04 dezembro 2017

NICHOLAS WINTON: UM NOME DIGNO DE APLAUSOS

Nicholas Winton ‘Schindler britânico’

Muitos comparam Nicholas Winton a Oskar Schindler, o alemão que salvou milhares de judeus e que foi imortalizado no cinema por Steven Spielberg em A Lista de Schindler. O relato deste britânico é semelhante: conseguiu retirar em 1939 mais de 669 crianças judias da atual República Tcheca, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Sua história é muito conhecida no mundo todo, e especialmente no Reino Unido, onde nasceu. Por isso, são tão surpreendentes as cifras dos vídeos sobre ele que o site de virais Newsner publicou no Facebook.

Em quatro dias a partir de 10 de agosto, um vídeo em inglês do Newsner sobre a história de Winton recebeu 93.000 comentários, 1,6 milhão de reações, 5,2 milhões de compartilhamento e, atenção, já soma 150 milhões de reproduções. Vamos contextualizar estes números: a UEFA calcula que a final da Champions League de 2015 (a última para a qual estimou um número de espectadores) foi vista por 180 milhões de pessoas em todo o mundo.

E essas são as cifras da versão em inglês. Se somarmos os 39 milhões do vídeo em espanhol, os três milhões do alemão e os dois milhões do sueco, o número total de visualizações já se aproxima do tamanho da população brasileira. 

Winton nasceu em Londres, no seio de uma família judia. Ganhava a vida como corretor da Bolsa, e às vésperas da Segunda Guerra Mundial, fez com que mais de 669 crianças judias da atual República Tcheca chegassem de trem ao Reino Unido, onde eram esperadas por famílias de acolhida. Segundo relata o vídeo, sua façanha teria sido um segredo durante 50 anos inclusive para sua família, até que sua mulher descobriu um caderno com fotos das crianças resgatadas. Alguns dos dados mencionados no vídeo, como contamos em seguida, não são totalmente precisos.

O vídeo termina com um pedido que impulsionou a sua difusão maciça: “Ajude-nos a compartilhar sua história em homenagem a Sir Nicholas Winton". As diferentes versões do vídeo também circularam bastante em outras redes sociais além do Facebook. Há vários tuítes com o vídeo, com dezenas de milhares de retuítes, tanto em inglês como em espanhol. Também viralizou no WhatsApp.

As imagens do vídeo procedem do programa That's Life, da BBC, uma revista eletrônica exibida pela emissora pública britânica entre 1973 a 1994. Em 1988, Winton foi convidado a participar do programa. A apresentadora, Esther Rantzen, lhe disse inicialmente que só uma das meninas resgatadas estava na plateia, mas depois se descobre que todos os presentes viajaram nos trens que ele organizou.
Neste artigo da BBC você pode ver o vídeo original do trecho mais comovente, justamente o que compõe a maior parte da cena que o Newsner conseguiu viralizar. Este outro vídeo também é um clássico do YouTube, onde acumula quase 40 milhões de visualizações em sua versão mais difundida. Winton morreu em julho de 2015, depois de receber todo tipo de reconhecimento, como mencionava o obituário publicado no EL PAÍS. Por exemplo, foi nomeado cavalheiro pela rainha Elizabeth II em 2003, e em 2013 houve uma campanha para que fosse condecorado com o Nobel da Paz.

Alguns exageros

A história deste britânico é quase tão impressionante como se relata no vídeo do Newsner, mas há algumas imprecisões, como por exemplo que ele começou o resgate em 1938. Na verdade foi em 1939, mas ajudado por uma lei britânica aprovada no ano anterior que permitia a entrada no Reino Unido de refugiados menores de 17 anos, desde que se depositasse dinheiro para sua viagem de retorno. Outra inexatidão é bastante difícil de perceber, já que meios de comunicação de todo o mundo há décadas fazem o mesmo relato do vídeo. Estamos falando do momento em que a mulher de Winton descobre sua façanha.
Muitas fontes afirmam que a mulher levaria 50 anos para saber o que ele fez. Entretanto, como relatou o próprio Winton no The Guardian, sua mulher conheceu a história bem antes de encontrar as anotações de Winton em sua casa. Seus filhos também eram plenamente cientes de que seu pai salvara centenas de crianças tchecas.
"Quando era necessário, ele falava abertamente do tema. Não queria fazer do resgate das crianças a chave da sua vida, o momento que o definiria, que é o que aconteceu desde 1988. Ele achava que seu trabalho para a Organização Internacional para os Refugiados e para o Banco Internacional de Reconstrução e Fomento teve um impacto mais profundo”, diz o artigo do The Guardian.

Mas é verdade que a história de Winton só passou a ser conhecida do grande público quando ele foi ao That's Life. Àquela altura, o britânico já tinha 79 anos. O relato passou por um ponto intermediário antes de chegar aos ouvidos da BBC. A mulher de Winton, Grete, entregou o caderno com os dados e as fotos a Elisabeth Maxwell, pesquisadora do Holocausto e mulher do jornalista Robert Maxwell, que publicou a história no jornal Sunday People. Aí ela foi parar na BBC e, 19 anos depois, continua circulando pelas redes sociais.

Veja o vídeo abaixo:


https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/13/internacional/1502632122_254507.html

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