29 setembro 2016

UMA IGREJA QUE ORA

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A. W. Tozer disse que se muitos comparecessem ao trabalho com a mesma fidelidade com que frequentam o culto de oração não ficariam empregados por muito tempo.  Essa verdade parece universal. Se olharmos para as igrejas que tem culto de oração, e eu estou falando de culto de oração, não de campanhas, veremos as igrejas com muito pouca frequência. A impressão que tenho é que oração e estudo bíblico não agradam a muitos crentes.

O texto que lemos nos mostra Pedro e João, após terem sido libertos, procurando os irmãos para contar-lhes o que havia lhes acontecido e o que os líderes religiosos lhes havia ordenado. Diante do relato dos apóstolos a igreja se levanta em oração pedindo a Deus direção para continuar a fazer o que o Senhor Jesus lhes havia designado a fazer (Mt 28.16-20). Essa atitude nos mostra uma total dependência de Deus e de Sua direção em relação ao que fazer diante do ocorrido.

D. Martyn Lloyd-Jones nos diz que os discípulos oraram porque a única coisa que eles queriam fazer era continuar pregando, ensinando e trabalhando em nome de Jesus, e eles compreendiam que só havia um meio pelo qual poderiam fazer isso: só poderiam continuar se Deus os habitasse. Na oração da igreja nós vemos os crentes fazendo exatamente esse pedido ao Senhor e o Espírito Santo vindo sobre eles mais uma vez.

Entenda uma coisa: Não é lendo as Escrituras nas línguas originais ou em alguma linguagem contemporânea que nos tornaremos cristãos melhores, mas, sim, ajoelhando-nos com a Bíblia aberta à nossa frente, permitindo que o Espírito de Deus quebrante nosso coração. Então, devidamente quebrantados diante do Todo-Poderoso, levantamo-nos e saímos para o mundo, proclamando a gloriosa mensagem de Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, disse A. W. Tozer.

A igreja é o povo que busca a Deus em oração nas horas de dificuldades. A oração é arma de guerra. Quando nos curvamos diante de Deus, levantamos diante dos homens. Quando colocamos os nossos olhos em Deus, perdemos o medo da ameaça dos homens. Os apóstolos viram durante todo o ministério de Jesus Ele orando, por isso eles lhe pediram: “Ensina-nos a orar” (Lc 11.1). Eles não pediram para lhes ensinar a pregar, a expulsar demônios, a curar enfermos; eles queriam aprender a orar, porque orar é ter comunhão com o Pai, e tendo comunhão com o Pai as outras coisas são uma consequência.

Mas o que podemos aprender com essa oração da Igreja Primitiva diante das ameaças recebidas?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NA ORAÇÃO DEVEMOS RECONHECER A SOBERANIA DE DEUS (At 4.24a)

A religiosidade tem sido um dos maiores fracassos na vida de muitas pessoas dentro de nossas igrejas. A religiosidade tem levado muitas pessoas a pensarem que são verdadeiros cristãos, que conhecem a Deus, que o servem. No entanto, a religiosidade cega às pessoas de verem quem elas realmente são e quem é Deus verdadeiramente.

Conhecer a Deus é mais que conhecer tradições religiosas. É mais que ser criado em uma determinada denominação evangélica. É muito mais que guardar preceitos da palavra de Deus como fazia o jovem rico (conf. Mc 10.17-31). Também não é ter experiências religiosas (tem gente que se emociona, se arrepia); mas isso não é conhecer a Deus e nem a Sua soberania.

- Conhecer a Deus é saber que Ele é um Deus vivo e todo-poderoso. A Igreja reunida se dirige a Deus o chamando de Soberano. Esta era uma forma como se dirigiam a Deus no Antigo Testamento.
Aqui a palavra utilizada no grego é “Despotes”, que quer dizer “Soberano Senhor”, termo usado para denominar um proprietário de escravos e uma autoridade de poder inquestionável. O Sinédrio podia fazer ameaças e proibições, e tentar silenciar a igreja, mas a autoridade deles estava sujeita a uma autoridade maior. Os decretos dos homens não podem passar por cima dos decretos de Deus.
A Bíblia nos diz que no ano da morte do rei Uzias, o profeta Isaías entra no templo para orar e tem uma das maiores revelações de todo o Antigo Testamento, ele contempla a glória do Senhor. Nos diz o texto assim:
«No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça» (Is 6.1-4 – ACF).

Nós não estamos à mercê dos homens, nós estamos debaixo da potente mão de Deus. Nada acontece sem que Ele não saiba e nada acontece sem que Ele não permita (Is 42.12-26; Is 66.1; Sl 113).
Como disse R. N. Champlin: “Precisamos, portanto, aprender a confiar em Deus como aquele ser supremo que controla todas as coisas, e que faz tudo cooperar juntamente para o bem de suas criaturas, e, sobretudo, de seus escolhidos”.

- Conhecer a Deus é saber que Ele é o criador de todas as coisas (At 4.24b). A Bíblia nos mostra que podemos conhecer a Deus através da Sua criação (Sl 19.1-6; Rm 1.18-21; At 14.15, 17.24), Ele não se ocultou do ser humano, muito pelo contrário, a natureza nos revela que existe um criador, um sustentador e um legislador.

D. Martyn Lloyd-Jones nos diz que Deus não começou a viver quando Jesus Cristo nasceu! Deus sempre era e sempre será; Deus é eterno. A encarnação é simplesmente um ponto divisor. Você não começa em Jesus Cristo. O Deus em quem eu creio é o Deus de Gênesis: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. O cristianismo do Novo Testamento começa com Deus o Criador. cf. (Hb 11.3; Jo 1.1-3).

- Conhecer a Deus é saber que Ele é o Senhor da revelação (At 4.25,26). Foi este Senhor Soberano que profetizou nos Salmos os esforços dos reis do mundo para se rebelarem contra Ele e o Messias. O pensamento implícito é, claramente, que é fútil para os homens urdir tramas contra o Deus que não somente criou o universo inteiro como também previu estas coisas vãs [8]. Durante o momento de oração Deus revela a Sua Palavra, Ele mostra que o que estava acontecendo era o que fora profetizado por Davi no Salmo 2. O que estava acontecendo, na verdade, era um cumprimento profético.

- Conhecer a Deus é saber que Ele é o Senhor da história (At 4.27,28). O que aconteceu com Jesus não foi obra do acaso, mas foi o que o Senhor já havia decido de antemão que acontecesse. O Senhor tem a história em Suas mãos. Como nos falou Paulo em Gálatas 4.4: «Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei» (Gl 4.4 – ACF). A palavra “tempos” nesse versículo remete ao desenrolar de todos os tempos deste mundo, e a sua “plenitude” corresponde ao “tempo determinado pelo Pai”, que o apóstolo havia mencionado em (Gl 4.2). É o tempo exato estabelecido por Deus antes da fundação do mundo, no qual Seu Filho viria trazer salvação. Toda a história anterior convergia para este momento, o da chegada do Filho de Deus no palco da história humana.

Esta oração, inspirada pelo Espírito Santo, reconhecia que os líderes judeus estavam na mesma classe dos povos do mundo exterior que estavam sempre a enfurecer-se, conspirando contra Deus e contra Jesus. Herodes Antipas, Pilatos, os gentios e o povo de Israel verdadeiramente se reuniram em atitude hostil contra o Santo Servo de Deus, Jesus. Todavia, eles só podiam fazer o que a mão de Deus e a Sua vontade tivessem determinado de antemão que fosse feito. Eles eram, entretanto, responsáveis por seus feitos, desde que, livremente, escolheram realizá-los.

A Igreja Primitiva acreditava firmemente na soberania de Deus e em Seu plano perfeito para o seu povo. Convém observar, porém, que não permitiam que sua fé na soberania divina anulasse a responsabilidade humana, pois davam testemunho fiel e oravam. Quando o povo de Deus perde o equilíbrio e enfatiza excessivamente a soberania de Deus ou a responsabilidade humana, a igreja perde poder. Mais uma vez, somos lembrados das palavras sábias de Agostinho: “Ore como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como se tudo dependesse de você”.

Portanto, era assim que a Igreja Primitiva entendia o Deus da criação, da revelação e da história, cujas ações características são resumidas em três verbos: “fizeste” (v. 24), “disseste” (v. 25) e “predeterminaste” (v. 28).

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO QUE NA ORAÇÃO DEVEMOS PEDIR INTREPIDEZ PARA PREGAR A PALAVRA (At 4.29,30)

Esta é uma oração ousada, mas não vingativa. Eles não pedem a morte de seus inimigos. Não pediram fogo de céu para destruir os seus inimigos (Lc 9.51-56). Uma igreja que ora alcança maturidade espiritual. E esta maturidade nos é mostrada aqui de três formas.

- A Igreja pede que o Senhor olhe para as ameaças dos Seus inimigos. Assim como o Sinédrio estava perseguindo a Igreja, posteriormente, Saulo de Tarso fez a mesma coisa. Só que ambos estavam perseguindo o Senhor Jesus através da Sua Igreja, por isso que eles pedem que o Senhor olhasse para suas ameaças.

Não oram para que suas circunstâncias fossem alteradas, nem para que seus inimigos fossem depostos dos cargos. Antes, pediram para que Deus lhes desse poder para fazer o melhor uso possível das circunstâncias e realizar o que Ele havia determinado. Não foi uma demonstração de “fatalismo”, mas de fé no Senhor da história que tem um plano perfeito e é sempre vitorioso. Pediram capacitação divina, não uma rota de fuga; e Deus lhes deu o poder que precisavam.
Não quero dizer com isso que seja errado pedir livramento ou mesmo a intervenção divina nas situações adversas. Não é isso. O que devemos entender é que nem sempre o Senhor irá nos livrar dos problemas; por isso que devemos pedir ao Senhor capacitação para suportá-los e continuarmos em frente testemunhando dEle. Veja por exemplo o apóstolo Paulo com seu “espinho na carne” (2Co 12.7-10).

Hernandes Dias Lopes citando Warren Wiersbe nos diz que a verdadeira oração não consiste em dizer a Deus o que fazer, mas pedir que Deus faça sua vontade em nós e por meio de nós. É pedir que a vontade de Deus seja  feita na terra, não que a vontade humana seja feita no céu.

- A Igreja pede intrepidez na Palavra. Os apóstolos não perderam o foco, eles continuavam vendo a necessidade de ousadia na pregação da Palavra. Eles sabiam que eram falíveis, eles estavam cônscios de suas fraquezas naturais, por isso eles pedem na oração intrepidez para continuarem pregando a Palavra do Senhor.
D. Martyn Lloyd-Jones diz que a obra do Espírito Santo é tornar possível que esta mensagem seja proclamada e pregada com santa ousadia.

«Hoje muitas igrejas deixaram a Palavra e começaram a pregar as novidades do mercado da fé. Deixaram o evangelho da graça para pregar a prosperidade. Deixaram a mensagem da cruz para pregar os supostos milagres realizados por supostos homens de Deus. Deixaram de pregar o arrependimento para pregar a autoajuda. Deixaram de pregar o novo nascimento para pregar prosperidade financeira. Deixaram de pregar o evangelho para pregar outro evangelho. A Igreja anunciava com intrepidez a Palavra, não um engodo demarketing. A Igreja precisa voltar à Palavra».

  - A Igreja pede confirmação da Palavra pregada por meio de sinais. No final do Evangelho de Marcos nos diz que “os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam” (Mc 1620 – NVI).
Hoje nós temos visto dois extremos de igrejas, umas que se tornaram tão ortodoxas e teológicas que ficaram áridas em relação aos milagres. Dizem com todas as letras que o tempo do milagre acabou. Que quando morreu o último apóstolo foram enterrados com ele todos os milagres que outrora o Senhor operava.
Outras já agem de forma contrária a tudo isso. Rejeitam a ortodoxia e a teologia e se embrenham pelos milagres pregando as mais hediondas heresias.
Recentemente eu vi um vídeo em que um suposto pastor iria orar e consagrar o copo d’água das pessoas que o estava o assistindo pela TV. Caso a pessoa não tivesse água podia ser pinga, cachaça ou vodka que ele iria consagrar! Há muitas pessoas brincando com as coisas de Deus e usando Seu nome de forma indevida.

Aprendemos aqui com os apóstolos que a Igreja deve buscar a confirmação da Palavra pregada, seja com conversões, seja com milagres. O Senhor não mudou. Ele e o mesmo, ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8).
Eles não queriam milagres por causa dos milagres, mas como oportunidades para pregar o evangelho e como sinais para que o povo reconhecesse que Jesus, na verdade, ressuscitara dentre os mortos.

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR CONFIRMA A ORAÇÃO DA IGREJA A REVESTINDO DE PODER (At 4.31)

“Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus”.
O Senhor respondeu positivamente a oração da Igreja, e foi de forma imediata. O texto nos mostra que ocorreram três coisas:

- Tremeu o lugar em que estavam reunidos. Foi notável o efeito da oração. O aposento em que estavam reunidos tremeu como se houvesse um terremoto. Este era um dos sinais que indicavam a teofania no Antigo Testamento (Êx 19.18; Is 6.4) e teria sido considerado um início da resposta divina à oração. O lugar foi abalado, e isso fez de todos eles mais inabaláveis.

Esse ocorrido mais uma vez nos mostra que o livro de Atos é um livro de experiências, por isso não podemos fazer teologia em cima dele. Quantas experiências notáveis vários irmãos já nos contaram que tiveram enquanto oravam. Desde visões a ouvir o Senhor falar de forma audível.

O Pastor José Satírio dos Santos da Assembleia de Deus conta em seu livro Missão em Cúcuta – Colômbia, que quando teve o chamado para ser missionário neste país teve uma experiência ímpar que o impactou tremendamente. Ele conta que depois do culto de domingo, na hora de se recolher para dormir, como de costume, ajoelhou-se ao lado da cama para orar. De repente, ele teve uma visão onde ele fora transportando para uma cidade da Colômbia. Ele conta que foi guiado até uma casa por um homem e ali eles entraram e foi convidado a lanchar com ele. Havia ali uma moça, por volta de uns dezesseis anos que os serviu: café com leite, queijo, pão e manteiga. Na visão eles oram agradecendo o alimento. Quando ele leva o pão com queijo à boca, aparece diante dele uma espécie de pergaminho onde se lia uma frase em espanhol: Dios, yo he visto uma tierra feliz! Que traduzido quer dizer: Deus, eu vi uma terra feliz! Nisso ele volta a si em seu quarto, e quando ele se dá por si ele percebe que havia pão e queijo de verdade em sua boca.

Só mais outro exemplo. Eu conheço um pastor batista, da mesma convenção que sou, CBB, que foi convidado a ir ao monte orar com alguns irmãos; embora ele não fosse muito a favor disso, foi com eles. Chegando lá ele me contou que teve uma experiência tremenda. Ele disse que viu ao seu redor e onde eles estavam tudo estava brilhando após ele ter orado. Ele me disse que pegava folhas no chão e elas simplesmente brilhavam em sua mão, e que no momento em que desceram de lá tudo havia desaparecido.

Eu poderia contar outras experiências que já ouvi de homens de Deus que vivenciaram enquanto oravam, mas creio que estas duas são suficientes.
Entenda uma coisa: uma coisa é termos uma experiência enquanto oramos, outra coisa é fazermos teologia em cima disso.

- O Senhor encheu todos os presentes, mais uma vez, com o Seu Espírito. A experiência de Pentecostes parece se repetir mais uma vez. Todos os presentes foram cheios do Espírito Santo. Na verdade o que houve foi uma renovação da plenitude do Espírito Santo, a fim de preparar os crentes para a obra que o Senhor iria realizar através deles.

- E anunciavam corajosamente a Palavra de Deus. Não há evangelização eficaz sem o poder do Espírito Santo. Charles Spurgeon subia as escadas do púlpito da igreja do Tabernáculo em Londres, dizendo: “Eu creio no Espírito Santo, eu dependo do Espírito Santo”. Sem o Espírito Santo nem uma alma pode ser convertida. É mais fácil um leão tornar-se vegetariano do que uma pessoa converter-se a Cristo sem a obra do Espírito Santo. Fazer a obra de Deus sem o poder do Espírito é o mesmo que tentar cortar lenha com o cabo do machado. Precisamos ser continuamente cheios do Espírito. O enchimento de ontem não serve mais para hoje (At 2.4; 4.8; 4.31). Sem o Espírito Santo não pode haver intrepidez na pregação da Palavra.

CONCLUSÃO

Orar é uma necessidade da igreja e de cada crente. Só podemos atingir a maturidade espiritual orando e estudando a Palavra, do contrário, seremos crentes fracos e sem autoridade espiritual. Como já dizia os antigos: “Muita oração, muito poder, pouca oração, pouco poder”.


O nome de Jesus Cristo não perdeu o poder, mas muitos do povo de Deus não têm mais esse poder, pois deixaram de orar ao Deus soberano. “Nada está além do alcance da oração, exceto o que está fora da vontade de Deus”. Como sugeriu R. A. Torrey, o conhecido evangelista e educador: “Ore por grandes coisas, espere grandes coisas, trabalhe para alcançar grandes coisas, mas, acima de tudo, ore”.

Silas Figueira

Um comentário:

  1. Que orar seja como respiração! Não conseguimos ficar sem e nen podemos!bela explanação e lindas as experiências citadas!! Glória só nome de Jesus!!

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