulo para esse propósito devem levá-lo a passar em Roma (vv.22-33), e o texto áureo nos informa da estratégia missionária consistente de Paulo (1Co 3.10; 2Co 10.15-16). Ele queria alcançar os pagãos que nunca tinham tido a chance de ouvir e receber o evangelho. Normalmente ele escolhia cidades grandes do Império Romano, aquelas estrategicamente localizadas. Uma igreja que fosse estabelecida ali poderia evangelizar e discipular as áreas ao redor. Ele convida assim, os romanos, a investirem na obra missionária.

O AGENTE DA MISSÃO

No versículo 19, “pelo poder dos sinais e prodígios” temos dois termos que aparecem juntos muitas vezes, no livro de Atos (14.8-10; 16.16-18, 25-26; 20.9-12; 28.89), descrevendo o poder de Deus trabalhando através do evangelho(2Co 12.12). Eles parecem ser sinônimos. Exatamente a que se referem – milagres ou conversão – é incerto. Paulo cogita assim, que conforme Deus confirmava o trabalho dos doze em Jerusalém, Ele também confirmava o trabalho de Paulo entre os gentios, através de sinais visíveis. Paulo listou as diferentes formas como o seu ministério para os gentios era eficaz:
a) pela palavra;
b) pelos atos;
c) através de sinais;
d) com maravilhas; e
e) através do poder do Espírito.

A tarefa missionária é feita por fé. Deus ordenou que o cristianismo fosse uma religião de fé. A obra missionária verdadeira e bem-sucedida, portanto, pode ser feita apenas por homens de fé, que conhecem Deus e tem aprendido a se apropriar das promessas de Deus. Disse Henrietta C. Mears: "O maior empreendimento do mundo são as missões estrangeiras, e aqui temos o início dessa grande obra. A idéia originou-se exatamente como devia: numa reunião de oração" – pelo poder do Espírito Santo.

A CONCLUSÃO DA CARTA
 
A essa altura, Paulo tinha atrás de si o retrospecto de um enorme esforço intelectual. Dificilmente seus leitores deixaram de se sentir impressionados. A partir dessa premissa, ele retoma novamente os temas do intróito da carta em Rm 1.1-17. Insiste mais uma vez em sua qualificação como apóstolo dos gentios, reitera a intenção de visitar a comunidade em Roma, assim como seu irrestrito reconhecimento por ela, e assegura-se da comunhão em oração. Contudo, Paulo associa a isso uma informação mais precisa sobre sua situação pessoal, seus planos e desejos, bem como sobre seus contatos em Roma (lista de saudações!). É um procedimento que, aliás, corresponde integralmente aos costumes da Antigüidade nos finais de cartas (cf qi 4), embora a presente conclusão de carta tenha recebido um formato extraordinariamente longo.

Explicações sobre o risco da carta aos Romanos

Já em Rm 1.14-16a Paulo viu com toda a clareza que ele arriscava algo com sua visita a Roma, mesmo que com ela saldasse irrestritamente seu “débito”. Ele tinha conhecimento das correntes judaizantes que existiam dentro, mas também fora, da igreja de Roma. A presente carta aberta já mostrava que ele estava pronto a correr o risco. Mas, no que dependesse dele, queria ter paz (Rm 12.18). Para tornar esta situação melindrosa mais objetiva, ele a trouxe à consciência usando duas vezes a palavra “ousadia”, nos v. 15,18.

Para começar, Paulo assegura mais uma vez (cf já em Rm 1.7–8.12) a seus leitores seu apreço sincero por eles. Faz isto com uma clareza e cordialidade que haveria de banir qualquer desconfiança: E certo estou, meus irmãos, sim, eu mesmo, a vosso respeito, de que estais possuídos de bondade. As expressões “eu mesmo” e “vosso respeito” estabelecem entre si um equilíbrio. A ambos os lados se concede autonomia – premissa da verdadeira comunhão.
 
O julgamento abrangente “possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros” admite que os cristãos de Roma formam um corpo capaz de agir e de conviver. É verdade que também cristãos cheios de todo conhecimento carecem, segundo Rm 12.2, de permanente renovação, não por último prestando-se mutuamente uma ajuda corretiva. Quando não se compreende isso, o “pleno conhecimento” se tornaria algo questionável. Era essa a atitude  arriscada em Laodicéia: “Dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, enem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.17).

No v. 24, Paulo não tem dificuldades de designar a obra em Roma como seu “refrigério”. Contudo, isso não o impede de aportar sua própria contribuição. Entretanto, vos escrevi em parte mais ousadamente. De maneira alguma ele se desculpa por causa de suas exortações epistolares. Tampouco alude a outras passagens de sua carta. Na introdução para esse trecho, porém, foi estabelecida uma relação com Rm 1.14-16a.

Paulo estava cônscio do perigo que se formava em todo lugar em que pleiteava em prol do evangelho, porém levou-o em conta. Seu extraordinário atrevimento em relação aos ouvintes daquele tempo, às gerações posteriores e no fundo também às pessoas de hoje condensa-se, p. ex., numa inclusão no começo de seu trecho central de Rm 3.21-26 – consistindo, no grego, de duas palavras: revelação da justiça de Deus ―sem interferência da lei‖! A quantos equívocos e abusos essa pequena frase já esteve exposta! Seria assim que Paulo, ao desancorar a santa, justa e boa lei, estava proclamando uma salvação sem salvação? Isso não constituía até uma sabotagem de toda o histórico da salvação? A carta aos Romanos representa um esforço único de solucionar essa conclusão errônea.

Portanto, a pequena expressão “em parte” acrescentada não está visando determinadas partes da carta, que, ao contrário de outras, teriam sido formuladas com ousadia especialmente forte, mas está preparando a continuação: Escrevi apenas como para vos trazer isto de novo à memória. Isso significa: se minha apresentação do evangelho causou espécie, vocês, que estão cheios de conhecimento espiritual (v. 14!), deveriam manter esta estranheza dentro de limites.

Esta carta deveria torná-los inseguros apenas em parte, somente de forma restrita, pois apenas tirei conclusões a partir de algo que há muito é conhecido de vocês. Afinal, sempre de novo Paulo deixara claro que estavam conjuntamente firmados no evangelho transmitido, fornecendo um grande número de indícios da Escritura que tinham em comum!

No entanto, de onde tirava a ousadia para se imiscuir desse modo, como pessoa de fora, também em Roma? Acontecia por força da graça que me foi outorgada por Deus. Aqui, como em muitas outras ocasiões, “graça” alude não ao seu ser cristão, mas à graça que obteve para ser apóstolo.

Portanto, Paulo repete o fato de ter recebido uma incumbência especial de descerrar o evangelho aos gentios. Verifiquemos as exposições sobre Rm 1.1,5,6,14, mas observando as ampliações feitas aqui. Para que eu seja ministro (sacerdotal) de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar (sacerdotalmente) o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles (como sacrifício) seja aceitável (para Deus), uma vez santificada pelo Espírito Santo.

Agora está sendo desenvolvida a breve menção de Rm 1.9 sobre o seu “culto a Deus no Espírito”. Sacerdote e sacrifício do AT retornam aqui de forma espiritualizada, à semelhança de Rm 12.1. Lá, no entanto, todos os cristãos prestam sacrifícios de forma ativa, enquanto aqui eles próprios, como cristãos gentílicos, são o sacrifício que Paulo celebra e pelo qual se responsabiliza. Ele considera-se encarregado de um dever de cuidado sacerdotal nesse culto de abrangência mundial. Compete ao sacerdote cuidar para que as determinações cultuais sejam observadas, porque o que se oferece precisa ser aceitável para Deus, i. é, purificado e sem defeito. Com essas palavras, evidencia-se a graça apostólica especial de Paulo (v. 15). Embora estivesse em absoluta consonância com todo o círculo dos apóstolos (1Co 1.13; 15.11) e junto com eles garantisse a transmissão do evangelho sem deturpações, assim como o Senhor pascal o transmitia (2Co 5.18), ele destacava-se num aspecto.

Na “sinfonia” dos apóstolos cabia-lhe um trecho de “solo”. É verdade que não tinha iniciado a missão aos gentios nem havia sido o único que a impulsionou, mas foi ele quem a defendeu teologicamente de forma mais clara. Era inegável que, sob esse aspecto, lhe estava confiada a “verdade do evangelho” (Gl 2.5,14). Seus pontos angulares são obediência da fé e liberdade da lei. Rm constitui o documento clássico dessa clareza de perspectiva.

No AT, pessoas e objetos eram tornados aceitáveis por meio de ritos exteriores para o culto a Deus, i. é, eram santificados. Agora, porém, algo coloca-se nesse lugar por meio do Espírito Santo, ao qual Paulo retornará no v. 19.

É inegável que Paulo agora está reagindo a perguntas relativas à sua autoconsciência apostólica: que estás fazendo de ti mesmo? (cf Jo 8.53).Tenho, pois, motivo de gloriar-me em Cristo Jesus nas coisas concernentes a Deus. Primeiramente Paulo assegura que ele de forma alguma passou dos seus limites: Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência.

O que lhe dava toda a coragem de correr o risco, mencionado no v. 15, era resultado do fato de que ele se precavia absolutamente de um segundo risco, diferente.

Esse consistiria de infidelidade diante do Exaltado, que em Damasco o havia incumbido da missão aos gentios. Desde então pesa sobre ele um ai: “Ai de mim se não pregar o evangelho” (1Co 9.16) e se o praticasse desconectado do agir do próprio evangelho! Agora, porém, em termos positivos: Paulo pode apontar para os sinais de legitimação da parte de seu Senhor. Cristo agiu através dele de modo abrangente, por palavra e por obras (“em palavra e ação” [NVI]). Ao lado da palavra poderosa colocavam-se, no caso dele, “sinais de um apóstolo” (2Co 12.12), também feitos por força de sinais e prodígios.

Ambos os efeitos de força, a palavra e a ação, penetravam pelo poder do Espírito Santo, como conquistadores no espaço dos poderes adversários (Rm 8.38). “Destruir fortalezas, anulando nós sofismas” (2Co 10.4,5), romperam estruturas dominantes, das quais os ouvintes estavam cativos, e eram eficazes “em direção da obediência dos gentios” (aqui, no v. 18, já com explicação mais detalhada sobre Rm 1.5). Em muitos lugares surgiram e mantiveram-se comunidades cristãs, como verdadeiro milagre da força da ressurreição (Rm 8.11), as quais glorificavam a Deus (v. 9-12). Paulo era capaz de designar todo o seu serviço como “serviço do Espírito” (2Co 3.6,8).

Em seguida, Paulo desenrola diante dos olhos de seus leitores o quadro de sua “campanha” (2Co 10.4): de maneira que, desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo. Também na memorável reunião de At 15 o seu procedimento de expor aos demais sua obra missionária teve um papel importante (At 15.12; Gl 2.8,9). Nela se exteriorizava um juízo de Deus: Paulo obteve a graça do apostolado! As comunidades gentílico-cristãs constituíam sua “carta de recomendação”, “selo do (seu) apostolado” (2Co 3.2,3; 1Co 9.2). Ponto de partida dessa atuação era Jerusalém. É verdade que lá jamais evangelizou, mas na mencionada reunião naquela cidade ele conquistou, para sua própria consciência e para o juízo dos co-apóstolos e da primeira cristandade, seu perfil de missionário dos gentios.

Sem aquela decisão de Jerusalém, qualquer data posterior ficaria para ele suspensa no ar (Gl 1.18; 2.2). Seguindo a rota do sol, seu caminho o conduziu do Leste para Oeste, até a costa do mar Adriático. A Ilíria correspondia aproximadamente à região da atual Albânia. De lá teria sido possível atravessar de navio 200 km pelo mar, chegando já à altura de Roma. Aqui encontramos a única comprovação de que Paulo atuou na Ilíria. Segundo 2Tm 4.10 seu colaborador Tito trabalhava na Dalmácia, que estava unificada com a Ilíria.

Paulo, portanto, praticou, nesse grande arco, o evangelho do Cristo. A expressão pressupõe o cumprimento de algo que foi ordenado, executado e concluído de acordo com a incumbência. Paulo se reportará a esse aspecto no v. 23.

De modo surpreendente Paulo dá a conhecer um princípio, que resultava menos de sua vocação que de experiências posteriores. (Nisso), porém,esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio. Em 2Co 10.12-18, onde ele assume a mesma posição, transparece também seu motivo. Ele visa distanciar-se daqueles missionários que o seguiam, missionavam atrás dele, espionavam-no e se apoderavam, ávidos de vanglória, da sua obra. Ele evitava qualquer atrito. Por razão semelhante também não fazia valer nas igrejas recém-fundadas o seu direito por sustento material: “Tudo faço por causa do evangelho” (1Co 9.23).

Indiretamente, ele novamente dá a entender aos romanos: entre vocês terei apenas um papel de visitante, mas auxiliem-me no meu trabalho pioneiro na Espanha – unicamente por amor ao evangelho!  Também para decisões individuais ele encontrava apoio bíblico. Antes, (atuo) como está escrito(Is 52.15): Hão de vê-lo aqueles que não tiveram notícia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a seu respeito (cf Rm 9.30a; 10.20).

As expectativas específicas dirigidas aos cristãos em Roma

Até o momento, Paulo havia ido ao encontro dos cristãos romanos nessa carta sobre a base da compreensão espiritual, para desse modo conquistar a adesão plena deles à sua proclamação. Na esperança de tê-lo conseguido, ele agora emite duas expectativas concretas.
 
Para tanto, volta a abordar sua intenção de finalmente visitar Roma. Em Rm 1.9-16a, ele insistira na sinceridade desse desejo, e depois disso, em Rm 15.19, também havia apontado para a razão objetiva (sua tarefa de trabalhar no Oeste). Agora ele resume: Essa foi a razão por que também, muitas vezes, me senti impedido de visitar-vos. Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões para minha incumbência apostólica (cf qi, 4b), e desejando há muito visitar-vos…

Somente nesse ponto os romanos são informados em que amplo projeto seu plano de visita está inserido: …chegarei até vós quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem (Rm 1.11), estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia, ou seja depois de me haver fortalecido. Ele dará à visita o mesmo cunho de 2Co 1.24, sem interferir autoritariamente nas competências deles.

Naquele tempo, semelhante à Palestina, seu ponto oposto no Leste, a Espanha era uma ponte terrestre muito disputada e muito viva entre a Europa e África, além de ponto de convergência de rotas marítimas muito ramificadas. Há séculos estava incorporada à cultura mundial grega, sendo berço de importantes filósofos, artistas e imperadores. Há muito vivia lá uma colônia judaica em várias comunidades com sinagogas.

Portanto, Paulo sente-se desafiado por uma nova e importante etapa da missão. Os cristãos de Roma são convidados a constituírem a nova comunidade de apoio para ela (cf qi 4c). Essa tarefa está descrita pela palavra equipar: havia todo um grupo de colaboradores que precisavam ser providos de alimentação e dinheiro. Acrescia-se a isto a disposição para responsabilizar-se conjuntamente pelo aspecto espiritual, o envio por ocasião de uma celebração a Deus, quando não se fazia necessário também um acompanhante conhecedor da língua.

No entanto, surpreendentemente o auspicioso “agora até vocês!” do v. 23 é postergado mais uma vez por outro “agora”: Mas, agora, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos, ou seja, à comunidade de lá (cf Rm 1.7). Na prática tratava-se, como logo ficará evidente, de um transporte de dinheiro. Mas por que Paulo tinha de participar tão definitivamente dele, adiando por causa dele mais uma vez sua viagem a Roma? Cabia explicar aos leitores a peculiaridade desse “serviço”. Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos (por um certo sinal de comunhão com) pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém.

Tratava-se de uma ação caritativa em prol da parte empobrecida da comunidade de Jerusalém, uma ação, porém, que ao mesmo tempo visava ser um sinal para a comunidade toda. A expressão “um certo sinal” parece indicar que Paulo não estava querendo entrar nos detalhes. Ele não menciona, p. ex., como a campanha foi desencadeada, nem sua própria atividade na campanha, nem a colaboração também das comunidades da Ásia Menor, nem a entrega por uma grande delegação, conforme At 20.4; 1Co 16.3.

Para ele, é mais importante que seus leitores reconheçam o sentido intrínseco dessa coleta de dinheiro. Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores, embora não legalmente, mas moralmente. Porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais. Paulo sustentou com persistência o mérito histórico da comunidade primitiva: Foi ela que entregou o evangelho ao mundo dos gentios. “Desde Jerusalém” (v. 19) a corrente da transmissão teve o seu início, e cumpre-nos permanecer fiéis aos iniciadores.

Acontece que Paulo insistia em que acontecesse um dar e receber recíproco, a saber, a comunhão das comunidades de origem judaica e gentílica. Por mais diferentes que fossem os respectivos bens ofertados e recebidos, cada qual dava do que tinha e recebia o que lhe faltava. Assim, todos vivem reciprocamente em dívida e “obrigados” (Josef Hainz [sugerindo o sentido de “tomados de gratidão”]). Era assim que um sinal concreto devia dar forma à verdade de Gl 3.28: “Não há judeu nem grego… pois todos são um em Cristo Jesus” (NVI).

Depois que Paulo os convenceu da necessidade de sua missão a Jerusalém, ele tem condições de referir-se ao v. 24. Tendo, pois, concluído isto e havendo-lhes consignado (selado) este fruto, passando por vós, irei à Espanha. O “selar” ocorre no NT quase sempre num sentido figurado, de maneira que também no presente texto podemos presumir essa acepção. Paulo faz questão de um encaminhamento ordeiro e inatacável, para que o sinal também rebrilhe de verdade. Como já no final do v. 24, ele logo se reanima com a perspectiva do fortalecimento na fé em Roma: E bem sei que, ao visitar-vos, irei na plenitude da bênção de Cristo. No v. 32 ele fala, no mesmo contexto e na mesma confiança, da esperada “alegria” e do “refrigério”.

No mesmo instante, porém, o apóstolo é novamente alcançado pelo presente cheio de preocupações, a partida para Jerusalém. A sua segunda intenção está ligada a essa situação: orem por mim! Nitidamente, esse pedido é mais que simples rotina em finais de cartas. Ele praticamente conjura os romanos, exorta-os por tudo que lhes é sagrado: Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor. Apesar de o conhecerem somente à distância, apesar de que, conforme Rm 3.8 e 16.17, também estão expostos à irradiação da propaganda adversa, Paulo parte do pressuposto de que esse grande escrito lhe proporcionou crédito em Roma. É esse saldo disponível que ele aciona agora. Pressiona-os a se decidirem: façam um pacto de luta comigo, dêem-me cobertura – seguramente diante de pessoas, mas até perante a instância máxima, perante Deus! Talvez seja estranha para nós essa luta com Deus em oração, porém ela é inerente à profundidade bíblica da oração.

Ao recordar Jerusalém, revolvem-no os mais graves temores. Paulo vê um duplo perigo. Primeiro: orem por mim, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, ou seja, dos judeus fora da comunidade, que não seguem ao evangelho. Ainda outro perigo era quase incompreensível e, não obstante, real: orem por mim, que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos. O “sinal de comunhão” (v. 26) e, por meio dele, também um renovado reconhecimento de sua missão, livre da lei, entre os gentios, poderia ser negado pela comunidade primitiva, dependendo dos círculos que nela tivessem maior influência, se Tiago ou os judaístas.

Nesse caso não resultaria a “concórdia de louvar a Deus unânimes e a uma só voz” (v. 5,6). Palavras de banimento obstruiriam as orações de gratidão – para o desespero de Paulo.

Assim como acontece nos salmos, também na oração de Paulo mesclam-se partes receosas com partes esperançosas. No presente versículo impõe-se a confiança: a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco.

A referência à vontade de Deus mostra a atitude básica de orar conforme a Bíblia: O orador permanece sendo ser humano, e Deus continua Deus. É por isso que Paulo também subordina a Deus suas idéias há pouco expostas acerca do desenrolar da sua missão. De fato, tudo transcorreu de maneira bem diferente. O alegre “Estou chegando!”, repetido sete vezes em Rm, caiu no vazio.

Em Jerusalém, Paulo foi imediatamente preso, desaparecendo por anos na cadeia (por volta dos anos 58-60, sobretudo em Cesaréia). Apenas na primavera do ano 61, com cinco anos de atraso, Paulo chegou a Roma – num comboio de prisioneiros. Somente depois de outros dois anos de prisão ele é solto. Pelo menos é isso que At 28.30,31 parece pressupor. O NT não nos informa se a missão à Espanha sequer aconteceu mais tarde, enquanto notícias posteriores a esse respeito são controvertidas.

A carta ainda não termina com o voto seguinte, formulado como prece (cf Fp 4.9; 1Ts 2.11-13), mas de fato encerra-se o esforço do apóstolo de conquistar os romanos para seu objetivo prático principal. E o Deus da paz seja com todos vós. Amém! Depois de ter dado tudo de si, tão somente pode entregar na mão de Deus a decisão deles. No v. 5 ele o havia testemunhado como “Deus da paciência” e no v. 13 como o “Deus da esperança”. Agora ele encontra uma terceira designação: o  Deus da paz. Pelo que se evidencia, esse voto de acompanhamento divino estava localizado na prática celebrativa do envio, quando os fiéis reunidos dispersavam-se novamente, já é encontrado com freqüência no final das cartas. Cada indivíduo segue agora seu caminho, no aconchego da presença da salvação de Deus, que o acompanha e que se chama paz.

Viva vencendo com a pregação viva do Evangelho de Jesus!!!

Abraços.

Seu irmão menor.

 

 


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