23 setembro 2016

QUEM FOI FLAVIO JOSEFO


Galileia, julho de 67 d.C. Estamos na região onde Jesus viveu seus suaves dias de menino, de adolescente e de rapaz, ao lado de José, ao lado de Maria, ao lado de seus irmãos. Já não se vê Jesus andar, na Galileia, sobre o mar;   nem multidões se vê passar, para Cristo na cruz pregar, diz a letra do belo hino do cantor e compositor norte-riograndense José Costa, meu pai. E quase dois mil anos distantes daqueles conturbados e gloriosos dias em que Jesus Cristo homem viveu entre os homens, é José Costa que inspiradamente canta o que tem-se constituído, há quase dois milênios, no brado triunfal da Igreja:   Ó cravos, cruz, ó turba vil, o teu poder já sucumbiu; não podes mais, Jesus venceu, e em glória subiu para o Céu! Porém, eis que estamos na Galileia, em pleno ano de 67 d.C. Os judeus guerreiam contra os romanos. Dentro de mais três anos e alguns meses, uma das profecias de Jesus terá o seu fiel e terrível cumprimento: a queda de Jerusalém, e a total destruição do Templo (Mc 13.1,2). A revolta dos judeus contra os romanos começara no ano anterior, precisamente em maio de 66. 
Nessa época a Galileia estava sob o domínio do procurador ou governador romano Géssio Floro. Esse Géssio havia ocupado, dois anos antes, o lugar de outro governador romano, Albino, e este, por sua vez, havia sucedido a um outro governador, Pórcio Festo, nosso conhecido, graças, às referências que dele fez Lucas em Atos dos Apóstolos, 25.1-12. Foi nesse fatídico ano de 66 que tudo começou. Nem o governador romano Géssio Floro, nem aquele rei bastardo, Herodes Agripa II (o famoso rei Agripa, citado em Atos 25.13), bisneto de Herodes, o Grande (Mt 2.1), puderam conter a rebelião do judeus, que em pouco tempo se espalhou por toda a Palestina. É nesse momento que entra em cena o homem cuja vida e obra nos levaram a traçar as linhas deste breve ensaio biográfico. Seu nome: Flávio Josefo.
UMA TESTEMUNHA DO TEMPO DE CRISTO
     
Aliás, não era assim que seus compatriotas judeus o conheciam, e sim por Yoseph ben Mattiyahu ha-Cohen, seu verdadeiro nome. Ele passou a se chamar Flávio Josefo após ter sido conduzido a Roma como prisioneiro do General Tito. Josefo, que participou da guerra contra os romanos como general das forças judaicas que combatiam os exércitos de Nero na Galiléia, foi testemunha ocular da queda de Jerusalém e da destruição do Templo. Ele viu a Palestina que Jesus viu, conversou com um dos Herodes, e conheceu dezenas de outras pessoas citadas tanto nos Evangelhos como no livro de Atos dos Apóstolos. Josefo nasceu no ano 37 ou 38 da Era Cristã. No ano do seu nascimento, Jerusalém estava sendo sacudida pela pregação dos apóstolos. Porém ele, à semelhança do apóstolo Paulo, foi educado dentro das mais rigorosas exigências rabínicas. Destacou-se de tal modo no estudo da Lei, que aos 14 anos de idade, os rabinos conversavam com ele de igual para igual sobre os mais difíceis e variados assuntos bíblicos. Tão intenso era o seu desejo de tornar-se fiel cumpridor da Lei, que aos 16 anos foi para o deserto seguir as práticas religiosas de um velho eremita judeu chamado Bane, e de lá só voltou três anos depois, entrando para a seita dos fariseus. Passados alguns meses, tornou-se sacerdote. Aprendeu o grego e o latim, e graças à sua cultura e habilidade, foi enviado em 64 d.C. a Roma em missão semi-oficial. Ao retornar de lá, Josefo deparou-se com os primeiros sinais da rebelião dos judeus contra os romanos. Sabedor de que a guerra contra os romanos havia começado em vários pontos da Palestina, e tentando evitar que os judeus da Galileia, que até então permaneciam neutros, porém armados, entrassem na guerra, o Sinédrio (Supremo Tribunal Judaico) enviou o jovem sacerdote Flávio Josefo com a missão de acalmar os galileus. Porém, a onda nacional de revolta o arrastou e o envolveu, e muito contra sua vontade foi-lhe confiado o alto comando das tropas da Galileia.
DERROTA E ESTRANGULAMENTO COLETIVO
     
As legiões romanas em campanha de guerra na Galileia atacaram os judeus que estavam sob o comando de Flávio Josefo, forçando-os a se refugiarem na cidade fortificada de Jotapata, localizada a pouco mais de 15 quilômetros ao norte de Nazaré. O próprio célebre e muito condecorado general romano Vespasiano comandava o ataque. Após 47 dias de cerco, Jotapata caiu diante das espadas e lanças romanas. O jovem sacerdote Flávio Josefo, em companhia dos quarenta mais graduados judeus sob o seu comando, refugiou-se dentro de uma cisterna profunda, no fundo da qual havia uma caverna. Porém, o esconderijo foi descoberto, e diante da promessa de Vespasiano poupar-lhes a vida, caso eles se entregassem, os judeus que estavam com Josefo acharam tão vergonhosa essa situação que resolveram apelar para o suicídio coletivo. Contudo, Josefo os convenceu a lançarem sorte entre si e estrangularem uns aos outros, de acordo com o que coubesse a cada um. Em pouco tempo só restaram vivos Flávio Josefo e um outro companheiro. Josefo convenceu esse judeu a se entregar com ele a Vespasiano. Ao ser trazido à presença do general dos Exércitos de César, Flávio Josefo profetizou que Vespasiano em breve seria chamado a Roma para ocupar o trono vazio. Isto aconteceu dois anos depois. Vespasiano tornou-se imperador, deixando no seu lugar na Palestina seu filho Tito, de quem Josefo tornou-se prisioneiro e intérprete. Finda a guerra, e após haver testemunhado a destruição de Jerusalém em 70 d.C. pelo general romano Tito, Josefo foi conduzido a Roma.
O RELATO DE UM HISTORIADOR DO TEMPO DOS APÓSTOLOS
     
Em Roma, o imperador Vespasiano o tratou como um personagem ilustre, permitindo que ele transitasse livremente por todos os lugares da cidade, e o presenteou com propriedades e outros bens. Despreocupado com o próprio sustento, Josefo viu-se dono do seu tempo, e totalmente livre para escrever. Em sua mente ainda estavam acessas as imagens de tudo quanto ele vira na guerra do seu povo contra os romanos. Foi então que escreveu o mais importante documento histórico sobre o desastre da nação judaica profetizado por Jesus, o livro Antiguidades Judaicas, onde se encontra a mais importante referência histórica extrabíblica sobre o nosso Salvador (ao todo, existem no mundo 11 referências históricas que confirmam, fora das páginas da Bíblia, a passagem de Jesus Cristo sobre a face da terra. São fontes de origem judaica, grega, romana, samaritana e siríaca). A referência de Josefo sobre Jesus encontra-se no livro XVIII, capítulo IV, parágrafo 772 das Antiguidades Judaicas. O ex-general e agora historiador judeu fala inicialmente sobre uma revolta dos judeus contra Pilatos, ocorrida no ano 27 d.C., por esse ter pretendido vender peças do tesouro do Templo para levantar recursos financeiros a fim de trazer para Jerusalém a água de uma nascente afastada que abasteceria a piscina de sua mansão. Em seguida, para nossa surpresa, Josefo diz magistralmente: “Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia podemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade, e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. "Era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito, e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram o seu nome.” (Antiguidades Judaicas. Tradução do Pe. Vicente Pedroso. Editora das Américas. 1ª. parte. 5º. volume. São Paulo.1956). Outro fato aumentou em muito o valor do livro Antiguidades Judaicas. Além de ter participado dos acontecimentos narrados, Josefo teve acesso direto aos comentários da guerra contra os judeus escritos por Vespasiano e seu filho Tito, e a preciosos documentos deixados por outros historiadores anteriores a ele, documentos estes que, em sua maioria, não chegaram até nós; perderam-se na escuridão do passado, roídos pelos implacáveis dentes do tempo. 
Fonte: Jefferson Magno Costa 

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