09 junho 2016

SILAS DANIEL - EM DEFESA DO ARMINIANISMO - CONCLUSÃO


Para calvinistas e arminianos

Curiosamente, depois que o Calvinismo deixou de ser majoritário no meio evangélico, passou a ser tratado pelos arminianos da mesma forma que tratavam o Arminianismo quando eles eram maioria: como uma “heresia perniciosa”. Ora, é errado ver o Calvinismo dessa forma, a não ser que se trate do Calvinismo fatalista. O Calvinismo geralmente é compatibilista e, nesse caso, mesmo sendo ainda um erro, não o é tão grave assim.

O calvinista fatalista é aquele que diz que como Deus já determinou quem vai ser salvo e quem não vai, é desnecessário evangelizar, fazer missões ou mesmo se preocupar em ter uma vida de santidade. O calvinista compatibilista, ao contrário, reconhece plenamente a responsabilidade humana, mesmo que não consiga explicar como a predestinação e a responsabilidade humana coexistem perfeitamente, de maneira que ele evangeliza, faz apelo, faz missões e exorta os crentes a viverem uma vida de santidade. Em outras palavras, o calvinista compatibilista não diminui a responsabilidade humana, mas vê a coexistência entre responsabilidade humana e predestinação como uma antinomia, isto é, uma aparente contradição, assim como ocorre na Doutrina da Trindade e na Doutrina da Plena Humanidade e da Plena Divindade de Cristo, que são realidades que a mente humana não pode compreender perfeitamente. Ele acredita que só no Céu poderá entender esse mistério. O arminiano, por sua vez, só reconhece estas duas últimas doutrinas como sendo antinomias. Por não encontrar, à luz da Bíblia, apoio para uma predestinação sem base na presciência divina, ele não vê como aparente contradição a coexistência entre responsabilidade humana e predestinação.

Como se vê, toda divergência entre calvinistas não-fatalistas e arminianos diz respeito apenas à compreensão que eles têm acerca da mecânica da Salvação, e não a alguma diferença concernente à mensagem ou ao método da Salvação. Se fosse uma diferença relativa à mensagem ou ao método da Salvação, aí, sim, a coisa seria gravíssima. Ademais, teríamos que classificar como “hereges perniciosos” alguns dos maiores nomes do Cristianismo em todos os tempos (Agostinho, John Bunyan, George Whitefield, Jonathan Edwards, David Brainerd, Charles Spurgeon, William Carey etc) e a maioria esmagadora dos protestantes dos séculos 16 ao 19. Ninguém é salvo por entender a mecânica da Salvação, mas por aceitar, pela graça de Deus, a mensagem e o método da Salvação. Se fosse preciso, para ser salvo, também entender perfeitamente a mecânica da Salvação, a maioria esmagadora daqueles que hoje são salvos em Cristo não o seriam.

Pense, por exemplo, em um crente simples, que mal sabe ler e escrever, que mal pode entender detalhes da discussão entre calvinistas e arminianos. Para ser salvo, será que ele precisa entender o que é Supralapsarianismo, Infralapsarianismo, graça preveniente, initium fidei, Pelagianismo, Semipelagianismo etc? Claro que não. Basta entender a mensagem e o método da Salvação: todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sem o perdão dos pecados, você não pode ter comunhão com Deus e receber as bênçãos divinas, e também está destinado à condenação eterna; Jesus é Deus encarnado, que veio não apenas para ensinar como devemos viver, mas para morrer por nossos pecados, e ressuscitou ao terceiro dia para nossa Salvação; se você se arrepender de seus pecados e aceitar o que Jesus fez por você na cruz para remissão de seus pecados, e também aceitar o senhorio dEle sobre sua vida, então terá seus pecados perdoados e a comunhão e a bênção eternas de Deus; você não é salvo pelas boas obras, mas salvo para praticar boas obras; todo salvo em Cristo deve procurar viver uma vida de santidade; Jesus voltará e um dia estaremos para sempre com Ele na eternidade se formos fieis.

Você não é salvo por entender perfeitamente o que ocorreu nos “bastidores” do mundo espiritual quando você foi salvo – ou seja, se você veio a Cristo porque isso tinha sido predeterminado por Deus ou se Deus apenas sabia que isso iria acontecer e então predeterminou, desde a eternidade, que você receberia todas as bênçãos que estão em Cristo. Você pode morrer sem entender plenamente como isso se deu e ser salvo. Porém, você nunca será salvo se não aceitar a mensagem e o método da Salvação.

Em 1971, em uma conferência em Schloss Mittersill, na Áustria, o célebre pregador calvinista David Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) defendeu o mesmo que este escriba: o óbvio de que a diferença entre Arminianismo e Calvinismo diz respeito apenas ao mecanismo da Salvação e não ao caminho da Salvação, razão pela qual, ele, um calvinista, defendia que era errado considerar o Arminianismo condenável ou heresia perniciosa; e enfatizava ainda outra obviedade: Arminianismo não tem nada a ver com Pelagianismo. Que bom seria se todo calvinista tivesse essa percepção! Infelizmente, há aqueles que, além de confundirem Arminianismo com Pelagianismo ou Semipelagianismo, colocam a mecânica da Salvação no mesmo patamar da mensagem e do método da Salvação, confundindo alhos com bugalhos e tratando arminianos como “hereges perniciosos”.

Por outro lado, arminianos muitas vezes se esquecem que o Calvinismo prevalecente na história, sobretudo a partir do século 19 em diante, é o Calvinismo compatibilista, que era a posição de William Carey (1761-1834), o “Pai das Missões Modernas”, e Charles Spurgeon (1834-1892), “O Príncipe dos Pregadores”. Ambos combateram o Calvinismo fatalista e viam como homens de Deus os arminianos John e Charles Wesley, assim como compatibilistas de hoje admiram também arminianos como Dwight L. Moody, A. W. Tozer, Leonard Ravenhill, C. S. Lewis e Billy Graham.

Em 1792, William Carey publicou o livro Inquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the Conversion of the Heathen (“Investigação sobre as obrigações dos cristãos de usar meios para a conversão de pagãos”), mas encontrou resistência entre seus pares batistas, que eram calvinistas como ele. Para a maioria destes, a posição de Carey entrava em conflito com as crenças calvinistas. Mas, Carey insistiu, levando sua visão missionária a uma reunião de pastores e propondo que, no encontro seguinte, discutissem a tarefa de levar o Evangelho aos pagãos, diante do que o pastor John Ryland (1753-1823), que presidia a reunião, ordenou que Carey se sentasse, dizendo: “Quando agradar a Deus converter pagãos, Ele o fará sem a sua nem a minha ajuda!”.

Como Carey era mais fiel à Bíblia do que aos dogmas calvinistas, ele foi fazer missões e deu início às Missões Modernas, criando a Sociedade Batista Missionária. E o próprio Ryland, depois de ler a biografia do missionário calvinista David Brainerd (1718-1747) escrita por Jonathan Edwards (1703-1758), passou a ser mais equilibrado, inclusive tornando-se amigo e apoiador de Carey, que tinha como referências John Wesley e David Brainerd.

Sobre os embates de Spurgeon com os calvinistas fatalistas de seus dias, há uma obra muito boa: Spurgeon vs. Hyper Calvinists: The Battle for Gospel Preaching (“Spurgeon versus os Hiper-calvinistas: a Batalha da Pregação da Palavra”), 1995, da Banner of Truth. Comentando 1 Timóteo 2.3-6, que afirma que Deus deseja “que todos os homens sejam salvos” e Cristo se entregou “por todos”, escreve Spurgeon: “E então? Tentaremos colocar um outro sentido no texto do que já tem? Penso que não. É necessário, para a maioria de vocês, conhecer o método comum com qual os nossos amigos calvinistas mais velhos lidaram com esse texto. ‘Todos os homens’, dizem eles, ‘quer dizer alguns homens’, como se o Espírito Santo não pudesse ter falado ‘alguns homens’ se quisesse falar alguns homens. ‘Todos os homens’, dizem eles, ‘quer dizer alguns de todos os tipos de homens’, como se o Senhor não pudesse ter falado ‘Todo tipo de homem’ se quisesse falar isto. O Espírito Santo, através do apóstolo, escreveu ‘todos os homens’, e sem dúvida isso quer dizer ‘todos os homens’. Estava lendo agora mesmo uma exposição de um doutor muito apto o qual explica o texto de tal forma que muda o sentido; ele aplica dinamite gramatical no texto e explode o texto ao expô-lo. [...] O meu amor pela consistência das minhas próprias doutrinas não é de tal tamanho a me autorizar a alterar conscientemente um só texto da Escritura. Respeito grandemente a ortodoxia [calvinista], mas a minha reverência para a inspiração é bem maior. Prefiro parecer cem vezes ser inconsistente comigo mesmo do que ser inconsistente com a Palavra de Deus” (SPURGEON, Metropolitan Tabernacle Pulpit, 1 Timothy 2.3,4, volume 26, pp. 49-52).

Não por acaso, Spurgeon é autor de um livro intitulado The Soul Winner (“O Ganhador de Almas”), no qual incentiva cada crente a se tornar um ativo e ousado ganhador de vidas para Cristo. Spurgeon era assim porque o seu Calvinismo era compatibilista, como ele mesmo definiu certa vez: “Que Deus predestina e que o homem é responsável são duas coisas que poucos enxergam. Acredita-se que são inconsistentes e contraditórias, mas elas não são. É simplesmente culpa do nosso julgamento fraco. Duas verdades não podem ser contraditórias. Se, então, acho ensinado em um lugar [da Bíblia] que tudo foi pré-ordenado, é verdade; e se achar em outro lugar [da Bíblia] que está sendo ensinado que o homem é responsável por todas as suas ações, é verdade; e é a minha grande tolice que me leva a imaginar que duas verdades podem se contradizer” (SPURGEON, C. H., New Park Street Pulpit, volume 4, 1858, p. 337). Enfim, não devemos cometer a tolice de tratar nossos irmãos calvinistas compatibilistas, não-fatalistas, como “hereges perniciosos”, o que nunca foram, mas também devemos nos conscientizar que o Arminianismo é, sem dúvida alguma, a melhor explicação, à luz da Bíblia, para a mecânica da Salvação. Não é verdade que “o Calvinismo honra ainda mais a Deus do que o Arminianismo”, como calvinistas mais fervorosos declaram. Tanto o Calvinismo compatibilista como o Arminianismo genuíno honram a Deus, sendo que o Arminianismo o faz de uma forma muito mais coerente à luz do texto sagrado, sem forçar alguma aparente contradição, alguma antinomia entre soberania de Deus e responsabilidade humana, e sempre à luz da Bíblia. Ensinemos, pois, o Arminianismo.

Fonte: Revista Obreiro nº 68. CPAD 2015,

Viva vencendo, crendo que somos salvos pela Pessoa de  Jesus Cristo e não por credos!!!

Abraços.

Seu irmão menor.

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