06 junho 2016

SILAS DANIEL - EM DEFESA DO ARMINIANISMO - INTRODUÇÃO

Uma análise sobre a recente ascensão do Calvinismo no Brasil e uma exposição do que ensina, de fato, o Arminianismo




Do século 16 ao 18, a principal corrente no meio protestante mundial era o que se convencionou chamar de Calvinismo. Foi somente a partir do século 19 em diante que o Arminianismo, surgido no início do século 17, passou a prevalecer como a principal corrente no meio protestante. Entretanto, tal predomínio tem sofrido certos retrocessos nos últimos anos, por pelo menos três razões.

Em primeiro lugar, há muitos evangélicos arminianos que sequer conhecem de fato o Arminianismo. A maior demonstração disso está em grande parte das pregações que ouvimos hoje em dia. Qualquer análise sobre o conteúdo da teologia popular evangélica brasileira revelará, com enorme clareza, que muito do que se tem esposado hoje em dia e recebe o nome de Arminianismo se trata, na verdade, de uma distorção do verdadeiro Arminianismo. O que se ouve em muitos púlpitos é mais Semipelagianismo – e, em casos mais graves, até Pelagianismo – do que realmente Arminianismo.

Em segundo lugar, tivemos, nas últimas décadas, muitos livros e artigos opondo-se ao Calvinismo na imprensa evangélica brasileira. Só que muitos deles pecaram por confundir Calvinismo de forma geral com Calvinismo fatalista, tornando seus argumentos facilmente rebatíveis por qualquer calvinista bem treinado. Além disso, a quase totalidade desses textos dedicava-se muito mais a falar contra o Calvinismo do que a explicar o que é realmente o Arminianismo.

Em terceiro lugar, a rejeição cada vez maior no meio evangélico à onda triunfalista do neopentecostalismo, o que é em si uma atitude muitíssimo boa, contribuiu involuntariamente para a ascensão do Calvinismo. Muitos crentes, de “ressaca” com tantos hinos e mensagens centrados no homem, passaram a buscar literaturas e mensagens que exaltassem mais a soberania divina e, infelizmente, acabaram encontrando-as com mais frequência em sites de conteúdo calvinista.

Ou seja, em linhas gerais, uma má compreensão do que é o Arminianismo somada a uma aversão sadia de muitos evangélicos ao triunfalismo neopentecostal têm feito com que muitos se voltem para o Calvinismo. E isso está acontecendo até mesmo nas Assembleias de Deus, a maior denominação evangélica do país.

Arminius: uma vida marcada pela providência divina

Jakob Hermanszoon nasceu em 10 de outubro de 1559 na cidade de Oudewater, na província de Utrecht, na Holanda, filho do casal Hermand Jacobszoon, um ferreiro especialista em fazer armaduras, e sua esposa Engeltje, ambos protestantes. Seu pai morreu de forma trágica no mesmo ano em que Jakob nasceu, deixando sua mãe viúva e com filhos pequenos. Condoído da situação do pequeno Jakob, um padre simpático ao protestantismo, chamado Teodoro Emílio, sustentou a criança e seus estudos. Porém, quando o garoto já estava com 15 anos, seu benfeitor morreu. Deus, contudo, logo colocou outra pessoa na sua vida: um homem chamado Rodolfo Sneillus, que, ao saber da história de Jakob, resolveu adotá-lo e levá-lo para Marburg. Foi assim que, aos 16 anos, Jakob ingressou na Universidade de Leiden.

Tudo ia bem, até que, no mesmo ano em que Jakob ingressava na universidade, outra tragédia aconteceu. Em 1575, a sua cidade natal – que quando Jakob nascera estava sob o domínio espanhol, mas havia se libertado desse domínio e se tornado protestante – voltaria a ser atacada pelos espanhóis. A invasão espanhola foi sangrenta, passando para a posteridade como “Massacre de Oudewater”, no qual a mãe de Jakob, seus irmãos e demais parentes foram mortos. Só Jakob sobraria de toda a sua família.

Em Leiden, o jovem protestante adotou a forma latinizada de seu nome: em vez de Jakob Hermanszoon, passou a se chamar Jacobus Arminius. Ele concluiu seus estudos em Leiden em 1582, mesmo ano em que foi a Genebra para estudar com ninguém menos do que Teodoro Beza, amigo e sucessor do já falecido João Calvino. Ali, porém, não permaneceu muito tempo, devido a controvérsias decorrentes do seu uso de técnicas ramistas, que aprendera em Leiden. Essas técnicas foram criadas pelo professor calvinista francês Pierre de la Ramée (1515-1572) e eram ensinadas em algumas universidades protestantes. Ademais, Arminius não concordava com o supralapsarianismo de Beza, sobre o qual falaremos mais adiante.

De Genebra, Arminius seguiu para Basileia e de lá para Amsterdã, onde recebeu o convite para pastorear, sendo ordenado ao pastorado em 1588. Ganhou a fama de bom pastor e ensinador. Em 1590, casou-se com a jovem Lijsbet Reael. Em 1603, após 15 anos de profícuo ministério, Arminius encerra suas atividades como pastor para aceitar o cargo de professor na Universidade de Leiden. Foi em Leiden que começaram os primeiros e históricos embates teológicos da vida de Arminius, e o principal responsável pelos ataques desferidos contra ele foi o teólogo e professor calvinista radical Franciscus Gomarus (1563-1641).

O supralapsariano Gomarus e o reformador Arminius

A divergência entre Gomarus e Arminius se devia essencialmente à questão dos Decretos de Deus. E para entendermos bem esse ponto, é preciso antes explicar o que são Infralapsarianismo e Supralapsarianismo.

Calvinismo Infralapsariano é aquele que afirma que os decretos divinos de eleição e condenação ocorreram após o Decreto da Queda. Já o Supralapsariano assevera que os decretos divinos de eleição e condenação foram determinados por Deus antes mesmo do Decreto da Queda – isto é, primeiro Deus planejou que alguns se salvariam e outros se perderiam para depois determinar do que eles seriam salvos (sic). Pois bem, Gomarus era adepto desse Calvinismo radical supralapsariano, e Arminius era absolutamente contra o Supralapsarianismo. A divergência começou exatamente aí. Entretanto, o debate se intensificaria mais ainda quando Arminius acrescentou que a Confissão Belga (1562) e o Catecismo de Heidelberg (1563), ambos documentos calvinistas, precisavam de reformas. Gomarus cobrou de Arminius que explicasse que tipo de reforma seria essa, mas este, em um primeiro momento, para evitar maiores confrontos, se negou a dizer o que tinha em mente.

Após vários debates públicos entre Gomarus e Arminius, e entre aquele e alguns alunos de Arminius, a controvérsia ultrapassou a instituição onde lecionavam e chegou a outras universidades, até que Gomarus e Arminius foram chamados a comparecer à Suprema Corte em Haia para apresentarem seus argumentos, que dividiam os acadêmicos protestantes no país. Ao final da exposição de cada um, a Suprema Corte, formada por oito magistrados, declarou que as diferenças no que concernia à Doutrina da Predestinação, eram pequenas, e por isso ambos deveriam aprender a conviver com essas diferenças. Arminius acatou a resolução, mas Gomarus partiu novamente para o ataque.

Diante dos sucessivos ataques de Gomarus, Arminius pediu então para que se formasse um assembleia para ouvi-lo, assembleia esta que foi convocada para 30 de outubro de 1608. Nela, Arminius finalmente declarou que alterações tinha em mente ao falar que a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg precisavam de reformas. Ele se disse contrário tanto ao Supralapsarianismo quanto ao Infralapsarianismo, pois acreditava que ambos, no fundo, carregavam o mesmo erro, e expôs sua crença na predestinação a partir da presciência divina, apoiando-se em textos bíblicos.

Gomarus, por sua vez, teve sua permissão para falar à assembleia em 12 de dezembro de 1608, ocasião em que preferiu atacar Arminius de forma bastante agressiva. Além disso, ele não tentou rebater os argumentos de Arminius biblicamente, se contentando apenas em enfatizar que seu colega estava indo contra os estimados Catecismo de Heidelberg e Confissão Belga, ao que Arminius responderia dizendo que nem mesmo esses dois importantes textos estavam acima da Bíblia e, como produções meramente humanas, estavam sujeitas a revisões e aperfeiçoamentos. O tom agressivo do discurso de Gomarus mais sua aridez em termos de argumentos bíblicos contrastaram fortemente com o tom conciliador e recheado de biblicismo de seu oponente, o que fez com que mesmo alguns discordantes de Arminius lhe dessem razão.

Os dois discutiriam em outra assembleia nos dias 13 e 14 de agosto de 1609, porém, quando já estava marcado outro debate para 19 de agosto, a saúde de Arminius se debilitou e ele voltou a Leiden, onde faleceria em 19 de outubro de 1609, vítima de tuberculose. Em seu enterro, foi honrado por seus alunos. O conflito, entretanto, seguiria após sua morte, simplesmente porque o “Efeito Arminius” rachara ao meio o Calvinismo na Holanda.

Continuaremos amanhã...

Abraços.

Viva vencendo com o conhecimento da Palavra, sem paixões!!!

Seu irmão menor.

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