07 junho 2016

SILAS DANIEL - EM DEFESA DO ARMINIANISMO - PARTE 1


Os remonstrantes e a verdade sobre o Sínodo de Dort

Após a morte de Arminius, os ataques a seus ensinos continuaram, tendo como alvo agora os seus seguidores. Logo, com o objetivo de se defenderem desses ataques, 46 pastores e teólogos arminianos resolveram assinar um documento em que expunham e explicavam seu pensamento. Esses arminianos receberam o nome de “Remonstrantes”, expressão derivada do vocábulo holandês “remonstrantse”, que significa “reclamante” ou “protestante”.

O documento em defesa do Arminianismo continha cinco pontos e foi elaborado em janeiro de 1610. A repercussão do seu conteúdo foi, em um primeiro momento, muito positiva diante das autoridades holandesas, para indignação dos antiarminianos. O governo holandês entendera que as diferenças doutrinárias entre calvinistas e arminianos não eram irreconciliáveis ou intoleráveis. Mas, pouco tempo depois, essa visão mudaria devido à mudança do contexto político nas terras baixas.

Em primeiro lugar, o principal desafeto do príncipe Maurício de Nassau (1567-1625), seu ex-amigo e braço direito Johan van Oldenbarnevelt (1547-1619), advogado-geral da Holanda, havia aderido ao Arminianismo. Oldenbarnevelt era apoiado pela maioria das províncias marítimas holandesas, onde se concentrava a burguesia do país, que havia aderido majoritariamente ao Arminianismo. Essa maioria apoiava Oldenbarnevelt “em sua oposição ao poder crescente de Maurício de Nassau” (GONZÁLES, Justo L., Uma História do Pensamento Cristão – Da Reforma Protestante ao Século 20, vol. 1, 2004, São Paulo, Cultura Cristã, p. 286). Já as demais províncias marítimas e as rurais eram fiéis a Nassau e apoiavam majoritariamente o Calvinismo.

Em segundo lugar, a Holanda estava, já havia algum tempo, em guerra com a Espanha, e os calvinistas convenceram Nassau que uma das formas de garantir que os católicos espanhóis não encontrariam guarida em solo holandês seria fortalecendo o Calvinismo, pois o Arminianismo supostamente daria brechas para a “doutrina dos jesuítas” (missionários da contrarreforma católica). Não por acaso, o principal xingamento calvinista aos arminianos na Holanda era designá-los como “jesuítas”.

Por essas razões, Nassau convocou o Sínodo Nacional de Dordrecht (“Dort”, em inglês), mais conhecido como Sínodo de Dort (1618-1619), para condenar o Arminianismo. Sim, para condenar, porque o Sínodo já nasceu com esse propósito. Seu objetivo não era analisar honestamente a questão, mas elaborar um texto de condenação.

O referido sínodo reuniu calvinistas da Holanda e de oito países da Europa, que condenaram os cinco pontos dos remonstrantes, fazendo surgir, em resposta a estes, os cinco pontos calvinistas, os quais, formando posteriormente um acróstico, receberiam o nome de Tulip (“tulipa”, em inglês): Total Depravity (“Depravação Total”), Unconditional Election (“Eleição Incondicional”), Limited Atonement (“Expiação Limitada”), Irresistible Grace (“Graça Irresistível”) e Perseverance of the Saints (“Perseverança dos Santos”). Esses 5 pontos são chamados oficialmente de “Cânone de Dort”. O detalhe é que algumas dessas condenações distorcem o posicionamento dos remonstrantes, que, por exemplo, nunca negaram a Depravação Total. Isso aconteceu porque os remonstrantes sequer tiveram a oportunidade de ser realmente ouvidos no sínodo.

Para dar uma aparência de justiça, o sínodo contou com alguns depoimentos de remonstrantes, mas sob as seguintes regras: em primeiro lugar, os remonstrantes não poderiam participar das reuniões e de seus debates – eles ficavam em uma outra sala, esperando serem chamados pelo presidente do sínodo para falar apenas o que fosse pedido –; em segundo lugar, depois de darem um depoimento, voltavam imediatamente à tal sala, sem terem direito à tréplica; em terceiro lugar, os remonstrantes não escolheram seus representantes – o sínodo é que os escolheu –; em quarto lugar, os remonstrantes só poderiam responder em latim; e, finalmente, em quinto lugar, todos os teólogos arminianos tiveram seu direito de voto impedido.

Como se não bastasse, o presidente sinodal era John Bogerman (1576-1637), um calvinista que chegara ao encontro com fama de defender a pena de morte aos “hereges arminianos”. Aliás, alguns calvinistas que estavam no sínodo defendiam o mesmo, embora não fossem maioria, enquanto todos os remonstrantes pediam “a tolerância e a indulgência em relação às diferenças de opinião sobre assuntos religiosos” (CUNNINGHAM, William, Historical Theology, vol. 2, p. 381). Bogerman também fora aquele que, juntamente com Gomarus, em um dos debates deste com Arminius, afirmou: “As Escrituras devem ser interpretadas de acordo com o Catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga”. Ao que Arminius respondera: “Como alguém poderia afirmar mais claramente que eles estavam decididos a canonizar estes dois documentos humanos e instituí-los como os dois bezerros idolátricos em Dã e Berseba?” (HARRISON, A. W., The Beginnings of Arminianism to the Synod of Dort, Imprensa da Universidade de Londres, 1926, Londres, pp. 87 e 88).

O resultado do Sínodo de Dort foram cerca de 200 pastores destituídos de suas funções e exilados, e Oldenbarnevelt condenado à decapitação como traidor do país. Uma verdadeira vergonha, da qual se arrependeriam depois os pastores e teólogos Daniel Tilenus (1563-1633), Thomas Goad (1576-1638) e John Hales (1584-1656), que participaram do Sínodo de Dort, mas depois se tornaram arminianos. Somente após a morte de Maurício de Nassau, quando o príncipe Frederico Henrique de Nassau (1584-1647) assumiu seu lugar, os arminianos foram autorizados a retornar à Holanda. Um deles, Simon Episcopius (1583-1643), aluno de Arminius, substituiria Gomarus na cadeira de professor de Teologia na Universidade de Leiden. Infelizmente, após a condenação sofrida, os seguidores originais de Arminius na Holanda acabaram, com o passar do tempo, se afastando progressivamente do pensamento original do seu mentor e dos primeiros remonstrantes. Arminius, por exemplo, nunca negou a Depravação Total ou a Doutrina do Pecado Original, nem os primeiros remonstrantes, porém alguns de seus futuros seguidores, como Philipp van Limborch (1633-1712), acabariam negando ambos. Hugo Grotius (1583-1645), seguidor de Arminius, defenderia mais à frente a Teoria Governamental no lugar da Doutrina da Substituição Penal de Cristo, adotada tanto pelo Arminianismo Clássico como pelos calvinistas. A TG considera que o sacrifício de Cristo apenas mostrou ao mundo que as leis divinas foram quebradas e sua penalidade paga, e não que Cristo realmente pagou a penalidade pelos pecados dos indivíduos. Ou seja, no final das contas, os remonstrantes de hoje, na Holanda, não têm nada a ver com o Arminianismo Clássico. Eles são, inclusive, liberais em teologia. Porém, infelizmente, muitos calvinistas cometem a desonestidade de atacar os arminianos acusando-os de desvios doutrinários que, na verdade, foram cometidos por gerações seguintes dos remonstrantes. Apesar desses desvios das gerações subsequentes, o Arminianismo original permaneceu vivo e logo se espalhou pela Europa, mas sempre sendo minoritário. Até que, no século 18, o movimento metodista provocaria uma reviravolta, tornando o Arminianismo a principal corrente protestante do mundo nos séculos seguintes. Mas, antes de vermos como se deu essa extraordinária reviravolta, vejamos o que ensina, de fato, o Arminianismo.

O que ensina, de fato, o Arminianismo Clássico

Em linhas gerais, o que ensinava Arminius? O que é o Arminianismo?

Em primeiro lugar, o Arminianismo ensina, à luz da Bíblia, que Deus determinou salvar algumas pessoas e condenar as demais a partir de Seu pré-conhecimento sobre a fé ou a incredulidade futuras dessas pessoas. Ou seja, a eleição ou a condenação divinas não são decisões arbitrárias de Deus, mas decisões tomadas por Deus desde a eternidade com base em Sua presciência em relação às escolhas futuras das pessoas. Escreveu Arminius: “Deus determinou salvar e condenar certas pessoas em particular. Este decreto tem seu fundamento no pré-conhecimento de Deus, pelo qual Ele conheceu desde toda a eternidade aqueles indivíduos que, por meio da Sua graça preventiva, creriam; e por meio de sua graça subsequente, perseverariam; [...] e por esse mesmo pré-conhecimento, Ele semelhantemente conheceu aqueles que não creriam e não perseverariam” (GONZÁLES, Ibid., p. 285).

Paulo afirma: “...os que dantes conheceu, também os predestinou...” (Rm 8.29,30). E Pedro assevera que somos “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). Portanto, os calvinistas erram ao vincular a presciência divina à causalidade. Para ser mais preciso: eles erram ao afirmar que Deus conhece previamente todas as coisas porque predestinou todas as coisas. Ora, o texto bíblico é claro: a presciência vem antes da predestinação e da eleição. Estas decorrem daquela, e não o contrário. Deus conhece previamente tudo porque é onisciente, e não porque predeterminou tudo. Deus não precisa predeterminar tudo para saber de tudo. Sim, Ele predetermina muitas coisas, mas não tudo.

Além desses textos bíblicos que colocam claramente a presciência antes da predestinação e da eleição, há muitos textos bíblicos que falam da onisciência divina de forma geral sem sugerir que ela decorre de uma predeterminação de todas as coisas. Salmos 139.2-4 é um deles. Além disso, a maior prova de que a onisciência divina não é fruto de predeterminação é que a Bíblia diz que Deus conhece até mesmo o futuro contingente condicional. O futuro contingente condicional não é aquilo que acontecerá, mas aquilo que aconteceria se as circunstâncias e as decisões fossem outras. Ou seja, Deus não sabe só o que vai acontecer, mas também “o que aconteceria se”. O exemplo clássico desse tipo de conhecimento divino é o da oração de Davi acerca do povo de Queila (1Sm 23.1-13). Davi perguntou a Deus se era verdade o que tinha ouvido de que Saul estava descendo à cidade de Queila para pegá-lo, e Deus respondeu que sim, num caso clássico de conhecimento do futuro causal. Porém, na sequência, Davi perguntou também se o povo de Queila, mesmo depois de tudo que Davi fizera por eles contra os filisteus, mesmo depois de recebê-lo tão bem com os seus homens, o trairiam mais à frente, entregando-o a Saul na primeira oportunidade; e Deus respondeu que sim, que entregariam, e Davi então saiu dali, de maneira que o povo de Queila nunca traiu a Davi.

Esse é um caso de conhecimento de um futuro contingente condicional. Eles não fizeram, mas Deus sabia que “eles fariam se”. Ora, se há um futuro contingente condicional, e Deus o conhece, isso significa que Ele não precisa predeterminar todas as coisas para saber todas as coisas. Ademais, leiamos mais uma vez as palavras de Paulo e Pedro: “...os que dantes conheceu, também os predestinou...” (Rm 8.29,30); e “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). Ou seja, a presciência vem primeiro. A predestinação e a eleição se deram com base na presciência divina. Logo, você não é salvo porque foi eleito; você é eleito porque foi salvo em Cristo.

Perceba que a Bíblia sempre fala de predestinação à vida eterna “em Cristo”. A Epístola de Paulo aos Efésios, que é a que mais fala em predestinação, mostra exatamente isso. Aliás, os termos “em Cristo Jesus”, “no Senhor” e “nEle” ocorrem 160 vezes nos escritos de Paulo, sendo que 36 vezes só em Efésios, onde está o recorde. Ou seja, se queremos entender bem Efésios, devemos começar a atentar para a palavra-chave dessa epístola: “em Cristo”. Ora, mais de uma vez é dito em Efésios 1 que a predestinação ocorre “em Cristo”. Ou seja, a predestinação e a eleição não são para estar em Cristo. Elas são para os que estão em Cristo.

Para aqueles que estão “em Cristo” estão destinadas desde a fundação do mundo todas aquelas bênçãos listadas em Efésios 1, 2 e 3; e a quem não estiver em Cristo, está destinada desde a fundação do mundo a perdição. Se você estiver nEle, Seu destino é o Céu; se não estiver nEle, o Inferno. O critério é estar nEle. Como afirma Paulo, Deus nos elegeu “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle” (Ef 1.4), mas Cristo só vai “vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do Evangelho” (Cl 1.22,23). Está claro: a eleição é condicional. E qual a condição? Estar em Cristo: “...nos elegeu nEle...” (Ef 1.4). A Eleição, portanto, é um decreto divino anterior à salvação e fruto da graça, soberania e misericórdia divinas manifestadas em Cristo, o qual é a condição da nossa eleição.

Em segundo lugar, o Arminianismo ensina, à luz da Bíblia, a Doutrina da Depravação Total do ser humano, isto é, que o ser humano é tão depravado espiritualmente que precisa da graça de Deus tanto para ter fé como para praticar boas obras. Escreve Arminius: “Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da graça divina” (ARMINIUS, Jakob, A Declaration of Sentiments, Works, vol. 1, p. 664, traduzido em Revista Enfoque Teológico, vol. 1, no 1, 2014, FEICS, p. 105).

Ou seja, o homem não regenerado é escravo do pecado e incapaz de servir a Deus com suas próprias forças (Rm 3.10-12; Ef 2.1-10). O Arminianismo nunca ensinou que, por ainda ter em si resquícios da imagem de Deus, o homem tem a capacidade de, mesmo no estado caído, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. Não, a iniciativa é sempre de Deus, já que o homem, em seu estado caído, não pode e não quer tomar iniciativa. À luz da Bíblia, o Arminianismo sempre defendeu que é através da graça preveniente que a depravação total, que resulta do pecado original, pode ser suplantada, de maneira que o ser humano poderá, então, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrair a si. O livre-arbítrio é decorrente da ação da graça preveniente. Vem de Deus a capacidade de arrepender-se e ter fé para ser salvo. Em terceiro lugar, à luz da Bíblia, o Arminianismo ensina que a graça divina pode ser resistida. Como afirma Arminius: “Creio, segundo as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida” (ARMINIUS, Ibid., p. 664 in Revista Enfoque Teológico, Ibid., p. 108). São inúmeros os textos bíblicos que deixam clara a possibilidade de resistir à graça divina (Gn 4.6,7; Dt 30.19; Js 24.15; 1Rs 18.21; Is 1.19,20; Sl 119.30; Mt 23.37; Lc 7.30; At 7.51; 10.43; Jo 1.12; 6.51; 2Co 6.1; Hb 12.5).

É equivocado pensar que Deus não é absolutamente soberano se concede ao homem, através de Sua graça preveniente, o livre-arbítrio, isto é, uma vontade livre para escolher ou não a Salvação. Ora, um deus que no fundo manipula as decisões dos seres humanos ao invés de, pela Sua graça, conceder-lhes a capacidade de livremente ter fé e se arrepender para convidá-los a Cristo, não pode ser plenamente justo. É verdade que ninguém merece a Salvação, mas se Deus resolver salvar uns e condenar outros sem conceder uma possibilidade real de escolha para Suas criaturas, estará manchando Sua justiça. O atributo divino da soberania deve estar em perfeita harmonia com o Seu caráter, que é santo e justo (Is 6.3). Os calvinistas gostam de citar, em favor de sua crença em uma graça irresistível, João 6.44, onde Jesus afirma: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. Só que o termo traduzido aqui como “trouxer” é, no grego, elkõ, que, segundo o tradicional léxico de Strong, tem mais o sentido de “atrair”, “induzir alguém a vir”. Ou seja, Deus atrai; Ele não força. Ele não violenta a liberdade humana concedida pela Sua graça e soberania. Jesus disse que os que vêm a Ele não são forçados, mas atraídos a Ele (Jo 12.32).

Em quarto lugar, o Arminianismo entende e sustenta, à luz da Bíblia, que Cristo morreu por todos (Jo 3.16 e 6.51; 2Co 5.14; Hb 2.9; 1Jo 2.2), mas Sua obra salvífica só é levada a efeito naqueles que se arrependem e crêem (Mc 16.15,16; Jo 1.12). Trocando em miúdos: a Expiação de Cristo é suficiente, mas só se torna eficiente na vida daqueles que sinceramente se arrependem de seus pecados e aceitam Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador de suas vidas. Trata-se, portanto, de uma Expiação Universal Qualificada, e não de uma Expiação Limitada.

Conquanto existam passagens bíblicas que afirmam que Cristo morreu pelas ovelhas (Jo 10.11,15), pela Igreja (At 20.28 e Ef 5.25) ou por “muitos” (Mc 10.45), a Bíblia também afirma claramente em muitas outras passagens que a Expiação é universal em seu alcance (Jo 1.29; Hb 2.9 e 1Jo 4.14), o que deixa claro que as passagens que dão uma ideia de ela ter sido limitada nada mais são do que referências à eficácia da Expiação. Ou seja, a Expiação de Cristo foi realizada em prol de toda a humanidade, mas só os que a aceitam usufruem de sua eficácia.

Os que crêem em Cristo são obviamente associados à obra expiadora (Jo 17.9; Gl 1.4; 3.13; 2Tm 1.9; Tt 2.3; 1Pe 2.24), mas a Expiação é universal (1Jo 2.2). E a eficácia não está na salvação de todos, mas na consecução da Salvação. O fato de a Expiação só ter sido aceita e aplicada em muitos e não em todos não significa que sua eficácia é comprometida. O fato de muitos usufruírem dela já demonstra sua eficácia. Ela só não seria eficaz se ninguém se salvasse por ela. Se alguém foi salvo por ela, esta foi eficiente. Não houve “desperdício” pelo fato de seu alcance ser universal, mas nem todos serem salvos. Além disso, se crermos que a Expiação de Cristo é limitada, o que seria um sacrifício que proporcionasse uma Expiação Ilimitada? Jesus sofreria um pouco mais na cruz? Há casos de arminianos que crêem em uma Expiação Limitada com base na presciência divina, o que apresenta certa coerência, porém o Arminianismo Clássico nunca defendeu a Expiação Limitada justamente porque não só há passagens bíblicas claras sobre o alcance universal da Expiação como também uma Expiação Limitada é uma contradição ao ensino bíblico de que Deus não faz acepção de pessoas (Dt 10.17 e At 10.34). Deus é soberano, mas isso não significa dizer que Ele fará alguma coisa que contradiga Seu caráter santo e amoroso. Lembremos que uma hermenêutica prudente interpreta uma passagem ou passagens observando o contexto geral sobre o assunto na Bíblia. A Bíblia se explica por meio dela mesma. Portanto, se ela afirma que Deus é santo, justo e amor, e não faz acepção de pessoas; e que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Tm 2.3,4); e que a Expiação foi por “todos” (1Tm 2.6; Hb 2.9); logo as passagens em que há alusão a “muitos” devem ser interpretadas à luz dessas outras. O resultado é que as passagens que aludem a “muitos” não se referem ao alcance da Expiação, que é universal, mas à eficácia dela para os “muitos” que a receberam por fé.

Não se pode simplesmente desconsiderar o significado óbvio dos textos sem ir além da credibilidade exegética. Quando a Bíblia diz que “Deus amou o mundo” (Jo 3.16) ou que Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29) ou que Ele é “o Salvador do mundo” (1Jo 4.14), significa isso mesmo. Em nenhum texto o vocábulo “mundo” se refere à Igreja ou aos eleitos. Escreve o apóstolo João: “E Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.2). Ou como disse o teólogo H. C. Thiessen: “Concluímos que a Expiação é ilimitada no sentido de estar à disposição de todos, e é limitada no sentido de ser eficaz somente para aqueles que crêem. Está à disposição de todos, mas é eficiente apenas para os eleitos” (Lectures in Sistematic Theology, Grand Rapids, 1979). Finalmente, em quinto lugar, o Arminianismo entende e sustenta, à luz da Bíblia, que o ser humano pode cair da graça, mas que tal coisa não é tão fácil de acontecer como se pensa. O próprio Arminius preferiu deixar em aberto essa questão, isso porque há muitos textos bíblicos que enfatizam a perseverança dos santos e há muitos outros que sugerem a possibilidade de cair da graça, de eventualmente se perder a salvação (Mt 24.12,13; Lc 9.62 e 17.32; Jo 15.6; Rm 11.17-21; 1Co 9.27; Gl 5.4; Ap 3.5; 1Tm 1.19 e 4.1; 2Tm 2.10,12; Hb 3.6,12,14; 2Pe 2.20-22; 1Co 15.1-2 e 2Co 11.3-4). Escreveu Arminius: “Nunca ensinei que um verdadeiro crente pode, total ou finalmente, cair da fé e perecer. Porém, não vou esconder que há passagens das Escrituras que me parecem ensinar isso” (ARMINIUS, Works, volume 1, p. 131).

De forma geral, sabemos que é muito difícil acontecer de um crente perder a salvação ao final, mas não impossível, razão pela qual a Bíblia insta para que o cristão cultive sempre sua vida espiritual, fortalecendo-se em Deus para perseverar até o fim (Ef 6.10-18). O fato de sabermos que temos segurança em Cristo não deve nos levar a relaxar em nossa vida espiritual, pois tal atitude pode, se não tomarmos cuidado, nos levar, mais à frente, a perecermos espiritualmente.

Continuaremos amanhã...

Abraços.

Viva vencendo conhecendo a verdade a fundo!!!

Seu irmão menor.

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