10 novembro 2017

OS 500 SÃO OUTROS

Neopentecostais são eco polêmico de reforma que rachou cristianismo

Afinal, qual é o preço da fé? Inestimável, ao menos em moedas do homem. A partir dessa premissa, há meio milênio um frade alemão iniciou sua luta contra um papado que via como corrupto e ganancioso. Por tabela, contribuiu para incendiar, figurativa e literalmente, uma Europa às voltas com o Renascimento.
Ao fustigar o “balcão da fé”, no qual a Igreja Católica perdoava pecados em troca de pagamentos, Martinho Lutero (1483-1546) deslanchou a Reforma Protestante –movimento que pulverizaria um cristianismo até então monopolizado pela Igreja Católica, dando origem às congregações evangélicas que atualmente dominam 12% do quinhão religioso global e 32% do brasileiro.
Erram os que “pregam que a alma sai do purgatório assim que se ouve o tilintar da moeda ao cair no cofre das ofertas”, pois “o papa não tem nem vontade nem poder para remir quaisquer penitências”, cravou Lutero em suas 95 teses críticas ao pontificado de Leão 10º –o documento foi fixado em 31 de outubro de 1517 na porta de uma igreja de Wittenberg, vila no leste do que hoje conhecemos como Alemanha. A afronta levaria à sua excomunhão quatro anos depois.
Esses recibos de perdão tinham nome: indulgências, do latim “indulgeo” –“para ser gentil”. Mas gentileza teve pouco espaço nos séculos que se seguiram, com guerras religiosas que opuseram católicos e protestantes europeus –estima-se que a dos Trinta Anos (1618-1648) tenha dizimado um terço (1.500) das cidades do atual território alemão.
A custo de quê? “Não podemos começar a compreender quem somos como ocidentais sem antes entender as mudanças operadas pela Reforma”, diz Carlos Eire, professor de estudos religiosos da Universidade Yale.
Ideia subscrita pelo historiador Diarmaid MacCulloch, que dá aulas em Oxford sobre a história das igrejas. Entre os “frutos impressionantes” que o movimento produziu, há o sepultamento “da ilusão de uma estrutura religiosa que pudesse representar todo o cristianismo”, afirma à Folha.
“Lutero tinha esperança, mas nenhuma nova Igreja Católica substituiu seu eixo corrupto. O que veio: uma gama de variantes do protestantismo, que juntas formam a parte mais dinâmica e em ascensão da família cristã.”
SUCESSO MATERIAL
Ecos de 1517 se esparramam pela história moderna. Nos EUA, são 46,5% os protestantes –grupo religioso cujos valores alicerçaram o modelo capitalista de sociedade, como defende o alemão Max Weber em “A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo” (1905).
Em 1966, o pastor Martin Luther King, um dos ícones do ativismo americano, colou com uma fita adesiva suas próprias teses (pró-direitos civis) na porta de metal da Prefeitura de Chicago, refletindo o ato do reformador que inspirou seu nome de batismo.
No Brasil, o pentecostalismo e sua inflexão mais moderna, que têm na crença na cura pela fé uma das principais características, são a face mais forte do protestantismo.
Linhagem do segmento que mais cresce hoje, com galhos que se espalham da Coreia do Sul ao Brasil, o fruto neopentecostal caiu longe da árvore protestante. Ao menos é o que afirmam ramos mais tradicionais da religião, que apontam a chamada Teologia da Prosperidade, abraçada por esse segmento, como uma gangrena no espírito da Reforma.
A nova teologia prega que se pode contar com Deus para conquistar sucesso material. “Muitas vezes tem-se a impressão de que essa relação com Deus se resume a uma barganha, cujo fim maior é a obtenção de benefícios, de bênçãos. Mas a vida cristã não consiste somente em glória e sucesso. A cruz, a dor, o sofrimento são componentes dela”, diz o pastor Rolf Schünemann, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
Mas que espécie de Deus faria o homem “para ser miserável”? É o que questiona o bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra –igreja sob o selo neopentecostal, tal qual a Universal do bispo Edir Macedo e a Mundial do apóstolo Valdemiro Santiago (conhecido pelo chapéu de caubói).
“O homem não pode aceitar a pobreza como uma determinação de Deus para sua vida. Miséria não é castigo pelos pecados que cometemos, é maldição. Logo, devemos lutar contra ela de todas as formas”, afirma.
Há ainda entre as igrejas históricas mal-estar com a agressividade de algumas neopentecostais na cobrança do dízimo. “É um retorno perigoso à doutrina que Lutero condenou: a de que você pode comprar a salvação e, quanto mais compra, mais leva em troca”, diz o professor MacCulloch, de Oxford.
Afinal, qual é o preço da fé?
Em 1524, Erasmo de Roterdã atacou um novo tipo de cristianismo, que, divorciado da Igreja Católica, contagiava a Europa. Para o holandês, os dissidentes distorciam a Bíblia para que ela se encaixasse na mensagem que desejavam.
“Como garotos que amam tão sem moderação que imaginam ver a amada em todos os cantos, ou, num exemplo ainda melhor, como dois combatentes que, no calor do duelo, transformam o que tiverem ao alcance em mísseis, seja um jarro, seja um prato.”
Num ponto “Erasmo estava certo”, diz Alec Ryrie em “Protestants: The Radicals Who Made the Modern World” (Protestantes: os radicais que criaram o mundo moderno). “Protestantes são apaixonados e lutadores. Discutirão com qualquer um sobre quase tudo. Se olharmos para as grandes batalhas ideológicas do último meio milênio, serão vistos nos dois lados: contra e a favor de escravidão, imperialismo, fascismo, comunismo.”
Paixão e luta são palavras que resumem bem a escalada dessa fé no Brasil, onde os católicos constituíam 99% da população na virada do século 20 e hoje encolheram para 52%, enquanto evangélicos já são 32%, segundo o Datafolha.
Afinal, é um bloco que, embora um tanto heterogêneo, costuma despertar sentimentos polarizados no país –um “ame ou odeie” entre quem vê nos evangélicos um farol moral numa sociedade decadente ou um bando intolerante contra quem não dança conforme sua música, dos adeptos de credos afro-brasileiros aos ativistas de direitos LGBTQ.
Em seu livro, Ryrie diz que “esta onda de conversão na América Latina é uma das mudanças religiosas mais dramáticas da história moderna”. O continente e também a África, hoje, são terra fértil para o evangelismo. “A secularização, presente sobretudo no cenário de sua emergência, a Europa, faz com que haja um deslocamento cada vez maior da presença da cristandade para o hemisfério Sul”, afirma o pastor luterano Rolf Schünemann.
A história dessa religião no Brasil remonta a uma igreja fundada por índios “europeizados” no século 17 até chegar ao recente avanço neopentecostal. E a maré está a seu favor, na opinião de Ricardo Mariano, professor de sociologia da USP especializado no segmento.
“O cenário evangélico brasileiro, hoje, é radicalmente distinto dos contextos históricos vividos por Martinho Lutero e João Calvino”, diz.
Se esses e outros reformadores dos anos 1600 foram perseguidos pela Igreja Católica, “no Brasil atual os evangélicos gozam de plena liberdade religiosa. Comandam boa parte dos 20% da programação da TV aberta ocupados por grupos religiosos. Dispõem de vasto mercado editorial, extensa rede radiofônica, inúmeros sites e frentes parlamentares país afora”, afirma.
A eleição de Marcelo Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo, para prefeito do Rio em 2016 foi conquista inédita dos evangélicos no Executivo de uma grande capital.
Oito anos antes, no livro “Plano de Poder”, o líder da Igreja Universal já realçava a importância de acordar o eleitorado de sua religião, um “gigante adormecido”, para que assim se chegasse a um “projeto de nação pretendido por Deus”, um “sonho divinal”.

MOSTRA TUA CARA

E qual é a cara dessa fatia florescente na população? Pesquisa Datafolha realizada no fim de setembro, com 2.772 entrevistados de 194 municípios, revela um pouco desse perfil.
Evangélicos: 51% têm renda de até dois salários mínimos, e 16% chegam ao ensino superior. Quanto à cor declarada, 29% se dizem brancos, 45%, pardos, e 16%, pretos.
Na população em geral, 47% ganham dois pisos salariais, e 20% entram em universidades. A cor: 34% brancos, 42% pardos e 15% pretos.
Além de menos branco e universitário, trata-se de um filão mais jovem: a idade média do evangélico é de 38 anos, ante 39,5 do brasileiro como um todo e 41,6 do católico.
Católicos se destacam entre os moradores do Nordeste (62%) e de municípios com até 50 mil habitantes (61%). Já evangélicos alcançam maiores índices no Sudeste (36%) e em cidades com mais de 500 mil habitantes (36%).
Entre as igrejas de preferência, 28% dizem frequentar a Assembleia de Deus, que tem sob seu guarda-chuva uma miríade de ramificações que não necessariamente se alinham.
Para ficar num exemplo político: em 2010, algumas Assembleias apoiaram a petista Dilma Rousseff, outras, o tucano José Serra, e parte endossou a então verde Marina Silva, única evangélica do trio.
Entre os que se classificaram nessa fé, 11% pertencem à Igreja Batista, 6% à Congregação Cristã e 5% à Universal. O restante dos fiéis se pulveriza em outras denominações.
Neopentecostais são mais adeptos do “nomadismo religioso” do que a média: 62% deles afirmam já ter mudado de religião, enquanto, na população geral, só 31% o fizeram. São também os mais assíduos em cultos religiosos: 62% dizem ir a cultos mais de uma vez por semana, taxa que cai para 16% entre católicos.
O Datafolha questionou: “Na sua opinião, evangélicos sofrem ou não preconceito por serem evangélicos no Brasil?”. No geral, 57% declararam que sim, o grupo sofre algum tipo de discriminação. A percepção de que o segmento é alvo de preconceito cresce entre eles (73%). E os neopentecostais se veem ainda mais como vítimas de intolerância (82%).
Para o bispo Robson Rodovalho, falta compreensão sobre essa parcela mais “moderna” dos evangélicos, capaz de se adaptar ao Zeitgeist. “Lutero mostrou como podemos questionar as coisas, tocar no que muitas vezes é considerado intocável. Neopentecostais estão afinados com essa busca de uma igreja mais adequada ao contexto histórico.”
Se Lutero aprovaria ou não os desdobramentos de seu ato de rebeldia contra o papa são outros 500. O prócer da Reforma acreditava que o mundo que ajudou a transformar acabaria ainda em seu ciclo de vida. E, caso pudesse viajar no tempo, se chocaria com a baixa da fé entre europeus e com o que virou o cristianismo contemporâneo, segundo Carlos Eire, da Universidade Yale.
Resta especular o que acharia de inovações como o novo evangelista de Wittenberg: o BlessU-2 ,um robô que oferece orações em cinco línguas.

PODE CHAMAR EVANGÉLICO DE PROTESTANTE?
Os dois termos podem ser usados como sinônimos? Igrejas históricas, consideradas herdeiras mais diretas da Reforma, como a Luterana e a Presbiteriana, costumam ser chamadas de “protestantes”. O termo vem do documento formal de protesto em que os luteranos manifestaram sua oposição à doutrina católica, em 1529.
Já “evangélico” deriva da palavra “Evangelho”, que significa “boas novas”, de cujos ensinamentos o protestante é seguidor. Hoje, o termo aparece mais ligado às vertentes pentecostal (como a Assembleia de Deus) e neopentecostal (como a Universal) da fé protestante. Para o teólogo Marcelo Rebello, “toda igreja não católica e que professa a fé evangélica é protestante na origem”.
Um exemplo é o da igreja Luterana, aqui na aba protestante, e na Alemanha chamada de “evangélica”.

Para líderes religiosos, cisma com Igreja Católica já foi superado

A despeito das muitas diferenças que católicos e protestantes guardam entre si, parecem superadas as fraturas que há 500 anos cindiram o cristianismo e desencadearam uma série de guerras religiosas por toda a Europa.
Protestantes e católicos, hoje, acreditam possuir mais semelhantes que diferenças teológicas. O resultado foi constatado por pesquisa do Pew Research Center com quase 25 mil pessoas em 15 países da Europa ocidental, divulgada no final de agosto.
De maneira geral, para 58% dos protestantes e 50% dos católicos há mais similaridades que distinções entre suas tradições religiosas.
No Brasil –sem desconsiderar que o convívio entre elas foi bem menos traumático do que em solo europeu–, líderes religiosos e pesquisadores também compartilham a opinião de que o cisma foi em grande parte vencido.
“Vamos comemorar de forma conjunta, católicos e luteranos, não os 500 anos da Reforma, mas o diálogo, os passos de entendimento que demos”, afirma o padre José Bizon, diretor da Casa da Reconciliação (órgão da Igreja Católica dedicado ao diálogo ecumênico e inter-religioso).
Ele explica que os esforços mais nítidos de aproximação começaram em 1962, quando o então papa João 23, no segundo Concílio Vaticano, convocou secretariado para pensar a união dos cristãos de diferentes segmentos religiosos.
Em 2016, o papa Francisco pediu perdão aos membros de outras igrejas cristãs pela perseguição liderada por católicos no passado. “A questão não é juntar todo mundo no Allianz Parque, com camisa do Palmeiras, e dizer que todos serão palmeirenses. Isso não dará certo, sairá o maior pau. Devemos nos preocupar em como podemos melhorar o mundo”, diz Bizon.
FAZENDO AS PAZES
A Igreja Católica, explica, faz hoje avaliação bem mais positiva de Martinho Lutero, iniciador da Reforma. “Foi um homem lúcido, que buscava a evangelização do povo. Não queria a divisão, e sim resgatar aquilo de que a Igreja tinha se afastado: Cristo. Infelizmente, não foi compreendido e acabou excomungado.”
Na visão do reverendo Juarez Marcondes Filho, secretário-executivo da Igreja Presbiteriana do Brasil, abriu-se nas últimas décadas a “esperança para o diálogo”.
“No plano das ações sociais e de convívio, tivemos grandes avanços, mas no teológico me parece bastante difícil superar algumas diferenças”, diz ele. Talvez a mais notória delas diga respeito à ideia de salvação, debate preponderante na cisão de meio milênio atrás.
“A divisão no Vaticano era algo inevitável. O saldo foi bastante positivo –não apenas no ambiente religioso. Muitas nações tiveram um grande desenvolvimento no bojo do protestantismo”, destaca o reverendo.
Professor e coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, Francisco Borba também avalia que as características de cada grupo impõem limite a uma integração mais efetiva.
“O catolicismo tem uma tendência para a unidade. No protestantismo, tende-se à fragmentação, ao surgimento de novas denominações, o que gera especificidades na forma de ler o cristianismo.”

Contra ‘bazar do perdão’, teólogo peitou papa e foi excomungado

Há 500 anos, teve início na Alemanha o conflito que opôs um jovem frade à poderosa hierarquia eclesiástica e ao seu representante máximo, o papa Leão 10º. Um pequeno motim pessoal que mudou o curso da civilização.
Aos 34, nascido da pequena burguesia interiorana, Martinho Lutero –biografado pelo historiador Lucien Febvre em 1928, em “Martinho Lutero, um Destino” (Três Estrelas)– dava aula na Universidade de Wittenberg e era orador da igreja local.
Profundo estudioso das Sagradas Escrituras, convencido de que apenas a fé em Deus leva à salvação, Lutero se opôs à venda de indulgências a pecadores promovida pela Igreja Católica –prática cada vez mais popular.
Martinho Lutero, pintado durante oficina ministrada por Lucas Cranach
Em 1517, o fim que justificava o meio era a construção da basílica de São Pedro, em Roma, o que levou Lutero a enviar uma carta a seu arcebispo, à qual juntou “95 teses” que insistiam no dever cristão de se remeter exclusivamente ao Livro Santo, mesmo em detrimento dos interesses da Igreja.
Descrente do efeito que isso pudesse causar, ele afixou o documento nas portas da igreja de Wittenberg, tornando público o seu desacordo.
Um primeiro fator externo a favoravelmente intervir foi a inesperada propagação daquelas teses, graças à recente disseminação das gráficas, com a invenção da imprensa pelo conterrâneo Johannes Gutenberg décadas antes.
Por outro lado, tal popularidade obrigou Roma a reagir. Em menos de quatro anos, Lutero foi excomungado, o que praticamente significava uma condenação à morte.
Outro fator, porém, foi a subida ao trono do Sacro Império Germânico, em 1519, de Carlos 5º, rei da Espanha, gerando “protestos” de boa parte dos príncipes alemães confederados, que se aliaram a Lutero contra o poder papal. Toda essa conjuntura permitiu a consolidação da Reforma Protestante, que rapidamente ganhou adeptos.
Lutero morreu em 1546, no auge das guerras religiosas que devastaram a Europa, vendo ainda no papa o principal inimigo do cristianismo –apesar da iminência da invasão turca– e condenando todos os preceitos não confirmados nas Escrituras.
Sua tradução da Bíblia em alemão se mantém exemplar como obra em si e pela popularização do texto sagrado. Vendo na música um meio privilegiado de acesso a Deus, introduziu cânticos em língua vulgar no culto (seu hino “Castelo Forte é o Nosso Deus” é tido como a “Marselhesa” da Reforma) e foi essencial no florescimento da música barroca alemã.
Bastante intolerante com relação aos credos divergentes, Lutero se posicionou contra anabatistas e calvinistas, outros frutos da Reforma. Em 1543, publicou um violento libelo antissemita, “Sobre os Judeus e Suas Mentiras”, no qual diz que os adeptos do judaísmo “devem ser considerados como sujeira”.
O texto se tornou best-seller no período nazista da Alemanha –do qual a Igreja Luterana tenta se distanciar em sua doutrina até hoje em dia.

Sem ‘primeira-dama’, Reforma Protestante não avançaria

Pouco lembrada na história da Reforma Protestante, a mulher de Martinho Lutero, Catarina de Bora (1499-1552), teve na consolidação do trabalho do marido um papel maior do que se imagina.
Para a historiadora americana Ruth Tucker, autora de vários livros sobre mulheres na história do cristianismo, Catarina é “a segunda figura mais importante da Reforma, atrás apenas do próprio Lutero”.
Tucker desenvolve essa ideia em “A Primeira-Dama da Reforma”, biografia de Catarina recém-lançada no Brasil pela editora Thomas Nelson, por ocasião dos 500 anos do episódio em que o ex-monge Lutero pregou 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, pequena vila no leste da atual Alemanha, para questionar diretrizes do Vaticano.
A determinação de Catarina em administrar os negócios da família e em cuidar da saúde física e mental de Lutero –que sofria de depressão– permitiu ao teólogo se dedicar exclusivamente ao fortalecimento do movimento iniciado em outubro de 1517. “Sem Catarina, Lutero teria sido muito mais pobre e incapaz de fazer certas coisas como publicar e viajar”, diz Tucker.
Catarina de Bora, pintada por Lucas Cranach (Herzog August Bibliothek Wolfenbüttel)
De personalidade forte, Catarina foi uma mulher pouco convencional para o século 16. Aos 5, seu pai a abandonou em um convento, para que ela virasse freira. Tucker lembra que isso permitiu a Catarina receber uma boa educação, algo que, naquela época, dificilmente teria sido permitido a uma mulher.
Mas a clausura e o celibato clerical incomodavam a jovem, que acabou atraída pelas ideias de Lutero contra o celibato. O reformador dizia que os conventos eram “piores do que prostíbulos comuns, tavernas ou antros de ladrões” e que as famílias tinham o dever de libertar suas filhas.
Na Páscoa de 1523, Catarina e mais 11 freiras fugiram para a cidade vizinha de Wittenberg, onde Lutero arranjou casamentos para todas elas –menos Catarina, apaixonada por um jovem de Nuremberg de passagem pela cidade.
Ela pediu ajuda a Lutero, que havia sido professor do rapaz na Universidade de Wittenberg. Em carta, ele insta o jovem, em vão, a tomar uma atitude em relação a Catarina, “antes que ela seja dada a outra pessoa que a queira”.
Quando Catarina ficou sem uma perspectiva adequada de marido, propôs casamento ao próprio Lutero, 16 anos mais velho. Com pena da moça, Lutero aceitou. Casaram-se m 1525 para, conforme ele escreveu, “agradar seu pai, irritar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem”.
Um dos aspectos mais interessantes levantados pela historiadora é a sugestão de que Catarina jamais se converteu de fato ao protestantismo. Uma das evidências que sustentam isso, segundo Tucker, é a ausência de comentários negativos sobre o tempo no convento. “É muito interessante a mulher do Lutero nunca ter falado mal do convento.”
O máximo que Catarina teria dito é que “lá se rezava demais”. “Se ela tivesse falado mal, Lutero teria divulgado. Ele sempre estava atrás de pessoas que falassem negativamente dos conventos.”
Mais tempo dedicado às orações, aliás, era um pedido frequente na correspondência de Lutero para a mulher. Catarina, porém, estava ocupada gerenciando o Mosteiro Negro, prédio desocupado dado à família de Lutero pelo governo da Saxônia em 1524.
Ela transformou o local em pousada e fazenda e estava a cargo de contratar funcionários, comprar suprimentos e administrar as finanças. Tucker lembra que Lutero frequentemente gostava de trazer estudantes para pernoitar de graça, ao que a mulher se opunha. “Isso aqui é um negócio”, dizia Catarina.
Muitos seguidores do teólogo não viam Catarina com bons olhos –achavam-na demasiada agressiva e independente. Isso ficou explícito após Lutero morrer, em 1546.
Em testamento, ele deixou tudo o que tinha para a mulher, mas a lei da época não permitia que viúvas herdassem propriedades. Catarina enfrentou sérias dificuldades financeiras e passou a temer pelo bem-estar dos seis filhos.
Em meio a uma disputa jurídica pela posse do Mosteiro Negro e fugindo da peste que voltava a assolar Wittenberg, a viúva viajou para uma cidade vizinha em 1552. No meio do caminho, a carruagem em que estava sofreu um acidente, e ela foi arremessada até cair em uma vala. As consequências dessa grave queda foram fatais para Catarina, que morreu três meses depois.
“Sabemos o que ela fez e no que estava envolvida, só não sabemos muito sobre a vida espiritual dela”, diz Tucker, ela também mulher de um pastor.

Lutero via aristotelismo como ‘prostituta grega’ no cristianismo

Não, Martinho Lutero (1483-1546) não foi um “simples” reformador. Foi um intelectual profundamente imerso nas polêmicas filosóficas e teológicas de seu tempo, assim como seu “ancestral”, Agostinho de Hipona (354-430).
Uma dessas controvérsias, talvez uma das mais essenciais, foi aquela ao redor do que acabou por ficar conhecido como a polêmica humanista.
Ela agitou a Europa dos séculos 13 a 17, e Lutero está bem no meio dela. Deita raízes no debate em torno da concepção de natureza humana cristã, que, por sua vez, tem na polêmica da graça entre Agostinho e Pelágio (360-420) sua primeira manifestação.
Mas outro termo, essencial no debate entre Lutero e Erasmo de Roterdã (1466-1536), já está aí presente: “livre-arbítrio” –possivelmente, inventado por Agostinho.
Agostinho foi duro crítico do que em filosofia ficou conhecido como a contaminação do cristianismo pelo estoicismo de Pelágio –para quem todo homem recebia graça suficiente para escapar do pecado original. Era, pois, autônomo na sua vontade passível de “melhoria” moral por si mesmo.
Para Agostinho, essa ideia era absurda, uma vez que, empiricamente, os homens não escapavam do pecado (todos orgulhosos, mentirosos, inseguros e por aí vai).
Poucos sim. Esses recebiam a graça contingente e eficaz (salvífica), dada de modo inesperado a “predestinados”. Esse caráter contingente da graça era justamente para humilhar o orgulho daqueles que se achavam moralmente superiores aos miseráveis pecadores comuns.
Para Agostinho, o orgulho estoico estava presente na teoria pelagiana, e o que faltava ao estoico e a sua pretensa autonomia era ajoelhar e chorar.
Como é sabido, Lutero debaterá com Erasmo, o grande humanista holandês católico, justamente acerca do livre-arbítrio. O texto “Servo Arbítrio” (1525), do alemão, critica a ideia de humanismo presente em Erasmo. E qual é ela?
Em filosofia, é a ideia de que o homem é autônomo moralmente, passível de aperfeiçoamento, e que suas criações culturais e racionais não só atestam isso como alimentam seu infinito processo de aperfeiçoamento. O conceito tem longa credencial filosófica.
Já no século 13 –ainda que sem a terminologia “humanismo”, que ganhou identidade no período renascentista–, a filosofia parisiense terá numa das suas estrelas de época, o médico aristotélico Siger de Brabant (1240-1282), um defensor da autonomia racional e moral humana.
Ainda que não negando a necessidade da fé absolutamente, Brabant defenderá a possibilidade de o homem atingir uma certa felicidade a partir do uso do intelecto livre sobre a vontade.
Lembremos que Lutero via a contaminação da cultura cristã europeia pelo aristotelismo como a entrada da “prostituta grega” no cristianismo. Para ele, o humanismo do livre-arbítrio era um erro ontológico, não só teológico ou moral. Para o reformador, o equívoco de Erasmo não era simplesmente um pecado da vaidade, era um mau entendimento de toda a tradição israelita e cristã.
‘TUDO É VAIDADE’
Não à toa, no prefácio de sua tradução alemã do Eclesiastes, Lutero afirma que, ao contrário do que possa parecer, o livro da Bíblia hebraica (que os cristãos chamam de Velho Testamento) não visa afirmar a pura e simples miséria da Criação (“tudo é vaidade, vaidade das vaidades”), mas sustentar que tudo depende da vontade livre de Deus. De novo, a graça surge como conceito contrário à autonomia humana. Por quê?
O erro ontológico dos humanistas era imaginar que seria possível ao homem pós-adâmico colocar-se em relação com Deus (realizando o Bem) sem a intervenção Deste. O pecado de Adão recusara exatamente o caráter de graça da Criação, querendo afirmá-la “sua” de alguma forma. Ao afirmar que a Criação não era graça “de graça”, mas “propriedade” humana, Adão e Eva lançaram o homem numa ignorância de Deus.
Para Lutero, sendo Cristo Deus absolutamente, nossa falta de relação com Deus se repetia em nossa falta de relação com Cristo. Essa distância entre nós e Cristo só poderia ser vencida pela intervenção livre Dele (eis o sentido da graça salvífica).
O erro do humanismo era reincidir no erro de Adão, afirmando sua falsa autonomia –cego pelo pecado, afirmava a existência de um livre-arbítrio autônomo, recusando-se a ver a escravidão da vontade humana ao orgulho herdado do erro de Adão, afirmando sua “propriedade” sobre a Criação, e sobre nossa vontade e intelecto, podendo fazer deles o que quiséssemos.
Logo o erro humanista não era mero erro de “cálculo moral”, mas erro cognitivo, que tornava o homem cego para o fato de que nossa dependência para com Deus é nossa única salvação e, sendo assim, só a humildade na espera da misericórdia pode falar a nossos corações atormentados pelo orgulho de um intelecto cego.
Só a humildade nos restitui a percepção da graça à nossa volta. O pecado é cegueira, revolta e orgulho, segundo Agostinho. Mas quebrar o “feitiço” do orgulho, só a graça salvífica pode fazê-lo. Sem ela, repetimos, como num sintoma infinito, a miserável aposta do homem em si mesmo.

Cidade mais evangélica do Brasil rechaça ‘fé-espetáculo’

'Arroio do Padre não faz jus ao nome. A cidade gaúcha há tempos não tem um sacerdote católico próprio. E, se tivesse, ele não teria muito trabalho por ali.
Estamos falando, afinal, do mais evangélico dos 5.570 municípios do Brasil, no qual 85,8% da população de 2.900 habitantes se declarou evangélica no Censo realizado em 2010, ante 7,7% de católicos, 4,7% sem religião e menos de 1% de espíritas e de testemunhas de Jeová.
O último grande levantamento nacional do IBGE registrou 22,2% adeptos desse segmento religioso no país todo, um batalhão de 42 milhões de fiéis. Sete anos depois, a participação evangélica inchou para 32%, segundo o Datafolha.
Mas os arroio-padrenses passam longe do neopentecostalismo da Universal do Reino de Deus e afins, filão que cresce a galope Brasil afora e se caracteriza por práticas por vezes vistas como performáticas por tradicionalistas, com promessas de curas milagrosas, libertação de possessões demoníacas e cultos para “sucesso financeiro”.
A cidade a 200 km de Porto Alegre, acessível por estradas de nomes como Morro do Inferno e Santa Coleta, foi alvo da imigração alemã no século 19. Não por acaso, professa sobretudo a fé luterana, derivada do prócer da Reforma Protestante, o ex-frade germânico Martinho Lutero.
Mais tradicionais, sim, mas não antiquados, como se nota na camisa do pastor Michael Kuff, 32, com a estampa de uma caveira com fones de ouvido e o conselho: “Não espere morrer para ouvir a voz de Deus” –ele é fã da Oficina G3, banda de rock cristão que se vende como “exemplo de grupo que conseguiu aliar o propósito de divulgar o Evangelho por meio da música pesada”.
Kuff deixa de lado o cortador de grama que usa no quintal de sua casa, vizinha à igrejinha luterana que comanda há seis meses, para conversar com a reportagem. Só não poda seu incômodo com denominações neopentecostais.
Em sua opinião, elas usam a fé como “moeda de troca”, como se o fiel pudesse exigir: “Sou bom cristão, então Deus é obrigado a me abençoar”. Lutero, lembra, peitou o papado meio milênio atrás justamente por rejeitar a ideia da salvação como item à venda (as indulgências da época).
Esse estilo mais agressivo de evangelização às vezes pega mal na sociedade, diz. “Hoje é um problema falar no banco que você é pastor. O gerente acha que você é ladrão.”
O também pastor luterano Aroldo Agner, 46, vê um ponto comum entre os diferentes segmentos evangélicos: a noção de família como “pai, mãe e filhos”. Não sabe dizer se há núcleos familiares “alternativos” na região.
“Se há [gay], não tenho conhecimento. Talvez em Pelotas tenha”, afirma sobre o município vizinho do qual Arroio do Padre se emancipou em 1996, após um plebiscito.
O que de fato não há muito por aquelas bandas: simpatizantes do PT. Na eleição de 2006, Arroio deu a Lula sua menor votação proporcional no país (11,5% contra 81,5% do tucano Geraldo Alckmin).
“Esta situação com a esquerda se complicou bastante. Em função da religiosidade aqui, complica [o apoio] a essa ala”, afirma o secretário de administração local, Loutar Prieb, que se locomove num carro com adesivos de crucifixo e peixe (antigo símbolo cristão). “Nosso primeiro prefeito era do PDT, mas teve origem na Arena [partido de suporte à ditadura militar].”
Em 2014, Aécio Neves (PSDB) perdeu a eleição presidencial, mas bateu Dilma (PT) ali por 70,5% a 30,5%. O atual prefeito, Leonir Baschi, é do DEM, e seus antecessores, do PFL (atual DEM) e do PP, siglas alocadas à direita no espectro político. “A ideia esquerdista não é muito bem-aceita pelos que são de origem [alemã]”, diz o pastor Agner.

'EU BEBO, SIM'

Chefe de gabinete do prefeito Baschi, Andiara Bonow, 27, é um retrato fiel da juventude local. Como o pastor Kuff, vê com reservas a ideia de uma fé que promete mundos e fundos para conquistar novos fiéis.
Aquela noção, afirma, de que “se tu entrar na igreja, vai ter carro, futuro promissor não é isso. Igreja é para ter paz de espírito”.
Ela cresceu dentro de uma congregação evangélica, num município cuja densidade demográfica é de um morador por 21 km², na típica vida interiorana de que “arranca cenoura da terra e come direto”. Conta que levou um choque quando foi estudar na universitária Pelotas. “Lá não tem isso de acordar e ir a um culto, [o pessoal] prefere festa.”
Não que Andiara seja ruim de copo. Zelosos da raiz germânica, os evangélicos de Arroio sabem valorizar um bom caneco de cerveja, diz ela, de pulôver roxo com “kiss” (beijo) inscrito no peito (o pingo no “i” é um coração) e uma tatuagem de “faith” (fé) no pulso.
Foi inclusive em um “bailão” no qual não faltou álcool que conheceu seu marido, de quem herdou o sobrenome Bonow –do clã que também batiza a cervejaria local, maior point da cidadezinha.
“Somos uma comunidade que consome muita cerveja”, ratifica o prefeito do município, com PIB per capita de R$ 14 mil em 2013 (quando a média brasileira era de R$ 26,5 mil), numa economia baseada na produção de tabaco. Baschi só faz uma ressalva: “É muito difícil encontrar alguém bêbado, fazendo escândalo”.
O pastor Kuff assina embaixo: “Muitos acham que é pecado dançar, beber cerveja, vinho. Mas o pecado não está nas coisas, mas dentro de si”. No templo sob sua guarda, frequentado por cerca de 200 fiéis, um calendário traz os dizeres: “Igreja sempre em reforma: agora são outros 500”.
A poucos metros, numa tarde de setembro, caminha um rapaz com uma garrafa PET em mãos (conteúdo desconhecido) e camisa que ostenta o coelhinho símbolo da revista “Playboy”. Como tantos ali, é também evangélico.

Fundadores de primeira igreja protestante no Brasil falavam tupi

Os primeiros protestantes brasileiros falavam tupi. Há quem atribua à congregação fundada no século 19 pelo escocês Robert Reid Kalley, no Rio de Janeiro, o título de primeira igreja evangélica fundada em território brasileiro.
A historiadora Jaquelini de Souza, no entanto, lança o argumento de que índios potiguaras formaram uma igreja protestante dois séculos antes de Kalley. Autora de “A Primeira Igreja Protestante do Brasil: Igreja Reformada Potiguara” (Ed. Mackenzie, 136 págs., 2013, R$ 20), Jaquelini investigou a história da “tupãóka” (igreja) potiguara, que nasceu por volta de 1630, na região da atual Paraíba, em meio à ocupação holandesa.
O primeiro contato entre índios e batavos se deu provavelmente em francês. A língua teria sido anteriormente ensinada aos nativos brasileiros por piratas, segundo a historiadora.
Pedro Poty e Antônio Paraupaba, dois membros da “elite” indígena local, foram levados aos Países Baixos, que já eram uma nação protestante naquela época.
Na Europa, receberam “o melhor da educação holandesa” e se converteram ao protestantismo. De volta ao Brasil, exerceram cargos de liderança na Nova Holanda, que incluíam tarefas de auxílio na cooptação de índios para o lado holandês e tradução, em meio à guerra entre portugueses e batavos.
Com a vitória lusitana, os índios protestantes se refugiaram no Ceará, na serra do Ibiapaba. Antônio Paraupaba foi à Europa, em busca de ajuda dos holandeses. Lá, segundo Jaquelini, ele disse algo como “estamos esperando por vocês”.
A ajuda não veio. O último registro de índios protestantes na região é de meados da década de 1690.

COMEI, É MEU CORPO

Um dos pontos defendidos por Martinho Lutero, teólogo que deu início à Reforma Protestante, na Alemanha, era que a fé cristã deveria ser professada nas línguas vulgares dos fiéis, e não somente em latim. Fosse em alemão ou em tupi, todos deveriam poder conversar com Deus no idioma nativo.
No Brasil holandês, planejou-se a escrita de catecismos (conjunto de princípios religiosos) em tupi, mas o projeto foi abandonado.
O estereótipo do canibalismo que ainda recaía sobre os nativos brasileiros fez com que o sínodo de Amsterdã mudasse de ideia. A parte do texto que fala sobre “comer a carne de Jesus” poderia ser interpretada erroneamente, diz Jaquelini.

Megatemplo na Coreia do Sul já foi considerado maior igreja do mundo

Não são nem 7h quando, em frente à enorme catedral com vistas para o rio Han, que cruza as maiores cidades sul-coreanas, espreita-se a avalanche humana.
Mais de 12 mil fiéis se aproximam para participar do primeiro culto, cena que se repete sete vezes no dia –num único domingo, vêm até 200 mil pessoas.
Estamos na Yoido Full Gospel Church (Igreja do Evangelho Pleno), apontada pelo “Guinness Book”, em 1993, como o maior templo neopentecostal do mundo, com 700 mil fiéis (hoje são 880 mil).
Um único culto pode atrair 25 mil pessoas –150% mais do que a capacidade máxima da réplica do Templo de Salomão que a Igreja Universal ergueu em São Paulo. Muitos ficam em pé para ouvir o reverendo David Yonggi Cho, fundador da Yoido.
Cho é uma figura controversa. Em 2011, foi criticado por declarar que o tsunami que atingiu o Japão foi um “aviso de Deus” a um país apegado ao “secularismo” e ao “materialismo”. Também foi acusado por 29 anciões da Yoido de desfalcar os fundos da igreja em US$ 20 milhões –em um processo que a Justiça acabou arquivando.
Tudo é milimetricamente organizado em seu templo, que conta com caixas eletrônicos internos. Mais de cem membros do ministério, com seus terninhos brancos, ajudam a guiar a multidão, sempre prontos a oferecer água.
São mais de dez telões espalhados por cinco andares. Num cantinho para estrangeiros, há fones para tradução simultânea em 14 idiomas, como inglês e espanhol.
FÉ S/A
Cho se aposentou, embora ainda participe das atividades pastorais. Atual líder da Yoido, o pastor Lee Young-hoon conta que a receita do sucesso é a harmonia da equipe de 700 funcionários.
“Existem 40 comitês. Cada um administra uma área específica, como finanças e mídia. Todos os membros fazem sua parte, como em uma orquestra.”
O orçamento anual da igreja é de US$ 100 milhões. “Tudo o que ganhamos aqui vem dos nossos colaboradores”, diz Lee. A maior parte provém dos mais de 50 mil empresários que integram a comunidade e fazem doações.
A dinâmica lembra uma megacorporação, com plano financeiro e metas de expansão. Por mês, chegam à congregação cerca de mil novos fiéis. “O crescimento é a vida da igreja. Se não crescer, ela morre. É preciso se expandir.”

TÁTICA DE CONQUISTA

Em 1887, missionários americanos levaram o protestantismo à Coreia. A tática de então para conquistar os orientais foi amparar a construção de escolas, como a Universidade de Yonsei, primeiro centro universitário privado do país, além de hospitais.
O grupo levou uma vertente mais conservadora da religião –que continua em voga na Yoido. Quando o pastor Lee fala que o casamento gay não pode ser permitido, os milhares de fiéis presentes aplaudem veementemente.
O protestantismo sul-coreano teve seu boom nos anos 1970 e 1980, no pós-Guerra da Coreia (finalizada em 1953). A pobreza e a vontade de reconstrução foram terra fértil para igrejas protestantes.
Em 2015, o censo do país mostrou que a religião predominante na Coreia do Sul era a protestante (19,7%). Até 2005, o budismo liderava, mas a taxa caiu para 15,5% dez anos depois. A maioria dos sul-coreanos (56%) não declara preferência religiosa.
O avanço evangélico não deve aumentar muito, diz Sangkeun Kim, professor de teologia da Universidade de Yonsei. Tempos de bonança podem ser um desafio e tanto para líderes religiosos.
“Nesse momento, estamos com dificuldade para encontrar o lugar da igreja na sociedade coreana. Elas costumavam ser uma zona de conforto para os pobres”, afirma.
Mas megatemplos ainda são pop no país, e um dos motivos é o apego do coreano em “pertencer a grandes grupos”, diz o professor. “Todo mundo tem celular da Samsung, pois assim se sente parte de uma ‘comunidade’ que tem o suporte dessa holding.”

‘Curas milagrosas’ têm apelo em meio a ‘caos’ social, afirma especialista

“Tira, Senhor, deste homem, tira desta mulher o cisto, o tumor, o câncer, faz o milagre na vida deles”, diz de olhos fechados o pastor, quase não parando para tomar fôlego entre as frases. Cerca de 20 fiéis o acompanham dos bancos, murmurando “eu creio, Senhor”, mãos erguidas em oração.
Cenas assim se repetiram diversas vezes ao longo da semana, num grande templo neopentecostal do interior de São Paulo.
Em dado momento, o pastor pergunta se alguém quer compartilhar algum testemunho sobre a ação divina em sua vida. Conta que uma criança com câncer que fora desenganada pelos médicos se recuperava após uma fiel orar por ela. “E olha que a família nem é da igreja, foi a vizinha que pediu a Deus por ela.”
A crença em curas milagrosas é um traço importante das denominações pentecostais e neopentecostais, que correspondem à maior parte dos evangélicos do Brasil. Representado por grupos tão diferentes quanto Assembleia de Deus e Renascer em Cristo, o movimento parte do princípio de que os grandes sinais da presença de Deus relatados a respeito dos primeiros cristãos no Novo Testamento estão disponíveis aos crentes do século 21, desde que eles coloquem sua fé em Cristo e peçam a ajuda do Espírito Santo.
Daí a designação geral dessas igrejas –afinal, teria sido na festa de Pentecostes (50 dias após a Páscoa judaica) que os discípulos de Jesus receberam o Espírito Santo em forma de línguas de fogo, segundo o livro bíblico dos Atos dos Apóstolos. Essa dádiva espiritual teria sido acompanhada da capacidade de realizar curas, expulsar demônios e falar em línguas estranhas, atributos que os membros das igrejas modernas afirmam reavivar.
E não apenas no Brasil –o pentecostalismo tem alcance global e segue padrões parecidos até no longínquo Quirguistão (Ásia Central). Cá e lá, a sensação de que curas sobrenaturais estão prestes a acontecer vem quando a oração em voz alta, coletiva e extática, atinge uma espécie de clímax, relata Mathijs Pelkmans, professor de antropologia da London School of Economics.
Pelkmans conta ter presenciado o momento no qual Venera, uma moça na casa dos 20 anos que fora muda a vida toda, pronunciou a palavra “Jesus” em culto da quirguistanesa Igreja do Evangelho Completo de Jesus Cristo –ou foi o que pareceu aos olhos dos fiéis naquele momento.
Meses depois, membros da igreja contaram ao antropólogo que Venera continuava afônico. Para o professor, os dons de cura do pentecostalismo têm um apelo especial em contextos de confusão institucional e perda de tradições, como o Quirguistão pós-soviético.
Segundo Candy Gunther Brown, do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Indiana (EUA), muitas igrejas pentecostais têm uma relação ambivalente com o registro das curas. Costumam coletar testemunhos sobre os milagres em seus sites e até editar livros com eles, mas se recusam a fornecer informações médicas detalhadas a pesquisadores interessados em estudar o fenômeno.
Para ela, além do aspecto religioso, as curas “pelo Espírito Santo” envolvem elementos sensoriais (a imposição das mãos do pastor, a oração repetitiva etc.) que têm entrada com pessoas que se sentem abandonadas pela relativa impessoalidade da medicina moderna.

Bancada evangélica é menos branca, mais nova e mais casada que a média


Um corpo de deputados menos branco, mais novo, com maior apego ao matrimônio e menor índice de diplomados, eleito em campanhas mais baratas, com um empurrãozinho de igrejas –e dono de um apetite dobrado por proposições legislativas na área dos direitos humanos, nas quais pululam expressões como “moral e bons costumes” e “família”.
Eis a cara da bancada evangélica em comparação ao quadro geral da Câmara, segundo levantamento da Folha.
É um bloco que se agiganta a cada nova eleição: em 1994, congregava 21 (4%) de 513 deputados; quadruplicou para atuais 80 (15,5%), a maioria vinda de igrejas da Assembleia de Deus (23) e da Universal do Reino de Deus (14).
A prioridade para 2017 já está posta: “Lutar contra esse ‘tiroteio’ orquestrado dos ateus e ‘esquerdopatas’, via rótulo de arte, contra nossas crianças”, diz o presidente da frente, o pastor Hidekazu Takayama (PSC-PR), evocando recentes polêmicas com o mundo artístico, entre as quais a da mostra “Queermuseu”, com hóstias ornadas com a palavra “vagina” e pinturas inspiradas em fotos do site “Criança Viada” no rol de obras.
Não é de espantar, portanto, que a ala se dedique quase duas vezes mais a temas reunidos sob o selo “direitos humanos”. Eles representam o mote mais pop entre evangélicos, com 7,3% das proposições apresentadas pelo grupo. Considerando o total de deputados, cai para o sétimo campo de interesse (4%).
Uma amostra: o projeto de decreto legislativo do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para tentar sustar resolução da Secretaria de Direitos Humanos que orienta instituições de ensino a garantir direitos de travestis e transexuais.
Diz o texto: o uso de banheiros femininos por “pessoas que digam que sua identidade de gênero é diferente de seus cromossomos […] constrangerá a norma dos bons costumes”.
A porção evangélica na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, entre titulares e suplentes, é 21% –como Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), aliado do pastor Silas Malafaia.
O recorde está na Comissão de Ciência e Tecnologia, na qual esses parlamentares detêm 40% das 30 cadeiras. E não por acaso, diz Gerson Moraes, professor de teologia e política da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É por ali que passam concessões de rádios e TVs, a joia da coroa para evangelistas –programas de teor religioso dominam 20% da TV aberta, segundo a Agência Nacional de Cinema.
Essas outorgas “vinham do presidente até a Constituição de 1988”, diz Moraes. “Aí elas viraram responsabilidade do Legislativo.” Não à toa tanto empenho em emplacar evangélicos na Câmara, afirma.
Em um ponto esse batalhão parlamentar se equipara à lavra média da Câmara: nos dois recortes, mulheres –51,5% da população– são minoria, uma em cada dez deputados.
Se 73% desses políticos são casados, a fração aumenta para 87,5% entre os evangélicos. Dessa bancada religiosa, 70% se declaram brancos, 25% pardos e 5% pretos. Na Casa como um todo, as proporções são 79%, 17% e 4%, respectivamente. Idade média dos evangélicos: 50 anos, 4 menos do que a do conjunto da Câmara.
Menor é também o custo para eleger evangélicos, cujas campanhas de 2014 saíram por cerca de R$ 911 mil, ante R$ 1,3 milhão da média parlamentar.
Vem do Partido Republicano Brasileiro, vinculado à Universal, a maior fatia da bancada (15 deputados). Em segundo e terceiro lugares, o Democratas, com 8 representantes, e o Partido Social Cristão, 8.
‘AMÉM’ NA CÂMARA
“Quem está feliz por estar com Jesus aqui? Amém!” Aqui, no caso, é a Câmara, e os autodeclarados felizardos participavam no dia 18 de outubro do costumeiro culto das quartas, quando deputados e assessores preenchem uma sala da Casa com gritos de “glória a Deus”, antes de começar a atividade parlamentar.
Com a palavra, Pastor Eurico (PHS-PE). Encerrada a reunião, na qual evoca “as trevas que estão aí para destruir a família”, ele diz à Folha o que vê como missão da bancada evangélica da Câmara: “Não podemos somar com quem defende drogas, aborto, desvalorização da construção daquilo que é divino: macho, fêmea, homem, mulher”.
Gilberto Nascimento (PSC-SP) não se vê em “bancada de direita, e sim numa bancada de princípios”. Mas, “se [defender a família] é estar mais à direita”, que assim seja.
A frente tem um grupo no WhatsApp com deputados e seus assessores. Por lá circulam sugestões de boicote a anunciantes do “Fantástico”, após a exibição de reportagens sobre gênero –uma delas traz um casal que ensina seus filhos homens a brincar com carrinhos e também com bonecas.
Há ainda frases como: “Querem que os héteros tenham relacionamentos líquidos, mas que os gays se casem nas igrejas. Que homens se tornem ‘frágeis’ e com trejeitos, como se fossem mulheres”.
De seus 80 membros, 46 também são signatários da frente de segurança pública, e 33 da ruralista. Ao todo, 23 atuam nos três fronts, entre eles Takayama e Shéridan (PSDB-RR), relatora de uma das PECs da reforma política. A tríplice aliança tem apelido: “Bancada BBB” (Bíblia, Bala e Boi).
E como se posicionam nas pautas políticas que incendeiam Brasília? Da bancada, 37,5% se opôs a arquivar a segunda denúncia contra Michel Temer (PMDB), na votação de quarta (25) –a média no plenário foi de 45,5%. Menos benevolentes foram com Dilma Rousseff (PT): 89% disseram “sim” ao seu impeachment, em abril de 2016.
Texto: Anna Virginia Balloussier, Marco Rodrigo Almeida, Guilherme Magalhães, Jorge Bastos, Luiz Felipe Pondé, Eduardo Moura, Ariane Annunciação, Reinaldo José Lopes, Fábio Takahashi e Estêvão Gamba / Imagens: Lalo de Almeida, Marcus Leoni e Giovanni Bello / Infografia: Gustavo Queirolo e Luciano Veronezi / Edição de fotografia: Daigo Oliva / Edição de texto: Anna Virginia Balloussier / Tratamento de foto: Edson Sales / Design: Angelo Dias, Rogério Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida / Coordenação de arte: Thea Severino e Adriana Mattos / Revisão: Jonas Canuto


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