25 setembro 2016

JOSUÉ, UM HOMEM-DOM

Resultado de imagem para perseverança

Acordei triste por saber que mais um pastor suicidou-se. Desta vez no campo presbiteriano. Homem valoroso, esse pastor em Minas gravou cds de hinos e cânticos infantis. Deu cabo de sua vida com um tiro. Que mundo é esse em que vivemos? No início do ano dois pastores batistas fizeram o mesmo. E multiplicam-se os casos desta grande anomalia religiosa: Cristo, pregado como solução para a vida, não soluciona os problemas existenciais de pastores contemporâneos!

Recordei-me de uma pregação do Pr. Arthur Alberto de Mota Gonçalves, de saudosa memória. Pregou ele sobre o texto bíblico que dizia que "Cristo, subindo ao alto deu dons aos homens". Dizia que tais dons não eram apenas capacitações, mas homens chamados e capacitados por Deus para uma tarefa especial, "homens-dom".

O Pr. Josué Nunes de Lima, de saudosíssima memória, foi um destes homens-dom. Pastor da Igreja Batista em Jardim Brasil, capital paulista, fez dela a sua catedral. Por mais de 40 anos a pastoreou, sendo o instrumento de Deus para consolidá-la como uma das grandes congregações bíblicas do Brasil.

Eu o conheci. Eu primei de sua amizade. Eu passei horas a receber o seu aconselhamento. Josué deixou em minha alma marcas profundas e até hoje eu lamento a sua ausência; não que reclame de que tenha sido recolhido pelo Senhor, mas lamento que ele tenha ido tão cedo e que tenha deixado uma lacuna tão grande em mim. Josué me faz falta!

E por que o considero homem-dom?

Quero alistar algumas razões que me convencem desta afirmativa.

01. UM CRENTE VERDADEIRO - Josué era crente de fato. Ele não era um mentiroso. Ele não iludia o auditório. Ele não se mascarava com a fé. Ele cria. Eu o vi orar! Eu o vi chorar na presença do Senhor! Eu o vi adorar a Deus de forma verdadeira! Ele levava Deus a sério. Seguia e ensinava a Bíblia com toda a segurança de quem cria. Josué era crente.

02. UM PASTOR AUTÊNTICO - Ele não ocupava o cargo de pastor; ele não "estava" pastor; ele ERA um pastor. Sua postura, sua palavra, sua presença, seu olhar, seus conselhos, sua prestatividade, sua sabedoria, sua inteligência, sua cultura, sua maneira religiosa de tratar com brandura e com seriedade todos os assuntos faziam dele um pastor autêntico. Nenhum membro de sua igreja ficava sem uma visita, ainda que a congregação fosse grande. Seu gabinete pastoral estava aberto a semana inteira e qualquer um poderia ir e conversar com ele o tempo que quisesse. Ele fazia questão de manter o gabinete num nível de solo, de fácil acesso, para que crianças, idosos, jovens e todo o povo tivesse facilidade em procurá-lo. Estava no nível do povo. Era enérgico, mas era pai. Era severo, mas também misericordioso. Josué era um autêntico pastor.

03. UM AUTO-DIDATA E ESTUDIOSO - De origem humilde e com trabalhos árduos (até carregador de cereais foi), não encarou tais limitações como fim em si mesmas, mas como obstáculos que deveria ultrapassar. E como os ultrapassou! Tornou-se um homem culto, um homem acadêmico, um autêntico educador! Formado, condecorado, mestre, tornou-se um orador de categoria e de primeira linha! Nas convenções batistas estaduais era de praxe que todos esperassem os relatórios das comissões de Josué, só para ouvir-lhe dizer: "Amados irmãos, recebam o nosso fraternal amplexo". Como falava bem! Como era forte a sua voz! Como era clara a sua mensagem! Claro, ousado, lógico, preparado, absolutamente seguro e ancorado nas páginas das Escrituras Sagradas. Assim era o Josué acadêmico.

04. UM CONSELHEIRO DE PASTORES - Josué foi presidente da Ordem dos Pastores Batistas do Estado de São Paulo, sucedendo o saudoso Pastor Rubens Lopes. Após a sua gestão, não deixou de ser líder e de ter em sua casa um autêntico posto de aconselhamento, um confessionário, um local onde os ministros encontravam alguém com quem repartir as suas dores, as suas dúvidas, alguém que era presente e que estendia a mão! Quantos obreiros foram abençoados com indicações de Josué! Quantos não receberam os seus cuidados, fosse com orientações, fosse financeiro, fosse de apoio em momentos de crise! Josué era um homem do povo, chamado para o ministério e entendia plenamente os seus colegas! Um ministro presente e essencial!

05. UM CLÁSSICO - Josué era um pastor batista à moda antiga. Formado por uma teologia fundamental e crescente (estudava muito e sempre mais), jamais arredou o pé dos fundamentos bíblicos da vida cristã e da orientação eclesiástica. Não permitia modernismos em seu culto, ainda que sua igreja tivesse dezenas de jovens! Promovia o culto cristocêntrico, a liturgia reformada, a prédica cristã bíblica, a hinódia sadia, a comunhão espiritual e bíblica. A Igreja Batista em Jardim Brasil tornara-se um referencial doutrinário e exemplar do que era um autêntico culto batista clássico. Sabia ser forte, sem perder a ternura e a simplicidade de homem do campo. Josué era um pastor legítimo!

06. UM HOMEM POBRE - Josué nunca se valeu do evangelho para enriquecer-se. Pelo contrário, tudo o que tinha era para o Reino de Deus. Recebia o seu salário, mas acabava por repartir com os que precisavam, além de sustentar os seus filhos queridos. Em sua casa era comum receber diversas pessoas que iam tomar café ou fazer as suas refeições ao lado do pastor amado. Sua primeira esposa, irmã Albertina, era uma anfitriã maravilhosa, meiga, querida, amorosa e espiritual. Juntos o casal Nunes de Lima enriquecia a muitos, mesmo tendo tão pouco! Não tinha posses na Terra, porque estava ajuntando uma fortuna no Céu! Não passava privações, pois a igreja o amava. Mas não usava de seu gabarito e popularidade, como muitos hoje, para fazer carteiras de sustento através de preços de conferências.

07 - UM HOMEM RESPEITADO - Comendador por 3 vezes de organizações humanitárias e filantrópicas, membro de juntas missionárias, diretor de institutos de educação teológica, partícipe ativo de amigos do bairro, conferencista em diversas partes do país e algumas vezes na Europa, recebido na casa de autoridades públicas e empresários, era um homem por demais respeitado. No bairro todos o conheciam e admiravam. Josué começara a pastorear a igreja quando ainda as ruas eram de lama e brejo; o ônibus não chegava no local e era necessário, com a família, caminhar na lama. Lavava os pés à entrada e ministrava. Construiu a sua casa naquele lugar ainda primitivo. Cresceu com ele. Era morador veterano, amado, querido e respeitado. Todos sabiam onde era a casa do pastor, em cuja fachada havia uma bíblia aberta com um versículo. Comerciantes, feirantes, professores, empresãrios, moradores, vendedores, todos tinham afeto e respeito pelo Pr. Josué.

08 - UM CONCILIADOR - Quantas crises a igreja e a denominação enfrentaram ao longo de sua carreira! Josué era procurado insistentemente por todos, pois sua palavra, sua atuação e sua maneira de colocar as coisas eram claras e não ofendiam ninguém. Era capaz de jogar água na fervura e de retirar a lenha para que o fogo se apagasse. Era um conciliador, um diplomata, um promotor da paz. Na igreja não permitia focos de intrigas ou de confusão. Com seu paternal cuidado e com a Bíblia em mãos, conseguia a paz tão necessária e o progresso da Obra do Senhor. Como Josué era precioso!

09 - MEU ESPELHO - Não sou um Josué. Eu nem tentei imitá-lo. Fui criado Wagner. Contudo, quem o conheceu e vê uma ou outra mensagem gravada onde sou o preletor, consegue identificar algo de Josué em minhas prédicas. Claro, ele foi um modelo precioso para mim! Ajudou-me, orientou-me, aconselhou-me, puxou-me a orelha, fortaleceu-me nas muitas crises que já atravessei. Inspiro-me nele para pregar, não no sentido de copiá-lo, mas de sua retórica forte, contundente e autêntica, firme e fundamentada na Bíblia. Josué deixou em mim marcas profundas e eu sou grato a Deus por este homem-dom.

Fui um bem-aventurado. Eu conheci Josué Nunes de Lima. E se o Pr. Arthur afirmou em sua pregação que Deus dá em Sua graça alguns homens-dom nas gerações, posso dizer com plena convicção: o Pr. Josué Nunes de Lima foi um destes homens. E ainda hoje, após alguns anos de sua partida, continua a ecoar através do testemunho deixado, da obra realizada, do exemplo vivido e da graça na qual firmou a sua própria vida.

Quero ser também um homem-dom; não um homem que carece de sentido na vida. Não importa quantas sejam as nossas lutas, não importa por quanto tempo tenhamos que atravessar provações e privações. Importa que o Deus Eterno quer usar a nossa vida na edificação de outros e na continuação da mensagem do evangelho que traz vida e salvação. Se eu um dia for um porcento do que Josué foi, estarei feliz, pois Josué era um imitador de Cristo (imitador no sentido de procurar viver como o Senhor).

Quero sê-lo também.

E bendito seja o Deus eterno, nosso pai, doador dos dons, inclusive dos homens-dom!

Wagner Antonio de Araújo

JOSUÉ, UM HOMEM-DOM - ADENDO

UM ADENDO
O primeiro parágrafo diz respeito à minha tristeza pelo suicídio do Rev. Aroldo Telles, da Igreja Presbiteriana em Minas Gerais, segundo informações da mídia(http://www.plox.com.br/policia/pastor-aroldo-telles-morre-em-ipatinga). o pastor Josué Nunes de Lima, pelo contrário, viveu toda a vida sem nenhuma relação com isso. E
Escrevi o texto como consolo para mim mesmo, no sentido de contrapor, diante de um suicida, um outro, cuja vida foi pautada pela fé, pela entrega e pela vida.
Que fique claro. Um foi o suicida, outro foi o homenageado em meu texto.
Do autor.


Nenhum comentário:

Postar um comentário